O músico, compositor e produtor piauiense Samuel Brandão acaba de lançar seu primeiro álbum solo sob o nome artístico SAMUCAPTA.
O trabalho homônimo, composto por 12 faixas amadurecidas desde o período pós-pandemia, já está disponível nas plataformas de streaming e propõe uma viagem por um Nordeste musical diverso, místico e avesso a rótulos.
Natural de Teresina (PI) e com bagagem pelas bandas Captamata e Fabulah, o artista une a identidade regional a influências globais e atemporais. No disco, a tradição da viola caipira, da sanfona e das bandas de pífano se funde de forma orgânica ao rock clássico, folk, música celta, MPB e à psicodelia setentista. Há ainda referências nítidas ao som de grandes ícones mundiais e nacionais, como Beatles, Pink Floyd, Jethro Tull e Zé Ramalho.
Apesar de ser um projeto solo e independente, SAMUCAPTA se cercou de parcerias para a construção da obra. O álbum traz composições e arranjos divididos com nomes de peso da cena local e antigos parceiros de estrada, como Gabriel Medeiros, Esaú Barros, Joe Ferry, Vitor Lira e a banda Ultrópico Solar (com quem divide os vocais no single "Tell Me Now").
A riqueza do álbum se reflete na variedade de texturas sonoras: faixas como “A Volta de Pã” abrem o disco com uma atmosfera celta e flautas tocadas pelo próprio Samuel, enquanto canções como “Lunático” e “Sopro” resgatam o peso da psicodelia nordestina.
O encerramento com “Barra da Lagoa” e “Gorjeio” consolida o manifesto do projeto: provar que a música feita no Nordeste é rica demais para ser categorizada.
Show de Marcos Hasselmann. Foto: reprodução/Instagram
Com entrada franca, evento une o produtor Leo Rivera e pocket shows de Sudano e Marcos Hasselmann, no Centro Cultural Cauby Peixoto
Bastidores do som. A música independente de Niterói ganha destaque, no Centro Cultural Cauby Peixoto, no Fonseca, no próximo dia 11 de julho (sábado). O projeto "Palco Astronauta – Especial" promove um mergulho gratuito na história e nos desafios do mercado fonográfico, reunindo debate, aprendizado e música ao vivo.
Centro Cauby Peixoto. Foto: divulgação/Prefeitura de Niterói
O ponto alto da programação é a palestra “Artistas, ego e indústria da música nos últimos 30 anos”, comandada pelo jornalista e produtor Leo Rivera, fundador do selo Astronauta Discos. O encontro — que terá a participação de Yuri Chamusca e do cantor Sudano — vai abordar a transição do vinil às plataformas digitais, gestão de carreira e a realidade dos selos independentes. Por ser um evento imersivo e sem transmissão online, os minutos finais serão abertos às perguntas do público.
Leo Rivera. Foto: reprodução/Instagram
Som no palco
Após o debate, a noite encerra com apresentações ao vivo. O line-up traz a identidade queer e o rock alternativo de Sudano, seguido pela versatilidade e a voz marcante de Marcos Hasselmann, que passeia pelo jazz e pela MPB.
Marcos Hasselmann. Foto: reprodução/Instagram
Programe-se
O quê: Palco Astronauta Especial (Palestra + Shows)
Quando: sábado, 11 de julho, a partir das 20h
Onde: Centro Cultural Cauby Peixoto (Alameda São Boaventura, 263 – Fonseca, Niterói)
Memórias de Renato Borghi cruzam o caminho da artista nos palcos
Um sensível resgate histórico e passional da cultura brasileira. O espetáculo "Minha Estrela Dalva", idealizado e escrito pelo renomado ator e dramaturgo Renato Borghi, estreia nesta quinta-feira (18), no Teatro do SESI-SP, na Avenida Paulista, costurando memórias de infância.
O musical faz uma profunda reverência à trajetória de Dalva de Oliveira, uma das maiores e mais arrebatadoras vozes do cancioneiro nacional.
A semente da produção germinou quando Borghi tinha apenas seis anos de idade e foi impactado pela voz de Dalva, na trilha sonora da animação Branca de Neve. O encanto inicial na vitrola de infância converteu-se em um amor incondicional, que atravessou décadas, palcos e revoluções estéticas. Agora, esse elo afetivo ganha corpo e voz, sob a direção refinada de Elias Andreato.
A montagem propõe uma engenhosa dinâmica cênica, na qual o ator divide o palco com sua própria juventude, interpretada por Elcio Nogueira Seixas, que dá vida ao Renato de 1969 — um jovem artista imerso na efervescência da contracultura e na rebeldia do Teatro Oficina, descobrindo em Dalva a alma profunda do Brasil.
A icônica "Rainha do Rádio" é encarnada por Soraya Ravenle, que curiosamente iniciou sua carreira no coro de um musical sobre Dalva, em 1987, e hoje retorna para ocupar o centro do palco, traduzindo com potência vocal e sensibilidade a dor e o pioneirismo de uma mulher que desafiou os moralismos de sua época.
"Ver Renato se confrontar com sua própria história em cena é testemunhar um dos gestos mais íntimos e corajosos do teatro", destaca o diretor Elias Andreato sobre a simbiose poética da obra.
Completando o triângulo central da narrativa, o ator Ivan Vellame empresta sua voz para interpretar os amores de Dalva, com especial destaque para o compositor Herivelto Martins. A costura musical reaviva sambas imortais e coloca em evidência os conflitos artísticos e midiáticos que ditaram a era de ouro do rádio.
Além de celebrar os grandes ícones da arte nacional, o espetáculo joga luz sobre o papel histórico de Dalva como uma mulher senhora de si, em um momento em que o feminismo começava a se consolidar como movimento social.
SERVIÇO
“Minha Estrela Dalva”
Centro Cultural Fiesp | Teatro do SESI-SP – Avenida Paulista, 1313 (em frente à estação Trianon-Masp)
Temporada: até 12/07
Sessões: Quinta a sábado, às 20h, e domingo, às 19h
Classificação etária: 14 anos
Duração: 90 minutos
Acessibilidade sempre aos sábados e domingos, com intérprete de Libras e audiodescrição.
Nascida de encontros informais e gravada logo após o Psycho Carnival, banda de Piracicaba lança "Tomorrow Comes Today" no streaming e planeja turnê europeia.
A cena do rock underground ganha um reforço de peso com o lançamento oficial de "Tomorrow Comes Today", o álbum de estreia da banda Grotta. Natural de Piracicaba (SP), o power trio surge como um projeto derivado da aclamada The Mullet Monster Mafia — atual referência global no surf punk —, mas com uma proposta sonora inteiramente voltada às vertentes mais cruas e velozes do underground.
O trabalho reúne oito faixas enxutas que resgatam a essência do skate punk, hardcore, crossover e thrashcore. De acordo com o baterista Neri, a concepção do grupo ocorreu de forma totalmente espontânea no início de 2026, durante uma audição despretensiosa de discos clássicos de bandas como Gang Green, Agent Orange e Bad Brains, na casa do guitarrista e vocalista Verme. O impulso criativo foi imediato: Verme pegou o violão, Netão assumiu o baixo para estruturar as primeiras bases e Neri ditou o ritmo improvisando batidas na mesa.
Urgência
O que começou como um registro informal rapidamente tomou proporções de um álbum completo. Após ouvirem as primeiras maquetes gravadas de forma caseira no celular, durante o festival Psycho Carnival, em Curitiba, os integrantes perceberam o potencial do repertório. Sem perder tempo, entraram em contato com o produtor Rodrigo "Bigga" Binatto, do Soul de Pira Studios (Piracicaba), e aproveitaram dois dias livres na agenda para imortalizar as canções.
"Quando acabou o Psycho Carnival, a gente foi para o estúdio e gravou o disco. Metemos as oito músicas, desenvolvemos uns arranjos básicos ali e gravamos tudo rapidamente", afirma Neri.
A gravação preservou fielmente a urgência e o espírito old school do projeto. Com arranjos simples costurados no próprio calor da sessão, o som destaca a guitarra e o vocal rústicos de Verme, as linhas marcantes de baixo e voz de Netão, e a precisão de Neri na bateria e nos backing vocals.
Crítica social
Aceleradas e sem rodeios, as músicas servem de base para letras que fogem de narrativas longas para apostar em frases diretas e refrões de forte impacto. O conteúdo lírico reflete o cotidiano, abordando temas densos como a tensão urbana, o desgaste político, os ruídos sociais, a incerteza, o medo e a resistência diária perante a passagem do tempo — temáticas intrínsecas à tradição contestadora do punk.
Além de já estar disponível nas plataformas digitais e na página oficial do Bandcamp, Tomorrow Comes Today ganhará uma edição física especial em vinil de 12 polegadas. O lançamento analógico é fruto de um esforço conjunto via consórcio independente, operado por cinco selos especializados: Trashout Records (Alemanha), Orleone Records (Europa), Redlightz Records (Curitiba), Tupunk Records (Marília) e Under Shows (São Paulo).
Próximos passos
Com o disco na rua, a Grotta já planeja a sua transição para os shows. Segundo o cronograma da banda, o mês de agosto reserva as primeiras atividades ao vivo em solo nacional. O período coincide com a vinda de Neri ao Brasil para a produção do Lucky Friends Rodeo, festival de cultura custom que acontece nos dias 5 e 6 de setembro, em Sorocaba.
Logo na sequência, em novembro, os horizontes da banda se expandem com uma mini-turnê promocional já prevista na Europa, consolidando o alcance internacional do trio.
Da Jamaica brasileira ao pop futurista, o cantor e
compositor YAGÔ inicia o capítulo mais ambicioso de sua carreira: já está nas
plataformas digitais o single “Nádegas”, faixa de abertura que serve como
cartão de visitas para o seu próximo álbum de estúdio, batizado de Menestrel.
Produzida por Anselmo dos Reis, a nova música não é apenas
um lançamento isolado. Trata-se de uma reinvenção estética. YAGÔ funde a
espinha dorsal do dub roots tradicional com texturas eletrônicas e uma
roupagem pop contemporânea, bebendo diretamente da fonte territorial de São Luís
do Maranhão, a terra natal do artista, cuja identidade foi forjada no balanço
das radiolas e na cultura do reggae. O resultado é um som essencialmente
tropical e orgânico, desenhado tanto para a contemplação quanto para o clássico
dançar "colado", que define as pistas maranhenses.
Volúpia musical
Longe de clichês, “Nádegas” utiliza a atmosfera relaxante do reggae para
construir uma narrativa sensorial sobre o cotidiano, o afeto e a liberdade dos
corpos. Sob as lentes da direção de arte que acompanha a atual era do artista,
o projeto exala um clima naturalista e sensual.
De acordo com o cantor, o álbum Menestrel foi
desenhado para expandir as fronteiras da música preta sob uma ótica intimista e
espiritual, profundamente conectada às vivências em São Luís. Em 2026, YAGÔ
defende o reggae não como um artefato intocável do passado, mas como uma
cultura viva, fluida e totalmente integrada ao pop alternativo nacional.
Maturidade
Embora o nome YAGÔ surja com o frescor de uma novidade de
mercado, o artista é uma figura carimbada e respeitada na engrenagem da cena
independente nordestina. Na década de 2010, ele circulava sob a alcunha de Yhago
Sebaz, período no qual colocou na rua os elogiados discos #NegoBeats
(2014) e Meio Amargo (2019).
A transição para a nova identidade artística reflete sua
maturidade de estúdio e de palco. Agora, com mais bagagem, o cantor amarra
corpo, som e imagem em uma narrativa contínua e sem arestas.
O single já pode ser ouvido em todos os serviços de
streaming de áudio.
Mais de uma década
após a partida de Amy Winehouse, a dolorosa e magnética “Back to Black”
garantiu o retorno da cantora britânica ao Hot 100 da Billboard Brasil,
alcançando a 44ª posição. Além de provar que o luto poético da artista é
atemporal, o feito coincide com o sucesso da faixa no streaming — caminha a
passos largos para bater a marca histórica de 1 bilhão de reproduções no
Spotify — e com o interesse renovado pela cinebiografia homônima, que reconta
os passos da estrela britânica.
Mais do que o maior hit de sua carreira, a faixa-título
do segundo e último álbum de estúdio de Amy é uma radiografia sem filtros de
sua alma. A composição nasceu do primeiro e abrupto término com Blake
Fielder-Civil, em 2005. Na época, Blake colocou um ponto final na relação por meio
de uma mensagem de texto enquanto viajava, optando por reatar com uma
ex-namorada. Enquanto ele seguia em frente, Amy mergulhava na escuridão — um
contraste doloroso impresso nos versos onde ela canta sobre ser deixada para
trás, presa às próprias sombras.
O impacto daquela rejeição foi o estopim para o
agravamento da depressão da artista e de sua relação destrutiva com o álcool.
No clássico videoclipe da canção, filmado em preto e branco, Amy encena o
funeral do próprio coração, uma metáfora visual perfeita para o que vivia fora
dos palcos.
O relacionamento com Blake, marcado por idas e vindas,
culminou em um casamento em 2007 e no divórcio em 2009. Anos mais tarde, o
próprio Blake admitiria publicamente ter apresentado a heroína à cantora,
solidificando a tragédia que uniu amor, vício e genialidade artística. O
retorno da música às paradas em 2026 apenas reitera que a dor transformada em
arte por Amy Winehouse continua a ecoar com a mesma força do primeiro dia.
Aquela velha ideia de que a música de concerto é um universo
rígido, silencioso e distante do grande público ganha um contraponto vibrante
em Diadema (SP). No dia 20 de junho, sábado, às 20h, o Teatro Clara Nunes
recebe o show “A Elegância dos Metais”, comandado pelo aclamado quinteto BrassUka.
A apresentação faz parte da temporada 2026 do projeto Concertos Campestres,
iniciativa que vem convertendo as noites da cidade do ABC paulista em sinônimos
de democratização cultural.
Sob a direção artística do maestro Daniel Cornejo e
realizado pelo ISPAC (Instituto São Paulo de Arte e Cultura), o projeto segue
sua missão mensal: descer a música erudita do pedestal e misturá-la às raízes
brasileiras de forma gratuita.
Dinamismo
Muitas vezes associados a um som puramente agressivo ou
militar, os instrumentos de metal ganham contornos de sutiliza e extrema
sofisticação nas mãos do BrassUka. Criado em 2011 por cinco amigos de longa
data, o grupo — formado por Moisés Américo e Pedro Santos (trompetes), Eder
Tavares (trompa), Agnaldo Gonçalves (trombone) e Marcos Tudeia (tuba) — já soma
mais de 300 apresentações na bagagem.
O segredo do quinteto está na irreverência. A performance
explora a versatilidade ao extremo, provando que a potência desses instrumentos
pode coexistir perfeitamente com a doçura de uma canção popular.
Repertório
O programa escolhido para a noite do dia 20 reflete o
ecletismo do projeto. Em vez de se fechar em um único período histórico, o
BrassUka propõe uma viagem no tempo que conecta a Europa clássica aos morros e
matas do Brasil.
O público será guiado por um roteiro sonoro que inclui os clássicos
europeus, em obras do renascentista G. Gabrieli, a energia de Rossini e o drama
de Tchaikovsky (sintetizado em um medley empolgante, que unirá a Abertura
1812 ao seu famoso Concerto para Piano nº 1). Além da identidade nacional,
com a genialidade de Heitor Villa-Lobos em "O Trenzinho Caipira",
e arranjos para hinos da nossa música popular, como "Carinhoso"
(Pixinguinha) e "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso.
“A ideia do projeto é aproximar as pessoas da música de um
jeito mais direto e envolvente; mostrando que ela pode ser acessível e
interessante para todo mundo. A cada edição, a gente busca trazer novos
repertórios e formações que surpreendam o público e criem uma conexão
verdadeira com quem está assistindo”, sublinha o produtor do Concertos Campestres,
Thiago Catelani.
Serviço
Evento:
Concertos Campestres apresenta BrassUka em “A Elegância dos Metais”
Homem não
identificado, tocando instrumento de sopro, c. 1970. Foto: Thomaz Farkas/Acervo
Instituto Moreira Salles
Mãos que moldam as ferramentas da música brasileira. No dia 26 de julho, o Museu
A CASA do Objeto Brasileiro, em São Paulo, abre as portas para a exposição “Música
Artesanal”, uma imersão profunda no universo da lutheria nacional e na herança
cultural que transforma madeira, couro e metal em patrimônio imaterial.
Com curadoria do renomado pianista e compositor Benjamim
Taubkin — um dos nomes ligados à fundação da própria instituição —, a mostra
marca também o reencontro do público com o museu, que passou por reformas
recentes de modernização e ampliação de acessibilidade.
O elo perdido de Mário de Andrade
O destaque histórico da exposição é a conexão direta com a
célebre Missão de Pesquisas Folclóricas de 1938, uma expedição idealizada por
Mário de Andrade que percorreu o Norte e o Nordeste, para mapear as
manifestações artísticas e religiosas do país.
Cinco peças históricas coletadas durante aquela jornada
foram resgatadas do acervo do Centro Cultural São Paulo (CCSP) e serão exibidas
ao público. O diálogo entre o passado e o presente é costurado por registros
iconográficos raros de fotógrafos como Thomaz Farkas, Marcel Gautherot e Miriam
Bisilliat, cedidos pelo Instituto Moreira Salles (IMS).
Criança tocando atabaque,
1990-1999. Pelourinho – Salvador - BA Foto: Acervo Walter Firmo/
Instituto Moreira Salles
“A música brasileira nasce de muitos encontros: de culturas,
territórios, matérias e modos de fazer. A exposição procura mostrar justamente
esse elo entre o gesto artesanal e a construção da nossa identidade sonora. Os
instrumentos carregam histórias e formas de conhecimento transmitidas entre
gerações”, ressalta o curador Benjamim Taubkin.
Infinitos ritmos
A narrativa da mostra se apoia na espinha dorsal de quatro
instrumentos fundamentais da nossa tradição. Para dar vida a esse recorte,
Taubkin convidou quatro mestres artesãos contemporâneos, cujos trabalhos ganham
protagonismo na cena: A viola caipira, por
Régis Bonilha, destacando o berço da moda, do pagode caipira e do repente; a rabeca,
por Adam Bahrami, com o arco que conduz o fandango, o baião e o forró; o pífano,
por Alexandre Rodrigues: o sopro que conecta as tradições indígenas e as bandas
de pífano do interior; além do atabaque e da percussão de Luiz Poeira, ecoando
o maracatu, o samba, a congada, o ijexá e o frevo.
Além das peças criadas exclusivamente para o projeto, a
experiência visual é complementada por um vídeo inédito, dirigido pelo curador
em parceria com Kabé Pinheiro e Laís Branco (Produtora VMD).
Oficinas
Para além das vitrines, "Música Artesanal" se
propõe a ser um espaço de troca ativa. Ao longo do período expositivo, que vai até
18 de outubro, o museu sediará debates e vivências práticas gratuitas, onde os
visitantes poderão aprender diretamente com os luthiers convidados.
Serviço
Cavalo Marinho, festa popular, 1957. Recife -
PE
Foto: Marcel Gautherot/Acervo Instituto Moreira Salles.
Período
da exposição: 26 de julho a 18 de outubro de 2026.
Funcionamento:
Quarta a domingo, das 10h às 18h.
Entrada:
Gratuita.
Local:
Museu A CASA do Objeto Brasileiro (Av. Pedroso de Morais, 1.216, São Paulo
- SP).
Entre a lona e o fole. Dizer que Lívia Mattos é acordeonista, cantautora e socióloga é resumir apenas uma parte da engrenagem. Para entender a sua assinatura, é preciso olhar para o picadeiro. Foi no circo que a artista soteropolitana descobriu a sanfona — não apenas como instrumento, mas como um potente recurso cênico. Dali para a criação de performances vertiginosas como a "Sanfona Aérea" e a "A Sanfonástica Mulher-lona", foi um salto natural.
Com mais de 15 anos de estrada solo, Lívia construiu uma trajetória que ignora fronteiras geográficas e estéticas. Já levou sua música para festivais internacionais, integrou a banda de Chico César, dialogou com Rosa Passos e Badi Assad, e chegou a solar com a Orquestra Sinfônica da Bahia. Sua busca é sempre pela vanguarda. Essa inquietação transborda no álbum "Verve" (2025), onde a tradicional sanfona nordestina se joga na microtonalidade, acompanhada por uma cozinha inusitada de tuba e bateria, com flertes de drum and bass. O milagre do trabalho está em fazer essa costura audaciosa, sem perder o sotaque nordestino.
Picadeiro
📸 @bendorosario/Instagram
Toda essa ousadia estética encontra sua gênese há cerca de duas décadas, sob a lona do Circo Picolino, em Salvador (BA). Para Lívia, o espaço foi uma escola de liberdade artística, moldada por uma estética profundamente antropofágica e tropicalista. A decisão de trilhar esse caminho veio após o impacto de assistir a um espetáculo circense, construído sobre a obra de Glauber Rocha. "Ali, eu senti que era aquilo que eu queria fazer da vida. E o 'aquilo' era uma mistura de linguagens: circo, poesia, cinema, música, dança, teatro, etc. [...] Acho que aprendi a ser artista nesse circo que ousava sempre, em experimentar na forma de criar, nos limites — se é que há — do que é circo", ressalta a artista.
Essa vivência moldou uma postura de constante enfrentamento e resistência. Em um cenário musical onde a sanfona no Brasil é historicamente associada ao universo masculino, Lívia imprime sua própria leitura autoral. "Tocar um instrumento tão estigmatizado, saindo de caminhos mais óbvios, mas sem negá-los, borrando as arestas, sendo mulher, compositora, cantora, sem abrir mão do meu corpo, aliás, amalgamando ele ao meu fole, é um ato de resistência, é um ato político, é um enfrentamento", sublinha.
Referências
📸 @bendorosario/Instagram
Embora tenha consolidado sua carreira solo, Lívia faz questão de ressaltar que suas raízes no circo, no forró e a parceria com Chico César nunca foram abandonadas. A transição para a liderança dos palcos não se deu por um rompimento drástico, mas pelo amadurecimento natural de sua própria demanda artística, enquanto atuava como 'side woman'. "Fui experimentando e construindo, paralelamente, ao mesmo tempo, aproveitando a colaboração com artistas como Chico, Badi Assad, Ceumar, Alessandra Leão, Rosa Passos, entre outros, como uma esponja, me inspirando nessas referências e descobrindo meu caminho de composição, de arranjo, de poética, de sonoridade", enumera a musicista.
Power trio
O amadurecimento dessa jornada culminou no recente álbum "Verve" (2025). O coração do novo disco bate no ritmo de um power trio inusitado, formado por Lívia, Jefferson Babu (tuba) e Rafael dos Santos (bateria). Juntos na estrada há quase uma década, os músicos vinham maturando essa formação, desde 2019:
"O processo do álbum "Verve" foi um aprofundamento de pesquisa de linguagem do trio muito intenso e bonito; um mergulho de cabeça, não só nessa concisão da formação, mas também na maturação dessa temperatura, entre o Vinha da Ida e o Apneia, nessa invenção de um não-lugar, no estabelecimento dessa proposta não óbvia".
Sem fronteiras
Essa universalidade, sem amarras, tem levado o som de Lívia a transpor barreiras geográficas, com shows marcados no Senegal e turnês europeias. Mas cruzar fronteiras também significa driblar as expectativas do mercado externo e as tentativas de categorização por meio de estereótipos. Para isso, ela propõe pensar a sanfona quase como outro instrumento, inserida em arranjos curiosos e fora dos padrões comerciais.
📸 @bendorosario/Instagram
"Como representante da sanfona brasileira, sinto que meu papel é essa mirada do contemporâneo que não precisa romper com o 'de onde se vem', que amalgama memórias, trânsitos e transcria, em cima de tudo isso. A minha sanfona é brasileira e aberta ao mundo, na compreensão da diversidade como a maior beleza da humanidade. O diverso me inspira, me faz pensar diferente, criar diferente e ir desvendando essa minha identidade, que é móvel, dinâmica, porosa", conclui a instrumentista.
A cena do metal nacional ganha um novo e robusto capítulo
com a estreia oficial da banda paulistana Strigah. Chegando às plataformas de
streaming pelo selo Coffinjoe Records, o quarteto lança Zoetia, um trabalho de
fôlego que consolida a identidade do grupo em uma intersecção ambiciosa entre
metal moderno, prog, industrial e música experimental.
O título do disco é um neologismo que sintetiza a proposta
conceitual do projeto: a junção de zoe (vida) e goetia (feitiço).
Esse "feitiço da vida" se traduz em um repertório denso, guiado pela
tensão constante entre a revolta contra o colapso moderno, a defesa ecológica e
a busca por uma conexão espiritual profunda.
A Strigah é formada por Kaio Felipe (vocal), Samanta Tica
(baixo), Eleonardo de Paula (bateria) e Matheus Figueredo (guitarra).
Musicalmente, Zoetia foge do previsível. O álbum
desafia o ouvinte com estruturas complexas repletas de grooves, polirritmias e
quebras de tempo, mas sem abrir mão do equilíbrio: há espaço generoso para
passagens melódicas, vozes ecoadas e atmosferas profundas que potencializam o
peso de cada composição.
De acordo com os integrantes, o trabalho foi desenhado sob
uma lógica própria, voltado para quem busca um metal autêntico e fora dos
moldes tradicionais. O ecletismo da banda se reflete em suas influências
declaradas, que vão do peso internacional de Meshuggah, Fear Factory
e Deftones, à efervescência de nomes do underground nacional, como Deafkids
e Última Theoria.
Tratado sobre ambientes
Mais do que uma coleção de faixas isoladas, as letras
funcionam como um tratado que investiga cinco frentes: o ambiente natural, a
cidade hostil, o espaço virtual, o íntimo do sujeito e o território espiritual.
As composições se destacam
pelo forte teor político, filosófico e místico. O grupo bebe de fontes que vão
do gnosticismo e da cabala judaica a citações diretas de grandes lideranças
indígenas brasileiras, como Ailton Krenak e Davi Kopenawa.
Dentre as músicas de destaca, “A Propriedade é Roubo” abre o debate sobre o
latifúndio e a exploração da terra, homenageando defensores da floresta como
Bruno Pereira, Dom Phillips e Dorothy Stang.
Em “Xamanismo Urbano”, há uma
forte crítica anticolonial, que conecta o agronegócio e a destruição da
Amazônia ao distanciamento humano da ancestralidade.
“Espírito da Cidade” retrata o cenário urbano caótico,
através de imagens de repressão policial, controle e violência de classe.
A música “Florestas Digitais” analisa a alienação da vida mediada por teles,
redes e o esgotamento do tempo.
Produção
O refinamento técnico de Zoetia conta com mixagem e
masterização assinadas por Yukio Hara, arte de capa por Jennifer Erny e
fotografias do grupo feitas por Chev. Os conteúdos audiovisuais levam o selo da
RageBox Prod.
Celebrando este momento de afirmação artística, a Strigah já
se prepara para levar o novo repertório aos palcos. A banda fará um show de
apresentação de Zoetia no Hot Pub, em Santo André (SP). A performance
será gravada ao vivo e se transformará em um videoclipe oficial, com lançamento
previsto para o final de julho.
Arte de capa: @j.3rny
O álbum Zoetia já está disponível em todas as
plataformas digitais e pode ser acessado pelo link oficial da banda: found.ee/strigah_zoetia.
Quem frequenta a região da Lagoa do Iriry durante o tradicional circuito de jazz e blues de Rio das Ostras sabe que a efervescência artística da cidade vai muito além dos palcos oficiais. É nesse cenário alternativo que se consolidou o projeto independente “Isso Não É Jazz & Blues”, que chega em 2026 à sua sexta edição, reafirmando sua identidade como um espaço vital de ocupação cultural, liberdade criativa e fortalecimento da produção regional.
Idealizado pelo músico Diogo Spadaro, o projeto nasceu como uma provocação. O objetivo sempre foi provar a existência de uma cena artística local pulsante, que se mantém ativa ao longo de todo o ano, e não apenas no período do festival principal — considerado o maior do gênero, na América Latina.
"Queremos criar espaços de encontro, improviso, experimentação e convivência entre artistas e público", destacou Spadaro.
Fomento
A edição deste ano traz um marco especial: a conquista de recursos por meio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), viabilizada pelo Governo Federal, via Ministério da Cultura. O apoio financeiro expande as possibilidades de fomento à cultura autoral da região e fortalece a infraestrutura técnica das apresentações.
As exibições musicais acontecem nos dias 4, 5 e 6 de junho, a partir das 15h, no Quiosque NKR (localizado logo ao lado do palco oficial da Lagoa do Iriry).
A linha de frente das apresentações será comandada por três cantoras de destaque da cena local: Thati Dias, na quinta-feira (4), Cláudia Falcão, na sexta (5), e Raquel Dimar, no sábado (6).
As artistas se apresentarão acompanhadas pela Banda Freetração, grupo com sólida bagagem em jazz e música afro-diaspórica, formado por Diogo Spadaro (voz e guitarra), Denisson Caminha (bateria e SPD), Negão Jazz Bass (baixo), Brenddon Miranda (saxofone) e Sabatuk (percussão). Juntos, os músicos transformam cada show em uma experiência artística autêntica e construída em tempo real por meio do improviso.
O evento é aberto ao público e integra a programação cultural da cidade.