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| Fotos: Laura Éder/divulgação |
Travessia ancestral. A música de Sarahysha não se limita a ser ouvida; ela exige ser sentida na pele. Cantora, compositora, performer e pesquisadora paulistana radicada no Benin (África Ocidental), ela desembarca no Brasil com o projeto Spiritual Biatch! – Corpo, Memória e Resiliência. A proposta reconecta as pontas do Atlântico através de uma experiência sensorial de afro-jazz que resgata a memória ancestral por meio do som e do transe corporal.
O trabalho artístico de Sarahysha é um reflexo de sua própria trajetória nômade. Antes de se estabelecer na África Ocidental, ela percorreu os corais de igreja na infância em São Paulo, o circuito underground de jazz da Rua Augusta e os palcos da França, do Caribe e da Ilha de Reunião, no Oceano Índico. No Benin, encontrou o elo definitivo: o contato íntimo com os ritmos cerimoniais locais e as práticas do sistema espiritual Vodùn revolucionaram sua relação com o canto e o movimento.
Partitura corporal
Diferente do jazz acadêmico e das partituras tradicionais, Sarahysha cria o que define como "música manifesta". Para ela, a canção nasce primeiro como uma vibração física, um impulso de respiração e energia, para só depois ser traduzida em ondas sonoras:
"Minha música não nasce de uma forma pré-definida. Eu escuto os sons por dentro e depois vou esculpindo as ondas sonoras. É uma música de reconexão. Não necessariamente religiosa, mas uma música que religa o corpo a algo que está além do visível."
Esta fusão espiritual ganha contornos práticos no espetáculo Spiritual Biatch!, que reúne no palco instrumentistas brasileiros e beninenses. A formação de afro-jazz — composta por metais, percussões tradicionais, baixo, teclado e bateria — serve como base para que a voz e a expressividade cênica de Sarahysha guiem o público por um território onde o passado escravista e a dor diaspórica não são tratados com nostalgia, mas transformados em potência de vida e resistência.
Do ritualístico ao digital
Embora sua pesquisa mergulhe fundo nas tradições orais e na ancestralidade, Sarahysha compreende com maestria os canais de comunicação da atualidade. Nas redes sociais, ela acumula uma comunidade expressiva de mais de 185 mil seguidores no TikTok. Ali, desmistifica o cotidiano no Benin, debate a diáspora negra, compartilha vivências artísticas e conecta-se diretamente com as novas gerações.
Sua ponte cultural se estende também aos bastidores do mercado, através do SB LAB (Creative and Cultural Production Studio), laboratório fundado por ela para fomentar a pesquisa, a criação e a circulação internacional de obras de música, dança e performance entre o continente africano e o Brasil.
A potência desse cruzamento cultural também reverbera em suas produções musicais. Em seu trabalho, como na faixa "Marias de Madalenas e Padilhas (Remix)", Sarahysha evoca a força das figuras femininas marginalizadas e sagradas. Na canção, sobre uma base hipnótica, ela entoa versos densos que remetem à perseguição histórica sofrida pelo corpo feminino — "estrangulada, caçada, domesticada, espancada, queimada, lacerada, esquartejada" —, convertendo o lamento em um manifesto de superação ritualística: "mal sabiam que no fundo do meu poço eu tenho um trampolim".
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