sexta-feira, 10 de junho de 2022

“Os professores, a ciência, o povo da cultura e das artes viraram inimigos do projeto político em curso. Mas vai passar”

 Cena da Música Independente entrevista Claudio Salles



Foto: Facebook.


A música entrou na vida do jornalista, radialista, compositor, guitarrista e cantor Claudio Salles ainda na infância, em Campo Grande (MS). Criança nos anos 1970, não foi preciso muito esforço para adquirir bom gosto musical. Àquela época, a contracultura estava no auge: apesar de criança, Claudio ouvia, atentamente, o som dos artistas que chegavam, com fluidez, nas "vitrolas" da família Salles. No rádio e na TV, passavam nomes como Beatles; Secos e Molhados; Tim Maia; Raul Seixas; Chico Buarque e outros gigantes da música brasileira e internacional.

 

Aos oito anos, ele começou a aprender violão. Parou e voltou a tocar aos 13. Com 15, começou a compor e a tocar em festivais. A coisa foi crescendo.

 

Aos 16, mudou-se para Niterói (RJ), onde conheceu Claudio Zoli, Renato Roquete, Paulinho Guitarra, Zé Maurício, Arnaldo Brandão, Carlinhos Baixista e outros músicos que tocavam com a Banda Black Rio e Eduardo Dusek.

 

Era um grupo que já ensaiava na casa da avó, com seu primo, Lui, que tocava bateria. Trocando em miúdos: Claudio desembarcou em Niterói, no epicentro da melhor música que se fazia na região metropolitana do Rio de Janeiro.




Foto: Facebook


 

Daí em diante, o artista passou por diversas bandas. Chegou a tocar, por exemplo, com os irmãos Marcelo e Antônio Scobino, que acompanhavam Celso Blues Boy, em pleno início da efervescência do Rock Brasil, nos anos 1980. Salles viajava com Celso e banda. Ao gravar alguns trabalhos com o blueseiro, tornou-se, também, parceiro de composição do guitarrista - falecido em 2012.

 

Jornalista, Claudio Salles trabalhou na Rádio Fluminense FM – inclusive como produtor musical -, chegando ao cargo de coordenador; no que foi, para ele, “uma experiência enriquecedora”. Além da “Maldita”, Salles passou, também, pela extinta Globo FM. No final dos anos 1990, fundou a Rádio Pop Goiaba UFF, “que é um pouco o resultado de todas essas experiências”.

 

Nesta entrevista, ele nos conta um pouco sobre sua trajetória no mundo da música. Militante, Salles compartilha, com outros colegas músicos, a tese de que é necessário democratizar o acesso à renda para os trabalhadores do setor. Confira!

 

Quais são seus últimos trabalhos autorais? Estou finalizando um disco agora, com produção do baixista e produtor Daniel Cahon, que realiza, aqui em Niterói, o Sarau do Cahon. O álbum já está na mixagem, mas ainda não tem nome. Estamos decidindo entre “Depois do Caos”, “Vermelho é a Cor do Amor” e “A Felicidade é Guardada Pelos Cães”. Estou muito feliz com o resultado. São 10 canções, algumas novas e outras, nem tanto. Entre elas, destaco a música “A Cigana”, cuja letra é toda sobre cartas e baralhos do tarô; “Sana Contra os Dinossauros”, que fala sobre o Sana – um rock rural alegre, com letras de protesto e temática ambiental; “Depois do Caos, Paz”, sobre a Cantareira [espaço boêmio e cultural localizado entre o bairro do Gragoatá e o Centro de Niterói].

Outra canção importante é a “Zé do Baile”, que contou com o arranjo do baixista Arthur Maia e a voz da Elza Soares [falecidos, respectivamente, em dezembro de 2018 e em janeiro de 2022 ]. Elza nos emprestou a voz dela, mas ainda não a havíamos colocado no disco, que não estava finalizado. Agora, sim, a música está pronta.




Arthur Maia, Ney Matogrosso e Claudio Salles. Foto: Facebook.


 

Você circula bem no meio musical. Quais são os músicos que gravaram esse novo trabalho contigo? O álbum tem a participação do Cláudio Infante, na bateria - outro batera que participou foi o Ayres D`Athayde, músico daqui da cidade de Niterói. Na guitarra, o Fernando Caneca, que toca com a Marisa Monte; o saxofonista Marcelinho Martins, do Caetano Veloso, do Djavan e dos Titãs; o Marlon Sette, da banda do Jorge Ben Jor, no trombone; o Vladimir Souza, tecladista do Zé Ramalho; o Francisco Chagas, que tocou teclado e acordeom com a Cássia Eller; o Carlos Malta, flautista do Hermeto Pascoal; além de Marcelo Bernardo, que tocou com o Chico Buarque. Um time de primeira, que faz parte das minhas principais influências musicais, e tocam em quase todas as faixas do disco, que será lançado, provavelmente, nos próximos dois meses.

 

 

Como você avalia o cenário musical de Niterói, mais especificamente para os artistas autorais e independentes? Difícil, assim como em qualquer lugar do Brasil e, talvez, do mundo. Houve uma mudança muito grande no mercado da música, que também nunca foi fácil. Niterói, especificamente, não tem nenhuma rádio e TV. Não há uma mídia que impulsione os seus artistas, nem tampouco empresários que invistam em grandes casas de shows. Então, se dependermos apenas da iniciativa privada, sem rádio nem televisão, é bem difícil. Nesse sentido, precisamos contar com a força dos governos estadual e municipal para que a coisa aconteça. É bem difícil.





 

Niterói é uma cidade que tem muitos músicos e compositores. Que artistas merecem destaque, atualmente? Sim. Tem o Gilber T; o Ricardo Mansur; o Fred Martins; o Claus Mozi; o Paulo Beto; a Daíra; a Amanda Chaves (NegaAmanda); a Zezé Rocha – que canta comigo no disco -; a Madá; a Germana Guilhermme – que atualmente mora no Rio -; o De Leve; o Ivo Vargas; o Luís Capucho; o Vinícius Araxá... Entre outros... É muita gente fazendo canção bacana! A cidade tem muitos cantores e compositores de excelência, que moram aqui. Há uma tradição de música instrumental muito forte também, do Jazz, da MPB, do Rock, da Soul Music, da música negra brasileira. Como falei, está difícil para todo mundo e tem essa especificidade de sermos de uma cidade que carece de rádio, TV e casas de shows. Mas o artista não pode ficar pensando apenas no seu próprio município para sobreviver. É fundamental ter uma visão mais cosmopolita da carreira.

 

O que você sugere para que o músico brasileiro possa de fato viver exclusivamente da sua arte? Ele tem que colocar o pé na estrada e precisa de uma visão ampla, cosmopolita. Nunca foi fácil. Hoje em dia, não basta fazer apenas música: sem clipe e uma gestão das redes sociais, o trabalho não vai para frente. Mas nem todo mundo tem essa capacidade de gerenciamento da carreira. Às vezes, a pessoa é um grande artista, mas faltam aqueles complementos para atingir o público. Por exemplo: outro dia, fiquei muito triste, porque vi um grande músico, violonista de chorinho de Niterói, trabalhando como entregador, de bicicleta. É muito difícil.

 

A Internet ajuda ou atrapalha, no processo de divulgação e remuneração dos artistas? O Google e as redes sociais deveriam pagar melhor. Essas operadoras de celular, de Internet, são grandes grupos empresariais, que acumulam e concentram muita riqueza. Já conversei sobre isso com o Marcelo Yuka (ex-baterista do Rappa, falecido em 2019), que foi um grande incentivador desse debate, de se buscar soluções, de direitos autorais... Os streamings, como o Spotify, também pagam muito mal – apesar de seus donos serem muito ricos. Teria de haver uma distribuição de renda maior. Se o mote é informação e entretenimento, o artista deve ser mais bem remunerado.




Foto: André Misse


 

Como furar a bolha do mainstream e fazer com que artistas que não fazem parte dos "queridinhos da mídia" sejam escutados? Isso tem muito a ver com gestão das redes sociais. Ultrapassar o limite dessas redes dá muito trabalho e não é algo simples de se fazer. Hoje em dia, só pagando. Sabendo-se pagar, fazendo vídeo, talvez o artista obtenha sucesso. É um trabalho árduo e pesado. Diário, difícil. A mídia é medíocre. Há muitos anos, a música tem tido esse problema, nas rádios e TVs, que não criaram um público qualificado, mais interessado em música. As apostas da mídia, nos últimos 30, 40 anos, beiram a mediocridade. Isso é muito claro para mim. São gerações e gerações de gente medíocre. Por outro lado, há muitos trabalhos interessantes.  





 

O Brasil, em sua diversidade musical, mereceria uma secretaria dedicada ao setor, no Ministério da Cultura? Sim. Atualmente, os professores, a ciência, o povo da cultura e das artes viraram inimigos do projeto político em curso. Mas isso vai passar. Para além desse desgoverno, a música mereceria, sim, uma secretaria especial, dedicada ao setor. A música brasileira tem muita qualidade e divulga a marca “Brasil” mundo afora. 

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Toca da Cotia: ambiente caseiro, aconchegante e profissional

Estúdio é administrado pelo guitarrista e produtor Igor Bilheri





Igor Bilheri. Foto: Facebook.

Em se tratando de produção musical, o avanço da tecnologia permite, hoje, mais independência e liberdade para o músico. Além de economias importantes – que não ocorrem nas horas gastas nos estúdios profissionais -, o céu é o limite para a criatividade do artista que tem o seu próprio canto para tocar e produzir. Essa é a principal diferença entre estúdios em casa (home studios) e o trabalho que o músico faz em locações de terceiros ou de gravadoras - onde a pressão por lançamentos populares e o lucro acima de tudo são fatores determinantes – e, até mesmo, antidemocráticos.

Para o guitarrista e produtor musical Igor Bilheri – proprietário do Toca da Cotia, em Niterói -, quem quer algo em equipamentos apenas para o uso próprio, gravar ideias num quarto, ou finalizar um álbum inteiro de sua banda, o investimento “até que não é tão caro”. “Posso dizer que nós, músicos, ficamos "empoderados" com o nosso próprio home studio” - destaca. 






O início


Como a maioria das pessoas que entram nesse ramo, Igor começou com equipamentos usados, baratos, realizando trocas e se equipando aos poucos. Ele passou horas a fio assistindo aos melhores produtores musicais, nacionais e internacionais. Estudou muito sobre os materiais mais prioritários para iniciar o trabalho e pegou as melhores dicas. Afinal, além de pensar nos equipamentos para comprar, há, também, a necessidade de se aprender a utilizá-los:



Na foto, de pé, o guitarrista Igor Bilheri, na companhia de sua antiga banda, "O Divã Intergaláctico", abraçado ao baterista e editor deste blog, Saulo Andrade, e à tecladista Thais Galart



“Além de precisar de uma placa de áudio, cabos, fone de ouvido e monitores de áudio, o cara precisa investir em conhecimento. Aprender como funciona um equalizador, um compressor, mecanismos de edição de áudio, mixagem e masterização. Antes de pensar em começar a gravar outros músicos, tem que conhecer todos os processos de uma produção musical. E, caso queira aplicar seus conhecimentos e estudar, sem compromisso, há sempre aquele amigo à disposição para gravar um violão e voz”.


Equipamentos



Microfone Shure Sm57 (dinâmico). Foto: madeinbrazil.com.br



Mesa de som, microfones, bateria, caixas de som? Que equipamentos Igor Bilheri indicaria para quem quer começar a montar o seu próprio estúdio em casa? Ele ressalta que, a princípio, os mais importantes são uma placa de aúdio e um computador que tenha um processamento razoável. “Para começar, em relação a mics, eu recomendaria um Shure dinâmico Sm57 e um MXL 990 condensador (foto abaixo), para começar a sacar a sonoridade de cada tipo de captação desses diferentes diafragmas” – enumera o guitarrista, que acrescenta outros itens:







“Um bom fone de ouvido, podendo ser um AKG k414p (foto abaixo) e monitores de áudio ativos, como, por exemplo, KRK rokit 5”.







Em momentos de crise, como o atual, Igor pondera que todo investimento depende da situação financeira do empreendedor. De acordo com Bilheri, uma regra básica no áudio é que, geralmente, “o equipamento bom é caro”. Mas o guitarrista vem conseguindo pedir para amigos trazerem dos Estados Unidos, “o que barateia bastante o investimento”. “Uso também o site Mercado Livre e Amazon. É importante sempre fazer uma pesquisa aprofundada, para não se cair em golpes, principalmente no Mercado Livre” - afirma. 


Monitores de áudio KRK rokit 5. Foto: amazon.com.br



Isolamento acústico



Logo do estúdio Toca da Cotia. Imagem: Facebook.


Não é apenas o equipamento de infraestrutura musical que conta para se empreender um home studio. Há, também, o "fator acústica", que é muito importante. O isolamento acústico e o tratamento são dois processos complementares de um estúdio: o que – para Igor Bilheri - "pode encarecer bastante" o investimento. Ele explica que a etapa do isolamento “é algo bem delicado e caro de se fazer”, porque requer um espaço físico considerável.

Segundo o produtor, o método mais utilizado é o ‘Box in Box’: uma "sala dentro da sala". E recomenda um estudo aprofundado sobre o assunto. “Em relação a tratamento, o procedimento é bem mais simples. Qualquer objeto absorve e reflete som. Alguns deles são mais recomendados para absorção, que pode ser de sofás, tapetes e até pessoas. Por outro lado, a reflexão pode ser feita através de estantes de livros ou qualquer outro objeto com superfície dura”.  

Bilheri ressalta ainda que, "com o que já tem em casa", o músico consegue usar o conhecimento e a criatividade para resolver alguns problemas de acústica, na hora de gravar e não "embolar" as frequências que entram no microfone. À medida que o orçamento vai melhorando, pode-se, também, instalar painéis acústicos e difusores profissionais – o que “é bem indicado”:

“Isso dá uma "cara" de estúdio mais profissional. Um aspecto muito importante é se sentir confortável, num ambiente que você possa relaxar e aproveitar grandes momentos com músicos, artistas e, principalmente, cosigo mesmo. Bem vindos à Toca da Cotia!”.  

terça-feira, 7 de junho de 2022

Kko Figueiredo dá dicas para quem quer montar home studio

Músico e empresário, o vocalista da banda Spin XXI administra o Kko Studio



Foto: arquivo Kko Studio



No mundo inteiro, muitos músicos concordam: ter um equipamento básico de gravação é fundamental para trabalhar e se desenvolver artisticamente. Para isso, o artista deve estar disposto a investir um capital, sem esperar retorno financeiro imediato. É o que pensa o vocalista da banda de rock progressivo Spin XXI (foto), Kko Figueiredo, proprietário do Kko Studio, em Itaipu, Região Oceânica de Niterói (RJ). “O retorno é profissional. Além daqueles investimentos, esse empreendedor deve estar preparado para estudar música e tecnologia, com um detalhe importante: a tecnologia de ponta normalmente está com instruções em inglês” — alerta. 



O músico e empreendedor Kko Figueiredo é o segundo, da esquerda para a direita. Foto: Divulgação

Para Kko, um equipamento básico de um músico que queira empreender o próprio home studio é um bom computador, uma placa de som com dois canais e um programa de gravação (Daw). Mas, para começar a ganhar dinheiro, o artista precisa ser bem articulado e conseguir se destacar num mercado altamente competitivo. “O lucro vai depender da capacidade desse músico em mostrar resultados” — enfatiza o vocalista, que pondera, afirmando que os equipamentos são diretamente relacionados ao poder aquisitivo de cada empreendedor. Ele dá dicas de marcas disponíveis no mercado e lojas da sua cidade:



 

“A marca de interface de áudio e de monitor de referência passivo de estúdio Beringher é umas das mais honestas, para quem está começando. Guitarras e demais instrumentos de cordas devem ser experimentados, antes da compra. Em Niterói, temos lojas como Cheiro de MúsicaBolero e Studio Som João, que atendem bem os clientes e costumam ter promoções. Na Internet, a busca é imensa. É sempre importante conhecer o equipamento e checar o vendedor”.


Loja Cheiro de Música: Rua Coronel Gomes Machado, 113, Centro de Niterói. Foto: Facebook 




Monitores de estúdio Behringer 50 USB 150 W. Foto: centersom.com.br


 

Tratamento acústico

 

Espuma acústica Alpha 60mm cinza antichamas. Foto: leroymerlin.com.br


Em relação à acústica do ambiente do home studio, Kko utiliza um isolamento sólido, que pode ser feito com espumas acústicas antichamas, de três centímetros de espessura ou mais, que estão disponíveis no mercado. Para ele, o ideal é construir uma edícula, com paredes duplas de concreto recheado, sem janelas, nem vizinhos colados. “Um quarto dentro de um quarto, sem vazamentos” — detalha.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Com Nasi (Ira!) na voz, Voluntários da Pátria lança 'Ainda Estamos Juntos'

Vocalista concedeu entrevista a este blog


Nasi. Foto: naoesomusica.com.br









Após um longo intervalo, os integrantes da banda Voluntários da Pátria (VdP) haviam se reunido para shows em 2016 e 2019. Recentemente, eles reativaram a velha amizade, num grupo de Whatsapp. Papo vai, papo vem, surgiu a sugestão de gravar duas novas músicas.

 

Trocando arquivos e opiniões, o vocalista Nasi (Ira!) e seus amigos compuseram e gravaram, num prazo de cinco meses, a música 'Ainda Estamos Juntos', de André Barella, guitarrista da VdP, e 'O Voluntário', lançado em abril último, em comemoração ao aniversário de 40 anos do grupo, formado em 1982. 


Nas letras, pode-se perceber questões sociopolíticas que inquietam a Nasi e seus parceiros de música, ontem e hoje. Nesta entrevista ao Cena da Música Independente, concedida pelo vocalista do Ira! e dos Voluntários, ele nos conta - por áudio do "zap" - um pouco sobre sua visão política e do trabalho musical compartilhado pelos integrantes do grupo. Confira! 


 


Capa do single: Michele Vannucchi

  


Apesar de ter ido cada um para o seu lado, na letra de 'Ainda Estamos Juntos', pode-se interpretar a utopia progressista que apregoa a máxima que diz - "Ninguém solta a mão de ninguém"? Estamos realmente unidos e conectados, mesmo que à distância?

 

Bem observado. Isso acabou entrando no logotipo. Na capa dos nossos singles, há esse símbolo, dos cinco, de mãos dadas, formando quase uma estrela. A partir da pandemia – até mesmo antes -, sempre que havia um show, montávamos um grupo no Whatsapp, que acabava se dissolvendo. No meio da pandemia, nosso grupo foi muito intenso e ainda está bem comunicativo. Nele, abordamos vários assuntos: conversamos sobre política, música... E isso, nessa comunicação, acabou gerando esse nosso trabalho. 



Voluntários da Pátria 2022. Foto: mundoira.com.br

 
 

 

Qual a principal diferença que você sente em relação ao Brasil que estava saindo da ditadura, em 1984, e o de agora? Como a atual conjuntura sócio-político-cultural influencia na retomada dos trabalhos da Voluntários da Pátria? Existe essa conexão? 

 

Existem muitas diferenças. Em 1984, o Brasil caminhava, ainda que a passos lentos, a uma direção certeira: a abertura política. Havia o movimento das “Diretas Já!”, com muita esperança no coração de todos. Hoje, a gente vive, não só no Brasil – cinzento -, mas um mundo muito amedrontador: ameaça de guerra mundial, desmatamento, crise climática, ameaça nuclear, reacionarismo no país... Esse governo, que temos agora, faz do golpe a sua ladainha. Tenho saudades do passado.  

 

A VdP pretende regravar ou tocar ao vivo, ainda em 2022, 'O Homem Que Eu Amo', 'Cadê o Socialismo' e 'Verdades e Mentiras', que foram censuradas na ditadura? Se sim, qual a importância de tocá-las, hoje?


Foto: clube.gazetadopovo.com.br

Sem dúvidas! Todas as músicas dos Voluntários, inclusive essas, que você citou, continuam muito atuais. Com relação a tocar, sim, a gente sempre esteve disposto. Temos um motivo mais concreto, que são novas canções. Quando a gente toca, tocamos todas as músicas do álbum e outras duas ou três, que já tínhamos, que tocávamos com essa formação, mas que não entraram no disco, como ‘Fúria Brasileira’, ‘Em Tua Casa’ — uma versão que a gente fez de ‘In Your House’, do The Cure — e ‘Resistência Afegã'. 


Voluntários da Pátria no início dos anos 1980. Foto: mundoira.com.br

 
    

 

Percebe-se muitas semelhanças sonoras entre os Voluntários e o Ira! — em seus traços de pós-punk, new wave, mod... Como você avalia o rock que é feito hoje, aqui no Brasil? Que bandas mereceriam destaque? Percebo que a turma dos 80 e 90 reinventava, ao seu modo, o rock feito lá fora, tornando-o algo original, peculiar. A garotada que está fazendo rock, hoje, por aqui, tem alguma referência interessante ou tudo virou mero pastiche e marketing, palatável para o entretenimento? 

 

Tem alguns pontos em comum no Voluntários com o Ira!, mas da fase do (baterista) Charles Gavin e do (baixista) Dino, que foi a segunda formação da banda — anterior à mais tradicional, que gravou praticamente todos os álbuns.

Quanto a bandas novas, confesso que estou muito por fora. As coisas que escuto, hoje em dia, são antigas: rock, blues, até o início dos anos 90. 


Ícone do underground 





Mesclando punk, pós-punk e new wave, a banda Voluntários da Pátria foi pioneira na cena underground paulistana, nos anos 1980, adotando uma estética local própria e diferente do que se habituava a ouvir no rádio e na televisão à época. 

O primeiro e único álbum, homônimo (imagem acima), foi lançado em 1984, e ganhou fama internacional em coletâneas lançadas no Reino Unido e na Alemanha, em 2005. 






Dentre as canções, destacam-se 'O Homem Que Eu Amo', 'Cadê o Socialismo' e 'Verdades e Mentiras' — censuradas pela ditadura militar (1964 - 1985). 

A VdP conta com Nasi, nos vocais; Thomas Pappon, na bateria; Ricardo Gaspa, no baixo; além dos guitarristas Miguel Barella e Giuseppe Frippi. 

quarta-feira, 1 de junho de 2022

‘stellatum_’ transporta ouvinte a outras dimensões musicais

  

Professor Anésio Azevedo busca ampliar e experimentar expressões artísticas   

 

Uma ideia que se transforma num conceito poético; uma pergunta ou uma impressão sobre algo que encanta e o questionamento sobre como poderia ser criada uma espécie de “narrativa sonora”. Estas são apenas algumas das etapas criativas de todo músico que se preze. Com o professor de Filosofia, artista visual e multimídia, Anésio Azevedo, não é diferente. No caso dele, tais processos se acrescentam ao início da fase de exploração de sons, baseada na sua biblioteca de sintetizadores digitais, em experimentações voltadas ao audiovisual e à música ambiente do seu mais recente projeto, o ‘stellatum_’, disponibilizado nas plataformas digitais.  

 

Artista dedicado à sua obra, Azevedo leva horas explorando combinações sonoras distintas e diversas dos sintetizadores. “É a parte mais importante e demorada. Neste momento, busco por sons que ora se contrapõem, ora se complementam” – ressalta o professor, que nunca sabe, na verdade, o resultado estético que pode fluir dessas buscas:


Foto: arquivo do professor Anésio Azevedo



 “É justamente o teor casual, aleatório, de distintas sonoridades, que me fascina”.

 

Superadas essas etapas, Sinésio cria melodias e harmonias que, se não entram na composição, poderão nutrir outras ideias futuramente. “Esse momento é, talvez, o mais rigoroso, dado que é onde a estrutura da música se desenvolve” - complementa.

 

Música ambiente

 

Para Anésio, a ideia de fazer música ambiente surgiu a partir de uma tentativa de gravar paisagens sonoras e criar espaços para a escuta, com o auxílio de tecnologias criativas.






 Ele já possuía forte inclinação para a música dark ambient -  que começou a investigar após ouvir bandas como Agalloch e Abruptum -; além de trilhas sonoras de filmes, pelas quais sempre foi apaixonado:

 

“De certo modo, comecei a me interessar por texturas sonoras ao começar a ouvir Black Metal. Além disso, tenho fortes influências do Posthuman Tantra, projeto musical de um grande amigo, o Ciberpajé Edgar Franco” (foto). 


Foto: ciberpaje.blogspot


 

Audiovisual

 

Mineiro de Ituiutaba e residente em Votuporanga (SP), Anésio Azevedo desenvolveu suas pesquisas de mestrado e doutorado na Universidade de Brasília (UNB), construindo, na capital federal, importantes amizades.



UNB. Foto: Bento Viana


 

Uma delas com o músico, DJ, regente e inventor Eufrasio Prates (foto), que fundou e rege a Orquestra de Laptops de Brasília (BSBLOrk), da qual faz parte desde 2020.



Foto: Youtube


O trabalho audiovisual do artista começou na qualificação de doutorado. A ideia era evocar características sonoro-visuais do Cerrado, para um ambiente criado a partir de uma categoria de linguagem que soma som e imagem.

 

Ele denominou a relação entre o ambiente criado e as paisagens locais como “ambientes expandidos”, tocando ao vivo composições sonoras que serviam de trilha para as vídeo-artes que criava, a partir de suas caminhadas. Neste sentido, imagem e som se tornaram materiais essenciais nos trabalhos:

 

“A junção poética entre ambas me pareceu a melhor forma de ampliar a imersão no ambiente que eu estava criando. Meu trabalho não pode ser dissociado dessa prática artística”.  

 

Desafios na música e na academia



Foto: IDMIL



Escutar não é o mesmo que ouvir. A escuta demanda uma postura ativa, de acionar o sistema auditivo em relação ao universo dos sons, em toda sua magnitude. Essa postura ativa talvez seja necessária em outros estilos, como a música drone e a minimalista, das quais a música ambiente é descendente direta.


Mas afinal, quais são os desafios de se fazer essa categoria de arte — digamos, underground —, no Brasil? Trata-se, para Azevedo, de uma “questão necessária e precisa”. O artista faz uma reflexão acerca desse questionamento, citando um texto de 2016, denominado “Existe uma indústria de heavy metal no Brasil?”, publicado no site da Overload, uma das maiores produtoras de música do país. “Este trecho do texto faz um apontamento pertinente sobre a música pesada, que poderia ser perfeitamente estendido para toda a indústria da música nacional” — destaca:


(...) “A indústria da música pesada no Brasil é ineficiente e defasada. Absolutamente todos os membros da cadeia não funcionam como deveriam: mídia, gravadoras, produtoras, agências, bandas, etc. O resultado é um público desinformado e desinteressado por novidades, bandas medíocres, mídia inexpressiva e gravadoras inúteis”.





 

Na avaliação do artista, a análise da Overload é “muito contemporânea”. Ele destaca ainda que há uma grande dificuldade na formação de um público que consome música ambiente e seus derivados no Brasil. “Muitas pessoas tendem a associar esse estilo à "música zen”, àquela música “boa”, para dormir. Quando dizem isso de minhas composições e de artistas influentes em meu processo, por exemplo, sinto que as pessoas nem sequer se puseram a ter uma postura de escuta atenta e profunda” — questiona-se Sinésio, que acredita na formação de um público para definir uma “cena”:


“Isso é fundamental! Outro fator importante é a junção de artistas em torno de um motivo estético, uma mídia especializada e festivais. A América Latina é um antro profícuo de música drone/ambient/noise/industrial. Temos, no Brasil, ótimos artistas. Gente como Felipe Ayres, Carlos Ferreira e Bemônio. Seria ótimo se a arte deles chegasse ainda mais a um público ávido por novidade”.





 

Como professor de Filosofia, Anésio Azevedo busca fazer de sua prática pedagógica uma continuidade de suas pesquisas artísticas. E tem conseguido resultado, através do Grupo de Estudos e Pesquisas em Imersividade e Ambientes Expandidos (GEPIAE), onde há alunos pesquisadores e a constante tentativa de emplacar recursos financeiros para incentivar ainda mais novos pesquisadores:


“A Filosofia atravessa minhas reflexões e é uma ferramenta muito apropriada para refletir sobre o mundo, a natureza e a arte de modo geral. Às vezes, desanimo por conta dos recentes cortes na educação; mas vivemos um dia de cada vez. Educar também é sobre lutar”.


Apresentações on-line

Nas etapas de composição em música ambiente, Anésio utiliza o Ableton (DAW — digital audio workstations), para criar e arranjar as trilhas. Em seguida, quando a mixagem está pronta, finaliza com um software de edição de som, o Adobe Audition, para a realização de uma “pré-masterização”. 


Atualmente, o artista mostra o seu trabalho apenas em formato on-line, com a BSBLOrk (vídeo). Por conta da pandemia de COVID-19, ele não se apresenta ao vivo desde 2019; “mas aceito convites” – prontifica-se.

 



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