Mais de uma década
após a partida de Amy Winehouse, a dolorosa e magnética “Back to Black”
garantiu o retorno da cantora britânica ao Hot 100 da Billboard Brasil,
alcançando a 44ª posição. Além de provar que o luto poético da artista é
atemporal, o feito coincide com o sucesso da faixa no streaming — caminha a
passos largos para bater a marca histórica de 1 bilhão de reproduções no
Spotify — e com o interesse renovado pela cinebiografia homônima, que reconta
os passos da estrela britânica.
Mais do que o maior hit de sua carreira, a faixa-título
do segundo e último álbum de estúdio de Amy é uma radiografia sem filtros de
sua alma. A composição nasceu do primeiro e abrupto término com Blake
Fielder-Civil, em 2005. Na época, Blake colocou um ponto final na relação por meio
de uma mensagem de texto enquanto viajava, optando por reatar com uma
ex-namorada. Enquanto ele seguia em frente, Amy mergulhava na escuridão — um
contraste doloroso impresso nos versos onde ela canta sobre ser deixada para
trás, presa às próprias sombras.
O impacto daquela rejeição foi o estopim para o
agravamento da depressão da artista e de sua relação destrutiva com o álcool.
No clássico videoclipe da canção, filmado em preto e branco, Amy encena o
funeral do próprio coração, uma metáfora visual perfeita para o que vivia fora
dos palcos.
O relacionamento com Blake, marcado por idas e vindas,
culminou em um casamento em 2007 e no divórcio em 2009. Anos mais tarde, o
próprio Blake admitiria publicamente ter apresentado a heroína à cantora,
solidificando a tragédia que uniu amor, vício e genialidade artística. O
retorno da música às paradas em 2026 apenas reitera que a dor transformada em
arte por Amy Winehouse continua a ecoar com a mesma força do primeiro dia.
Aquela velha ideia de que a música de concerto é um universo
rígido, silencioso e distante do grande público ganha um contraponto vibrante
em Diadema (SP). No dia 20 de junho, sábado, às 20h, o Teatro Clara Nunes
recebe o show “A Elegância dos Metais”, comandado pelo aclamado quinteto BrassUka.
A apresentação faz parte da temporada 2026 do projeto Concertos Campestres,
iniciativa que vem convertendo as noites da cidade do ABC paulista em sinônimos
de democratização cultural.
Sob a direção artística do maestro Daniel Cornejo e
realizado pelo ISPAC (Instituto São Paulo de Arte e Cultura), o projeto segue
sua missão mensal: descer a música erudita do pedestal e misturá-la às raízes
brasileiras de forma gratuita.
Dinamismo
Muitas vezes associados a um som puramente agressivo ou
militar, os instrumentos de metal ganham contornos de sutiliza e extrema
sofisticação nas mãos do BrassUka. Criado em 2011 por cinco amigos de longa
data, o grupo — formado por Moisés Américo e Pedro Santos (trompetes), Eder
Tavares (trompa), Agnaldo Gonçalves (trombone) e Marcos Tudeia (tuba) — já soma
mais de 300 apresentações na bagagem.
O segredo do quinteto está na irreverência. A performance
explora a versatilidade ao extremo, provando que a potência desses instrumentos
pode coexistir perfeitamente com a doçura de uma canção popular.
Repertório
O programa escolhido para a noite do dia 20 reflete o
ecletismo do projeto. Em vez de se fechar em um único período histórico, o
BrassUka propõe uma viagem no tempo que conecta a Europa clássica aos morros e
matas do Brasil.
O público será guiado por um roteiro sonoro que inclui os clássicos
europeus, em obras do renascentista G. Gabrieli, a energia de Rossini e o drama
de Tchaikovsky (sintetizado em um medley empolgante, que unirá a Abertura
1812 ao seu famoso Concerto para Piano nº 1). Além da identidade nacional,
com a genialidade de Heitor Villa-Lobos em "O Trenzinho Caipira",
e arranjos para hinos da nossa música popular, como "Carinhoso"
(Pixinguinha) e "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso.
“A ideia do projeto é aproximar as pessoas da música de um
jeito mais direto e envolvente; mostrando que ela pode ser acessível e
interessante para todo mundo. A cada edição, a gente busca trazer novos
repertórios e formações que surpreendam o público e criem uma conexão
verdadeira com quem está assistindo”, sublinha o produtor do Concertos Campestres,
Thiago Catelani.
Serviço
Evento:
Concertos Campestres apresenta BrassUka em “A Elegância dos Metais”
Homem não
identificado, tocando instrumento de sopro, c. 1970. Foto: Thomaz Farkas/Acervo
Instituto Moreira Salles
Mãos que moldam as ferramentas da música brasileira. No dia 26 de julho, o Museu
A CASA do Objeto Brasileiro, em São Paulo, abre as portas para a exposição “Música
Artesanal”, uma imersão profunda no universo da lutheria nacional e na herança
cultural que transforma madeira, couro e metal em patrimônio imaterial.
Com curadoria do renomado pianista e compositor Benjamim
Taubkin — um dos nomes ligados à fundação da própria instituição —, a mostra
marca também o reencontro do público com o museu, que passou por reformas
recentes de modernização e ampliação de acessibilidade.
O elo perdido de Mário de Andrade
O destaque histórico da exposição é a conexão direta com a
célebre Missão de Pesquisas Folclóricas de 1938, uma expedição idealizada por
Mário de Andrade que percorreu o Norte e o Nordeste, para mapear as
manifestações artísticas e religiosas do país.
Cinco peças históricas coletadas durante aquela jornada
foram resgatadas do acervo do Centro Cultural São Paulo (CCSP) e serão exibidas
ao público. O diálogo entre o passado e o presente é costurado por registros
iconográficos raros de fotógrafos como Thomaz Farkas, Marcel Gautherot e Miriam
Bisilliat, cedidos pelo Instituto Moreira Salles (IMS).
Criança tocando atabaque,
1990-1999. Pelourinho – Salvador - BA Foto: Acervo Walter Firmo/
Instituto Moreira Salles
“A música brasileira nasce de muitos encontros: de culturas,
territórios, matérias e modos de fazer. A exposição procura mostrar justamente
esse elo entre o gesto artesanal e a construção da nossa identidade sonora. Os
instrumentos carregam histórias e formas de conhecimento transmitidas entre
gerações”, ressalta o curador Benjamim Taubkin.
Infinitos ritmos
A narrativa da mostra se apoia na espinha dorsal de quatro
instrumentos fundamentais da nossa tradição. Para dar vida a esse recorte,
Taubkin convidou quatro mestres artesãos contemporâneos, cujos trabalhos ganham
protagonismo na cena: A viola caipira, por
Régis Bonilha, destacando o berço da moda, do pagode caipira e do repente; a rabeca,
por Adam Bahrami, com o arco que conduz o fandango, o baião e o forró; o pífano,
por Alexandre Rodrigues: o sopro que conecta as tradições indígenas e as bandas
de pífano do interior; além do atabaque e da percussão de Luiz Poeira, ecoando
o maracatu, o samba, a congada, o ijexá e o frevo.
Além das peças criadas exclusivamente para o projeto, a
experiência visual é complementada por um vídeo inédito, dirigido pelo curador
em parceria com Kabé Pinheiro e Laís Branco (Produtora VMD).
Oficinas
Para além das vitrines, "Música Artesanal" se
propõe a ser um espaço de troca ativa. Ao longo do período expositivo, que vai até
18 de outubro, o museu sediará debates e vivências práticas gratuitas, onde os
visitantes poderão aprender diretamente com os luthiers convidados.
Serviço
Cavalo Marinho, festa popular, 1957. Recife -
PE
Foto: Marcel Gautherot/Acervo Instituto Moreira Salles.
Período
da exposição: 26 de julho a 18 de outubro de 2026.
Funcionamento:
Quarta a domingo, das 10h às 18h.
Entrada:
Gratuita.
Local:
Museu A CASA do Objeto Brasileiro (Av. Pedroso de Morais, 1.216, São Paulo
- SP).
Entre a lona e o fole. Dizer que Lívia Mattos é acordeonista, cantautora e socióloga é resumir apenas uma parte da engrenagem. Para entender a sua assinatura, é preciso olhar para o picadeiro. Foi no circo que a artista soteropolitana descobriu a sanfona — não apenas como instrumento, mas como um potente recurso cênico. Dali para a criação de performances vertiginosas como a "Sanfona Aérea" e a "A Sanfonástica Mulher-lona", foi um salto natural.
Com mais de 15 anos de estrada solo, Lívia construiu uma trajetória que ignora fronteiras geográficas e estéticas. Já levou sua música para festivais internacionais, integrou a banda de Chico César, dialogou com Rosa Passos e Badi Assad, e chegou a solar com a Orquestra Sinfônica da Bahia. Sua busca é sempre pela vanguarda. Essa inquietação transborda no álbum "Verve" (2025), onde a tradicional sanfona nordestina se joga na microtonalidade, acompanhada por uma cozinha inusitada de tuba e bateria, com flertes de drum and bass. O milagre do trabalho está em fazer essa costura audaciosa, sem perder o sotaque nordestino.
Picadeiro
📸 @bendorosario/Instagram
Toda essa ousadia estética encontra sua gênese há cerca de duas décadas, sob a lona do Circo Picolino, em Salvador (BA). Para Lívia, o espaço foi uma escola de liberdade artística, moldada por uma estética profundamente antropofágica e tropicalista. A decisão de trilhar esse caminho veio após o impacto de assistir a um espetáculo circense, construído sobre a obra de Glauber Rocha. "Ali, eu senti que era aquilo que eu queria fazer da vida. E o 'aquilo' era uma mistura de linguagens: circo, poesia, cinema, música, dança, teatro, etc. [...] Acho que aprendi a ser artista nesse circo que ousava sempre, em experimentar na forma de criar, nos limites — se é que há — do que é circo", ressalta a artista.
Essa vivência moldou uma postura de constante enfrentamento e resistência. Em um cenário musical onde a sanfona no Brasil é historicamente associada ao universo masculino, Lívia imprime sua própria leitura autoral. "Tocar um instrumento tão estigmatizado, saindo de caminhos mais óbvios, mas sem negá-los, borrando as arestas, sendo mulher, compositora, cantora, sem abrir mão do meu corpo, aliás, amalgamando ele ao meu fole, é um ato de resistência, é um ato político, é um enfrentamento", sublinha.
Referências
📸 @bendorosario/Instagram
Embora tenha consolidado sua carreira solo, Lívia faz questão de ressaltar que suas raízes no circo, no forró e a parceria com Chico César nunca foram abandonadas. A transição para a liderança dos palcos não se deu por um rompimento drástico, mas pelo amadurecimento natural de sua própria demanda artística, enquanto atuava como 'side woman'. "Fui experimentando e construindo, paralelamente, ao mesmo tempo, aproveitando a colaboração com artistas como Chico, Badi Assad, Ceumar, Alessandra Leão, Rosa Passos, entre outros, como uma esponja, me inspirando nessas referências e descobrindo meu caminho de composição, de arranjo, de poética, de sonoridade", enumera a musicista.
Power trio
O amadurecimento dessa jornada culminou no recente álbum "Verve" (2025). O coração do novo disco bate no ritmo de um power trio inusitado, formado por Lívia, Jefferson Babu (tuba) e Rafael dos Santos (bateria). Juntos na estrada há quase uma década, os músicos vinham maturando essa formação, desde 2019:
"O processo do álbum "Verve" foi um aprofundamento de pesquisa de linguagem do trio muito intenso e bonito; um mergulho de cabeça, não só nessa concisão da formação, mas também na maturação dessa temperatura, entre o Vinha da Ida e o Apneia, nessa invenção de um não-lugar, no estabelecimento dessa proposta não óbvia".
Sem fronteiras
Essa universalidade, sem amarras, tem levado o som de Lívia a transpor barreiras geográficas, com shows marcados no Senegal e turnês europeias. Mas cruzar fronteiras também significa driblar as expectativas do mercado externo e as tentativas de categorização por meio de estereótipos. Para isso, ela propõe pensar a sanfona quase como outro instrumento, inserida em arranjos curiosos e fora dos padrões comerciais.
📸 @bendorosario/Instagram
"Como representante da sanfona brasileira, sinto que meu papel é essa mirada do contemporâneo que não precisa romper com o 'de onde se vem', que amalgama memórias, trânsitos e transcria, em cima de tudo isso. A minha sanfona é brasileira e aberta ao mundo, na compreensão da diversidade como a maior beleza da humanidade. O diverso me inspira, me faz pensar diferente, criar diferente e ir desvendando essa minha identidade, que é móvel, dinâmica, porosa", conclui a instrumentista.
A cena do metal nacional ganha um novo e robusto capítulo
com a estreia oficial da banda paulistana Strigah. Chegando às plataformas de
streaming pelo selo Coffinjoe Records, o quarteto lança Zoetia, um trabalho de
fôlego que consolida a identidade do grupo em uma intersecção ambiciosa entre
metal moderno, prog, industrial e música experimental.
O título do disco é um neologismo que sintetiza a proposta
conceitual do projeto: a junção de zoe (vida) e goetia (feitiço).
Esse "feitiço da vida" se traduz em um repertório denso, guiado pela
tensão constante entre a revolta contra o colapso moderno, a defesa ecológica e
a busca por uma conexão espiritual profunda.
A Strigah é formada por Kaio Felipe (vocal), Samanta Tica
(baixo), Eleonardo de Paula (bateria) e Matheus Figueredo (guitarra).
Musicalmente, Zoetia foge do previsível. O álbum
desafia o ouvinte com estruturas complexas repletas de grooves, polirritmias e
quebras de tempo, mas sem abrir mão do equilíbrio: há espaço generoso para
passagens melódicas, vozes ecoadas e atmosferas profundas que potencializam o
peso de cada composição.
De acordo com os integrantes, o trabalho foi desenhado sob
uma lógica própria, voltado para quem busca um metal autêntico e fora dos
moldes tradicionais. O ecletismo da banda se reflete em suas influências
declaradas, que vão do peso internacional de Meshuggah, Fear Factory
e Deftones, à efervescência de nomes do underground nacional, como Deafkids
e Última Theoria.
Tratado sobre ambientes
Mais do que uma coleção de faixas isoladas, as letras
funcionam como um tratado que investiga cinco frentes: o ambiente natural, a
cidade hostil, o espaço virtual, o íntimo do sujeito e o território espiritual.
As composições se destacam
pelo forte teor político, filosófico e místico. O grupo bebe de fontes que vão
do gnosticismo e da cabala judaica a citações diretas de grandes lideranças
indígenas brasileiras, como Ailton Krenak e Davi Kopenawa.
Dentre as músicas de destaca, “A Propriedade é Roubo” abre o debate sobre o
latifúndio e a exploração da terra, homenageando defensores da floresta como
Bruno Pereira, Dom Phillips e Dorothy Stang.
Em “Xamanismo Urbano”, há uma
forte crítica anticolonial, que conecta o agronegócio e a destruição da
Amazônia ao distanciamento humano da ancestralidade.
“Espírito da Cidade” retrata o cenário urbano caótico,
através de imagens de repressão policial, controle e violência de classe.
A música “Florestas Digitais” analisa a alienação da vida mediada por teles,
redes e o esgotamento do tempo.
Produção
O refinamento técnico de Zoetia conta com mixagem e
masterização assinadas por Yukio Hara, arte de capa por Jennifer Erny e
fotografias do grupo feitas por Chev. Os conteúdos audiovisuais levam o selo da
RageBox Prod.
Celebrando este momento de afirmação artística, a Strigah já
se prepara para levar o novo repertório aos palcos. A banda fará um show de
apresentação de Zoetia no Hot Pub, em Santo André (SP). A performance
será gravada ao vivo e se transformará em um videoclipe oficial, com lançamento
previsto para o final de julho.
Arte de capa: @j.3rny
O álbum Zoetia já está disponível em todas as
plataformas digitais e pode ser acessado pelo link oficial da banda: found.ee/strigah_zoetia.
Quem frequenta a região da Lagoa do Iriry durante o tradicional circuito de jazz e blues de Rio das Ostras sabe que a efervescência artística da cidade vai muito além dos palcos oficiais. É nesse cenário alternativo que se consolidou o projeto independente “Isso Não É Jazz & Blues”, que chega em 2026 à sua sexta edição, reafirmando sua identidade como um espaço vital de ocupação cultural, liberdade criativa e fortalecimento da produção regional.
Idealizado pelo músico Diogo Spadaro, o projeto nasceu como uma provocação. O objetivo sempre foi provar a existência de uma cena artística local pulsante, que se mantém ativa ao longo de todo o ano, e não apenas no período do festival principal — considerado o maior do gênero, na América Latina.
"Queremos criar espaços de encontro, improviso, experimentação e convivência entre artistas e público", destacou Spadaro.
Fomento
A edição deste ano traz um marco especial: a conquista de recursos por meio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), viabilizada pelo Governo Federal, via Ministério da Cultura. O apoio financeiro expande as possibilidades de fomento à cultura autoral da região e fortalece a infraestrutura técnica das apresentações.
As exibições musicais acontecem nos dias 4, 5 e 6 de junho, a partir das 15h, no Quiosque NKR (localizado logo ao lado do palco oficial da Lagoa do Iriry).
A linha de frente das apresentações será comandada por três cantoras de destaque da cena local: Thati Dias, na quinta-feira (4), Cláudia Falcão, na sexta (5), e Raquel Dimar, no sábado (6).
As artistas se apresentarão acompanhadas pela Banda Freetração, grupo com sólida bagagem em jazz e música afro-diaspórica, formado por Diogo Spadaro (voz e guitarra), Denisson Caminha (bateria e SPD), Negão Jazz Bass (baixo), Brenddon Miranda (saxofone) e Sabatuk (percussão). Juntos, os músicos transformam cada show em uma experiência artística autêntica e construída em tempo real por meio do improviso.
O evento é aberto ao público e integra a programação cultural da cidade.
Quilombo urbano focado em transformar histórias, resgatar trajetórias e pavimentar caminhos mais justos para o futuro, a Estação Primeira de Mangueira prova, mais uma vez, que o impacto de uma escola de samba ecoa muito além dos desfiles na Sapucaí. Tradicional polo de resistência cultural, a Verde e Rosa celebra, neste mês de maio, um marco histórico em suas Oficinas Carnavalescas: a atual edição superou a marca de mil alunos beneficiados, registrando o recorde absoluto de atendimentos do projeto.
As atividades, que seguem até sexta (29), ocupam a quadra da agremiação com uma proposta que une o resgate ancestral à urgência econômica: oferecer formação técnica gratuita e abrir portas para a geração de emprego e renda, priorizando moradores da comunidade e pessoas em situação de vulnerabilidade social
O projeto se destaca pela diversidade de seu escopo. Longe de se limitar aos bastidores do barracão, as oficinas abraçam a formação musical, a dança e o empreendedorismo estético. Quem frequenta a quadra tem a chance de aprender com quem vive o dia a dia da escola, integrando-se diretamente com os mestres da tradicional bateria da Mangueira.
O cardápio de atividades gratuitas inclui percussão; cavaquinho; violão; canto; samba no pé; dança afro; zumba; além de oficinas de tranças. "Mais do que ensinar um ofício, as oficinas devolvem esperança e mostram novos caminhos para quem muitas vezes não se sentia visto", reflete a presidenta da Mangueira, Guanayra Firmino.
Legado
Realizadas de forma contínua desde 2025, as Oficinas Carnavalescas se consolidaram como uma tecnologia social robusta, dentro da favela. Para a diretoria da escola, o resultado mais importante não está nos números frios do recorde, mas sim na emancipação de cada participante.
A iniciativa atua na base da dignidade humana, fortalecendo a autoestima e os vínculos comunitários em um território que frequentemente precisa criar suas próprias oportunidades, diante da ausência do Estado.
“Hoje, o foco é no resultado. Nos rostos, nas histórias e em cada certificado que representa conquista, aprendizado e transformação. Um registro afetivo do impacto que a gente constrói juntos, valorizando quem é da casa e fortalecendo o nosso futuro”, enfatiza Guanayra.
A cantora, compositora e multi-instrumentista carioca Christine Valença abre os caminhos para sua nova fase criativa em 2026, com o lançamento de “Sur Ton Île”. O single promove um sensível intercâmbio cultural entre o Brasil e a França, unindo a artista a três nomes de destaque da cena francesa: o rapper Verso, o cantor Félicien Adam e o instrumentista Luazó (parceiro de longa data da cantora).
A faixa transita com naturalidade entre o soul, a MPB, o folk e o pop alternativo. Misturando os idiomas português e francês, ritmos latinos e poesia urbana, a obra nasce como uma metáfora sobre conexões e o desejo de atravessar fronteiras. O lançamento também ganhou uma dimensão visual com um videoclipe gravado entre os momentos de estúdio e belas imagens do Rio de Janeiro.
Conexões
A ligação de Christine com a França carrega traços afetivos e familiares: sua mãe, que também era cantora e compositora, viveu uma bem-sucedida residência artística em Paris, nos anos 80. Décadas depois, a história se conecta. O embrião do projeto surgiu no início de 2025, após apresentações da carioca na Europa e a oportunidade de focar no fortalecimento dessas parcerias por meio de editais do ano do Brasil na França.
O processo de gravação em estúdio funcionou como um verdadeiro "blind-date artístico", proposto pela gravadora French Light Records. Com apenas um fim de semana para criar e sem uma troca prévia de ideias, os músicos se guiaram pela intuição e por referências literárias de peso, levadas por Christine, como As Flores do Mal, de Baudelaire, e Ideias para Adiar o Fim do Mundo, de Ailton Krenak.
Desafios
Para a artista, o lançamento representa uma fuga saudável da complexa e hostil cena independente do Rio de Janeiro, além de um rompimento com as "câmaras de eco" e bolhas das redes sociais. Christine relembra que, no início da carreira, chegou a acreditar que só conseguiria espaço investindo recursos próprios na sua cidade natal. A reviravolta veio, ao arriscar um show solo em Lisboa, onde encontrou um público caloroso que validou sua identidade musical e deu forças para manter seu propósito.
"Sur Ton Île" funciona como o grande motor e a principal inspiração para o próximo passo da carreira de Christine Valença: um EP autoral e recheado de novas experimentações que já está a caminho.
Brasileiro celebra 50 anos de carreira com participação em turnê americana
Fotos: reprodução/Instagram
O multi-instrumentista brasileiro Carlos Malta, consagrado internacionalmente por suas colaborações com grandes ícones da música nacional, vive um momento de celebração. Comemorando cinco décadas de trajetória artística, o músico cumpre uma agenda intensa de compromissos no Brasil e no exterior. Entre os marcos recentes deste ciclo comemorativo estão uma apresentação ao lado da Orquestra Brazil Jazz Sinfônica, em São Paulo, e o relançamento de seu primeiro álbum solo, O escultor do vento. Além disso, o mês de maio reservou ao artista um convite especial para uma apresentação em palcos internacionais.
Nesta sexta (29) e sábado (30), Malta subirá ao palco do iTHINK Financial Amphitheatre, na Flórida (EUA), como convidado de Dave Matthews, na Summer Tour 2026. A parceria e a amizade entre os dois músicos são antigas e vêm se consolidando, ao longo dos anos. A primeira colaboração ocorreu em 2008, quando Malta participou do álbum Live in Rio, lançado pela Sony Music, tocando nas faixas #43 e Say Goodbye.
Desde então, os encontros no palco tornaram-se frequentes, com registros em apresentações no Rio de Janeiro (2010 e 2013), na Flórida (2011), em New Jersey (2012), em Seattle (2016) e no México (2018 e 2019). Essa conexão recorrente entre o instrumentista brasileiro e a banda norte-americana reflete uma aproximação de universos musicais que se complementam, com forte destaque para a liberdade criativa, a improvisação e a fusão de estilos.
A união entre música erudita, fé e resgate histórico promete emocionar os moradores de São Gonçalo, na próxima segunda-feira (1º). Às 20h, a Paróquia São Gonçalo de Amarante (Igreja Matriz) será o palco do tradicional Concerto Sacro – Série Ametista, apresentado pela Orquestra Filarmônica Metropolitana (OFM). O evento gratuito marca a abertura oficial da aguardada semana de Corpus Christi na cidade.
O espetáculo, que já completa cinco anos de história, consolidou-se no calendário oficial local. Mais do que um concerto, a Série Ametista propõe um diálogo sensível com a identidade local, trazendo um repertório focado em composições religiosas que tocam a memória coletiva e a espiritualidade do público.
Fé e cultura
A apresentação ocorre em um momento de forte sinergia cultural para São Gonçalo. É durante esta semana que a paróquia mobiliza centenas de voluntários, moradores e artistas para confeccionar o famoso tapete de sal — considerado o maior da América Latina e uma das principais expressões de devoção do estado.
Para Rafael Vieira, ativista social e fundador do Instituto dos Sonhos, o concerto funciona como uma ponte fundamental.
"Esse concerto representa um encontro entre arte, espiritualidade e identidade cultural. A cada edição, percebemos o quanto a música sacra aproxima o público da experiência coletiva proporcionada pelo período de Corpus Christi em São Gonçalo".
O maestro Gustavo Fernandes reforça o papel social do projeto, destacando o compromisso do conjunto com a democratização do acesso à música clássica.
"Levar a Série Ametista para a Igreja Matriz, durante a abertura dos festejos de Corpus Christi, reforça nosso compromisso com a valorização do patrimônio cultural e o acesso da população à música de concerto", afirma o regente.
Com duração aproximada de 60 minutos e classificação etária livre, o evento é totalmente voltado para a comunidade e entusiastas da música sacra. A expectativa dos organizadores é receber um público estimado de 350 pessoas.
Embora a entrada seja franca, os interessados devem retirar seus ingressos antecipadamente pela internet.
Serviço:
* Evento: Concerto Sacro – Série Ametista (Orquestra Filarmônica Metropolitana)
* Data: 01 de junho de 2026 (segunda-feira)
* Horário: 20h
* Local: Paróquia São Gonçalo de Amarante (Igreja Matriz)
* Endereço: Alameda Pio XII, 86 – Centro, São Gonçalo - RJ
Artistas criando juntos no Sleep Tales Music Lab (Fotos: Mateus Montoni)
A Vanguarda dos Beats Brota na Serra. O lofi e o wellness audio — aquela tapeçaria sonora moldada para curar a insônia ou embalar horas de estudo — costumam ser injustamente rotulados como estáticos. Mas o que acontece quando você arranca nove produtores de suas rotinas solitárias, em telas de computador, e os tranca em um casarão na região serrana do Rio de Janeiro? A resposta é uma revolução silenciosa, com sotaque brasileiro e reverberação global.
Entre os dias 11 e 15 de maio de 2026, a serra fluminense virou o epicentro da primeira residência da América Latina dedicada exclusivamente à experimentação de beats: o Sleep Tales Music Lab. Idealizado pela Sleep Tales — gigante brasileira que hoje ostenta o título de maior selo do gênero fora da Europa —, o intercâmbio reuniu mentes criativas dos Estados Unidos, Bélgica, Inglaterra e de vários cantos do Brasil.
O resultado do isolamento criativo foi avassalador. Em apenas três dias de imersão analógica e digital, operando em três estúdios simultâneos, com esquemas de rodízio, os artistas pariram mais de 20 faixas inéditas.
Choque cultural
Se o mercado internacional já está acostumado a samplear os clichês da bossa nova, o Music Lab tratou de implodir o óbvio. Os gringos foram apresentados à complexidade percussiva e melódica do Nordeste e da MPB contemporânea.
"Apresentei Luiz Gonzaga, Lenine, o baião... Ver a reação deles assimilando essa dinâmica instrumental e aplicando nos arranjos foi animal", conta Ricardo Schneider, A&R da Sleep Tales. "O Brasil provou aqui que é uma relevância mundial para a música de invenção de forma geral".
A tradicional "cozinha" eletrônica do lofi ganhou texturas orgânicas e subgêneros híbridos. Da fusão, nasceram faixas que equilibram a calmaria necessária para o foco com construções harmônicas densas, flertando abertamente com o jazz, o ambient e o downtempo.
Algoritmos
Para os produtores estrangeiros, a experiência na serra fluminense funcionou também como um manifesto de descompressão. Longe da urgência mercantilista das capitais europeias e americanas, a música voltou a ser fruto do afeto.
A artista inglesa Bella Band sintetizou o choque de realidade:
"Em Londres, sinto que você sempre precisa fazer a música que está ditando a tendência do momento. No Brasil, há um background musical absurdamente rico... É um lugar musicalmente plural, vibrante e livre".
O material gerado na imersão já está em fase de pós-produção e lapidação. No segundo semestre de 2026, o mundo vai conhecer o álbum Sleep Tales Music Lab Vol. 01, que chegará acompanhado de um pequeno documentário, registrando os bastidores desse encontro histórico.
Nascida no sufoco da pandemia, em 2021, pelas mãos de Daniel Sander (sob o pseudônimo colours in the dark), a Sleep Tales hoje bate a marca de 45 milhões de plays mensais e é curadora oficial da Apple Music.