terça-feira, 12 de maio de 2026

Fafá de Belém celebra 50 anos de carreira em estreia histórica no Circo Voador

 

Foto: Aryanne Almeida

Existem encontros que parecem predestinados, mesmo que tardios. No dia 5 de junho (sexta-feira), o tradicional palco do Circo Voador — templo da resistência cultural carioca — recebe, pela primeira vez com um espetáculo completo, uma das vozes mais viscerais e emblemáticas da música brasileira: Fafá de Belém. A apresentação não é apenas um show, mas a celebração de um cinquentenário de carreira que consegue ser, simultaneamente, memória e vanguarda.

Para este debute sob a lona da Lapa, Fafá traz o elogiado roteiro de "50 Anos", uma imersão profunda na sonoridade amazônica. O show bebe na fonte da "guitarrada paraense", contando com a presença luxuosa do mestre Manoel Cordeiro. O repertório é uma ponte entre os clássicos que embalaram o Brasil, como "Nuvem de Lágrimas" e "Coração do Agreste", além da safra contemporânea do álbum Do Tamanho Certo para o Meu Sorriso, vencedor do Prêmio da Música Brasileira.

Regresso

A escolha do repertório reflete o desejo de Fafá de revisitar suas raízes. Canções como "Meu Coração é Brega" e "Pedra Sem Valor" (de Dona Onete) não são apenas músicas, são mapas afetivos. "Fui conduzida pelo cheiro das mangueiras, pelo colorido de nossas roupas, pelo batom vermelho que nós, mulheres da Amazônia, gostamos de usar", revela a cantora, emocionada ao descrever o processo criativo que a reconectou à infância em Belém.

O espetáculo promete ser uma viagem sensorial, onde cenário e o figurino dialogam com a liberdade rítmica do Pará. Além da guitarrada, o público terá o privilégio de ouvir composições de Johnny Hooker, Zeca Baleiro e Felipe Cordeiro, mostrando que a "Diva do Pará" continua atenta às novas pulsações da nossa música.

Ancestralidade

A noite ganha um contorno ainda mais político e ancestral com a abertura do grupo Suraras do Tapajós. Composto por mulheres indígenas, o coletivo utiliza o carimbó como ferramenta de luta pelo meio ambiente e pelos direitos das mulheres originárias. A escolha do grupo de abertura sublinha a trajetória da própria Fafá, que sempre utilizou sua voz e influência para pautar questões sociais e identitárias.

Frise-se. Fafá de Belém – 50 Anos - será no próximo dia 5 de junho (sexta), às 20h, no Circo Voador (Rua dos Arcos, s/n – Lapa, Rio de Janeiro).

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Música e literatura: RuraLetras transforma interior de Teresópolis em celeiro cultural

 

Foto: divulgação 

Enquanto os grandes centros urbanos costumam monopolizar o calendário de feiras literárias, o interior do Rio de Janeiro prova que a sede por leitura e arte não conhece fronteiras geográficas. Entre os dias 21 e 24 de maio, a pacata Praça de Bonsucesso, no 3º distrito de Teresópolis, torna-se o epicentro da segunda edição da RuraLetras – Literatura, Saberes e Sonhos nas Trilhas do Interior.

O evento, que tem entrada franca, surge como um oásis de democratização cultural. Contemplada por edital da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (SECEC/RJ), a feira vai além da comercialização de títulos: ela busca costurar a identidade rural com a formação de novos leitores, valorizando o território e seus saberes ancestrais.

Após uma estreia bem-sucedida que mobilizou cerca de mil pessoas entre as localidades de Mottas e Santa Rita, a RuraLetras II amplia o fôlego. A proposta deste ano é uma experiência multissensorial. No campo literário, nomes como Cláudia Coelho, Gustavo Lucena e Ana Cristina Rosito conduzirão rodas de conversa e sessões de autógrafos, humanizando a figura do escritor para o público local.

A música e a tradição popular também ocupam lugar de destaque, funcionando como o "abre-alas" para os livros. Um dos momentos mais aguardados é a apresentação do Jongo da Serra dos Órgãos, que resgata a herança afro-brasileira da região. O palco ainda receberá a diversidade rítmica de artistas como Maurício Gielman, Félix do Forró e o grupo Samba e Tradição, garantindo que a praça pulse ao som da cultura brasileira.

Inclusão

A feira não esquece o seu papel social. Com a presença da Kombiteca Samburá de Histórias, o evento aposta na ludicidade, para cativar o público infantil, através de mediações de leitura e oficinas. Para além das páginas, o espaço abraça a economia local, com exposições de artesanato e um setor dedicado à agricultura familiar — reforçando que cultura e sustento caminham lado a lado no interior.

A RuraLetras II – Literatura, Saberes e Sonhos nas Trilhas do Interior ocorre entre 21 e 24 de maio, a partir das 9h, na Praça de Bonsucesso, que fica no 3º distrito Teresópolis (RJ). Entrada franca. Mais informações em www.jornalalecrim.com.

Aprendiz Musical celebra 25 anos com incursão pelo "Choro Sinfônico"

 

Fotos: divulgação 

O som da cidadania. Niterói não é apenas o berço de grandes instrumentistas; é também o solo onde a música atua como ferramenta de reconstrução social. No coração dessa engrenagem está o Programa Aprendiz Musical, que atinge a marca de um quarto de século em 2026, com o vigor de quem acaba de descobrir a primeira nota. Para comemorar o jubileu de prata, o programa entrega ao público um presente que une a tradição das rodas ao peso das orquestras: o álbum digital “Choro Sinfônico”.

O lançamento, marcado para sexta-feira (15), às 19h30, no Theatro Municipal de Niterói, promete ser um divisor de águas na discografia do Aprendiz Musical. No palco, a união da Orquestra Aprendiz Musical e da Orquestra de Sopros dará vida a um repertório que reverencia os alicerces da música brasileira: nomes como Pixinguinha, Ernesto Nazareth e Altamiro Carrilho — sob uma roupagem sofisticada e inédita.

Encontro de gerações

O choro, gênero que exige técnica apurada e alma boêmia, foi a escolha estratégica para conectar os 90 músicos envolvidos na gravação. Sob a regência dos maestros Evandro Rodriguese e Gabriel Dellatorre, jovens talentos dividem o protagonismo com solistas consagrados como Cristóvão Bastos e Antonio Rocha.

Para o maestro Rodriguese, veterano com 14 anos de casa, o álbum é o registro físico de um processo invisível. “Nós plantamos uma semente em cada aluno que, acima de músicos, germinam como cidadãos melhores”, afirma. Esse sentimento é ecoado pelo violinista Samir Castillo, de 25 anos. No programa desde os 12, Samir simboliza o ciclo completo do Aprendiz: 

“A música consegue descrever com sons aquilo que nos faltam palavras”.

Chancelado pela Unesco, o Aprendiz Musical é hoje o maior programa de educação musical do Brasil, atendendo cerca de 10 mil alunos. A iniciativa integra o "Pacto Niterói Contra a Violência", da prefeitura local, oferecendo uma alternativa real por meio da cultura de paz.

Serviço

O concerto de lançamento de “Choro Sinfônico” acontece nesta sexta-feira (15), com ingressos populares (R$ 4 a inteira), disponíveis via Sympla. Na mesma data, o álbum chega às plataformas de streaming, como o Spotify.

Evento: Lançamento do álbum “Choro Sinfônico”

Local: Theatro Municipal de Niterói (Rua XV de Novembro, 35, Centro)

Data e Hora: 15 de maio, às 19h30

Ingressos: R$ 4 (Inteira) / R$ 2 (Meia) via Sympla.

Riane projeta sua "Nascente" para o cenário nacional

 

Fotos: Geovana Maria/divulgação

Um pedaço da Jamaica, no recôncavo baiano. Nesta segunda (11), data em que se celebra o Dia Nacional do Reggae, os holofotes se voltam para uma nova e potente voz que emerge diretamente de Cachoeira, no Recôncavo Baiano. Riane, cantora, compositora e baixista, prepara o terreno para o lançamento de seu EP de estreia, intitulado "Nascente", previsto para chegar às plataformas no dia 29 de maio.

Longe de ser uma estreante na música, a artista graduada pela UFBA já construiu uma trajetória sólida como instrumentista, colaborando com nomes como Rachel Reis, Sued Nunes e lendas do gênero como Edson Gomes e Nengo Vieira. Agora, em carreira solo, Riane utiliza o baixo — seu fiel companheiro — para estruturar uma sonoridade que funde o reggae a elementos do pop e ritmos afro-brasileiros.

Ativismo

Em "Nascente", o reggae de resistência ganha uma nova camada: a da subjetividade. Composto por cinco faixas autorais, o trabalho desloca o foco das críticas sociais externas para explorar o "corpo-político" da mulher negra e periférica. Temas como maternidade, pertencimento, amor e a saudade do Recôncavo são o fio condutor da obra.

O cartão de visitas dessa nova fase é o single "Não Tem Carnaval", que já rendeu à artista o prêmio de Melhor Arranjo, no prestigiado 21º Festival de Música Educadora FM. Na canção, Riane utiliza a metáfora da festa momesca para falar de ausência e memória, acompanhada por um arranjo que destaca sua habilidade técnica e sensibilidade melódica. 

Identidade


O projeto conta com um time de especialistas para garantir o refino sonoro. A produção musical leva a assinatura de Felipe Guedes, com mixagem de Jordi Amorim e masterização de Mike Caplan. O visual, elemento fundamental na narrativa de Riane, tem direção de Marvin Pereira, capturando a essência estética da artista que já passou por palcos importantes como o Festival Bob por Elas e o Lioness Festival.




Shawn Crahan, o "Clown" do Slipknot, passará por cirurgia cardíaca após diagnóstico pós-turnê

 

Foto: reprodução/Instagram

M. Shawn Crahan, percussionista e mentor visual do Slipknot, revelou que enfrentará uma intervenção cirúrgica no coração em breve. A notícia foi compartilhada pelo músico de 56 anos — o último integrante da formação original ainda na banda — durante uma entrevista profunda ao podcast Tetragrammaton, de Rick Rubin, publicada na última semana.

O diagnóstico de uma arritmia cardíaca grave surgiu logo após o encerramento da mais recente turnê do grupo. Crahan relatou que, ao se sentir mal, procurou ajuda médica, momento em que a equipe de saúde chegou a suspeitar de um infarto imediato, devido à irregularidade de seus batimentos.

Falha elétrica

Diferentemente de problemas estruturais comuns, a condição de Crahan está ligada ao sistema elétrico do coração. O músico descreveu episódios em que sua frequência cardíaca sofre quedas drásticas e perigosas. "Eu sinto como se estivesse morrendo, quando isso acontece", confessou o percussionista, ao site Billboard. "Meu coração pula batidas e, aparentemente, eu ensinei meu corpo a operar como se eu fosse um corredor de cross-country, mesmo estando acima do peso", ressaltou.

Apesar do susto, Crahan tranquilizou os fãs, ao explicar que o procedimento é considerado simples e minimamente invasivo, com previsão de alta para o mesmo dia, focado justamente no ajuste da condução elétrica cardíaca.


Futuro

Foto: divulgação

Com o humor ácido que lhe é característico, "Clown" brincou que chegou a considerar a possibilidade de um marcapasso como uma "desculpa" para se aposentar das turnês exaustivas, mas foi rapidamente desencorajado pelos médicos.

"Eu perdi o controle por um momento. Pensei: 'não consigo escapar disso nem para salvar minha vida'. Nem meu próprio coração me deixa parar", ironizou. Pelo contrário, a recomendação médica é que, após a cirurgia, ele recupere o condicionamento físico, porque o tratamento deve aumentar sua vitalidade.

Atualmente contando com acompanhamento médico especializado — privilégio que ele atribui à estabilidade alcançada com o sucesso global do Slipknot — Crahan se diz otimista. "Eles me disseram que vou me sentir melhor. É maravilhoso: eu me sinto sortudo", concluiu o músico, indicando que o diagnóstico, embora sério, é o primeiro passo para garantir que a percussão caótica da banda continue ecoando por mais tempo.

*Com informações da Billboard

sábado, 9 de maio de 2026

O som que moldou o Brasil: o legado imortal de Guto Graça Mello

Foto: reprodução/Internet 

A televisão brasileira perdeu, na última terça-feira (5), o arquiteto sonoro de suas maiores emoções. Guto Graça Mello, o produtor e compositor que deu identidade musical a clássicos da TV Globo, faleceu aos 78 anos, no Rio de Janeiro, em decorrência de uma parada cardiorrespiratória. Internado há mais de um mês no Hospital Barra D’Or, ele deixa um vácuo imensurável na cultura nacional, e uma obra que continuará ecoando em milhões de lares.

Foto: reprodução/TV Globo

Com uma carreira que atravessou cinco décadas, Guto não foi apenas um músico; ele traduziu a alma do Brasil em melodias. Da abertura icônica do "Fantástico" ao inesquecível "plim-plim", sua assinatura está gravada no DNA da comunicação brasileira.

Telenovelas

Formado pela prestigiada Berklee College of Music, em Boston, Guto retornou ao Brasil inicialmente para musicar um filme, mas o destino o levou aos estúdios da TV Globo. Foi lá que, em parceria com Boni, criou o tema de abertura do "Fantástico".

Um detalhe curioso que poucos recordam: na primeira fase do programa (1973-1976), a música tinha letra e era interpretada por Vanusa. Mais tarde, ele e o compositor Luiz Paulo Simas desenvolveram frequências sonoras específicas para que o som da TV pudesse ser identificado de qualquer cômodo da casa — uma técnica que revolucionou a experiência do espectador.

Sucessos

O currículo de Guto Graça Mello impressiona pela versatilidade e pelo volume. Foram mais de 500 discos produzidos. Trabalhou com lendas como Rita Lee, João Gilberto, Roberto Carlos e Maria Bethânia; além de ser responsável por clássicos como Gabriela, Pai Herói e Malu Mulher. O produtor deu vida às canções de Sítio do Picapau Amarelo, Pirlimpimpim e Plunct, Plact, Zuum.

Imagem: reprodução/Wikipedia 

Sob sua batuta, na gravadora Som Livre, que nasceu o fenômeno Xuxa Meneghel. Produziu o "Xou da Xuxa", em 1986, álbum que vendeu mais de 3 milhões de cópias e transformou a apresentadora em uma potência da indústria musical.

Homenagens 

A partida de Guto gerou uma onda de comoção entre os maiores nomes da música e das artes do país. Xuxa declarou que o produtor faz parte de sua "história de vida", enquanto Maria Bethânia afirmou que "o mundo da música deve reverências a ele". O jornalista Nelson Motta sintetizou o sentimento geral, classificando a obra de Guto como "monumental".

Guto Graça Mello residia nos Estados Unidos e deixa a esposa, a atriz Sylvia Massari, e duas filhas. 

*Com revista IstoÉ.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Elton John é a música que preenche a dor

Foto: reprodução/YouTube

 

 Por Marcos Vinicius Cabral 
A primeira vez que ouvi Elton John foi com Little Jeannie, em 1980. Eu tinha entre sete e oito anos, idade em que a gente ainda não entende direito o mundo, mas já começa a guardar para sempre certas emoções sem perceber. 

A belíssima canção tocava o tempo inteiro no rádio, atravessando as tardes frias de Nova Friburgo, entrando pela janela de casa, misturando-se ao cheiro do café e às conversas simples da família. 

Meu tio Baiano gostava dela.

E talvez tenha sido ali, sem que eu soubesse, que a música começou a construir dentro de mim uma espécie de abrigo invisível contra o tempo.

Na adolescência, fui descobrindo que Elton John não era apenas um cantor popular. Havia algo de profundamente humano em suas músicas. 

Canções como Goodbye Yellow Brick Road parecia falar sobre abandonar ilusões; I Guess That's Why They Call It the Blues carregava a tristeza elegante das despedidas; Sad Songs (Say So Much) me ensinava que algumas dores só a música consegue compreender; Nikita tinha a solidão das paixões impossíveis; e Sacrifice parecia escrita para adultos que aprenderam tarde demais o preço do amor.

As pessoas falavam muito dos óculos extravagantes, dos chapéus absurdos, do brilho espalhado pelos palcos. Mas aquilo tudo era pequeno perto do homem chamado Reginald Kenneth Dwight. Porque por trás do espetáculo existia alguém capaz de transformar fragilidade em arte. E poucos artistas tiveram coragem de mostrar tanto do próprio coração como ele.

Mas foi Empty Garden (Hey Hey Johnny) que mudou completamente a forma como eu enxergava Elton John. Não era apenas uma música. 

Era uma ferida aberta cantando. 

Era um homem tentando conversar com o silêncio deixado pela morte do amigo John Lennon. Quando ouvi aquela canção pela primeira vez, senti algo diferente. 

Como se Elton estivesse perguntando ao mundo inteiro por que certas pessoas precisam partir cedo demais. Como se ele soubesse que nunca mais existiria outro igual.

E a verdade é que a morte de John Lennon mudou o mundo.

Mudou porque matou não apenas um músico, mas uma esperança. Em 8 de dezembro de 1980, quando Lennon foi assassinado com cinco tiros por Mark Chapman, parecia que alguém havia apagado uma luz que iluminava milhões de pessoas desde os anos de 1960. 

O mundo perdeu parte da inocência naquele dia. A música perdeu um dos seus maiores poetas. E muitos de nós descobrimos, da pior maneira, que até os homens que pareciam eternos podiam cair diante da violência absurda da realidade.

Elton John sentiu aquilo como quem perde um irmão. E talvez Empty Garden seja tão dolorosa justamente porque não tenta esconder a dor. Não existe raiva exagerada na canção. 

Existem um vazio e uma saudade até hoje.

Existe aquele silêncio terrível que fica quando alguém amado desaparece e o mundo continua seguindo normalmente, como se nada tivesse acontecido.

Desde então, comecei a perceber que as grandes músicas não envelhecem porque elas falam das perdas que todos carregamos. E Elton John sempre soube cantar perdas como poucos.

A única vez que tive a chance de vê-lo ao vivo foi em 1995, na Gávea. Eu finalmente iria assistir de perto ao artista que acompanhava minha vida desde a infância. 

Mas no mesmo dia precisei viajar para Nova Friburgo, minha terra natal, para batizar Maicon, meu saudoso afilhado. 

Só que o destino resolveu ser cruel de uma forma quase impossível de explicar: o padre não apareceu. 

Não houve batizado. 

Não houve show. 

Voltei cantarolando várias vezes Sacrifice de Nova Friburgo a São Gonçalo como se estivesse no show na Gávea.

E até hoje essa lembrança me machuca de um jeito estranho, porque perdi duas coisas importantes no mesmo dia: a oportunidade de ver um ídolo e um momento que jamais voltaria com alguém que hoje já não está mais aqui.

Talvez seja isso que Elton John sempre tenha entendido tão bem: a vida é feita de ausências. 

Algumas chegam devagar.

Outras arrancam pedaços inteiros da gente de uma só vez.

Mesmo assim, seguimos ouvindo música.

Porque certas canções fazem mais do que tocar nossos ouvidos. Elas seguram nossa memória pelas mãos. 

Elas devolvem pessoas que o tempo levou e fazem um menino de sete anos voltar a ouvir rádio dentro de casa. 

Fazem um homem lembrar do tio Baiano. Fazem um afilhado continuar vivo dentro da saudade. E fazem um artista chamado Elton John permanecer eterno, não pelos óculos ou pelos palcos, mas porque soube transformar a dor humana em algo que nunca morre.

***

Marcos Vinicius Cabral:

Formado em Comunicação Social pela Anhanguera, campus Niterói, é jornalista com passagens pelo O São Gonçalo, A Tribuna, Coluna do Fla e o POVO. Rubro-negro desde o nascimento é, ao lado de Sergio Pugliese, autor do livro sobre o Leandro, ex-lateral do Flamengo e da seleção brasileira.

Hibizco deságua anos de estrada em álbum de estreia

Fotos: Natalia Penteado/divulgação



Do "Róque" à intensidade. Porto Alegre sempre teve uma relação visceral com as guitarras, e o trio Hibizco acaba de adicionar um capítulo robusto a essa cronologia. Chega às plataformas nesta sexta (8) o aguardado De Te Mostrar Intenso, o primeiro álbum cheio da banda formada em 2018. Com dez faixas inéditas, o registro é mais do que uma estreia: é um expurgo de vivências que transita entre o amadurecimento e o caos das relações contemporâneas.

O título, extraído de um verso da canção de abertura "Vontade Surreal", serve como uma tese para o trabalho. "Tudo foi vivido intensamente", resume o integrante Yan Dezoito. O álbum abandona a aura puramente solar do EP anterior, Hits de Estreia, para mergulhar em uma sonoridade que a própria banda apelidou carinhosamente de "róque-romance".

Curadoria

Chegar ao corte final de dez músicas não foi tarefa simples. O trio — composto hoje por Raquel Pianta, Yan Dezoito e Fran Goya — debruçou-se sobre um catálogo de quase 60 composições, acumuladas ao longo dos anos.

"Iniciamos o processo com vontade de mostrar tudo de melhor que podemos fazer, mas a temática foi se desenhando individualmente. Selecionamos essas dez num leque de quase 60, inclusive músicas que já tocávamos ao vivo e ficaram de fora para garantir a unidade", revela a vocalista e guitarrista Raquel Pianta.



Essa unidade se traduz em um rock cantado estritamente em português, que bebe de fontes diversas: da energia emo da Fresno e do Paramore, ao balanço do Skank e Lagum, sem ignorar o vigor de Pitty e o indie do Wolf Alice.

Cenário

A capital gaúcha não é apenas o berço da banda, mas uma personagem do disco. A faixa "Azul Roxo" é uma ode ao Bar Ocidente, templo da noite porto-alegrense. Não por acaso, a casa foi escolhida para o show de lançamento oficial, no dia 14 de maio (quinta-feira), com a participação da banda Projeto Hare.

As letras expandem o conceito de relacionamento. O disco pulsa desejo e saudade, com uma dose de protesto cotidiano. "Já Tava Nem Aí" é Um desabafo sobre o desgaste emocional e o trabalho mal remunerado. "Ninguém Viu" critica as interações sociais rasas.

Amadurecimento 



De Te Mostrar Intenso captura a Hibizco em um momento de metamorfose. O álbum marca a despedida do baterista original, Guilherme Boll (que gravou as faixas) e a consolidação da baixista Fran Goya.

"Vejo esse disco como a nova fase da banda, ele diz muito sobre a seriedade com que estamos levando o projeto", afirma Fran, destacando que o trabalho coletivo permitiu que cada integrante imprimisse sua identidade técnica no resultado final.

A produção técnica leva a assinatura de Edo Portugal, no Superlua Studio (Porto Alegre), e ganha camadas extras com as percussões de Julia Pianta, reforçando o tempero brasileiro que a banda faz questão de manter no seu DNA.

O álbum está disponível em todas as plataformas de streaming (via Tratore) e o show de lançamento será no dia14 de maio, quinta, no Bar Ocidente, em Porto Alegre (RS). 

Morre Luiz Carlini, a guitarra que libertou o rock brasileiro

 

Fotos: reprodução/redes sociais


O último acorde do capitão da Pompeia. O rock brasileiro perdeu, nesta quinta-feira (7), o homem que deu voz melódica às cordas de aço e transformou o gênero em uma linguagem autenticamente nacional. Luiz Carlini, ícone da guitarra, compositor e diretor musical, faleceu aos 73 anos no Hospital Metropolitano, em São Paulo. A notícia, que deixa um vácuo na história da nossa música, foi confirmada por seu filho, Roy Carlini, e posteriormente oficializada pela família, em nota, nas redes sociais.

Carlini estava em plena atividade, acompanhando a turnê "50 Anos-Luz", de Guilherme Arantes, quando foi interrompido por um quadro infeccioso em abril. Sua partida encerra um ciclo iniciado no bairro da Pompeia, o "Liverpool brasileiro", de onde ele saiu para moldar a sonoridade de uma era.

Estrelato

Nascido em 1952, Carlini não apenas assistiu à revolução; ele a calibrou. Começou como roadie dos Mutantes, observando de perto o experimentalismo de Sergio Dias. Mas foi em 1973, ao fundar a banda Tutti Frutti, que ele encontrou sua missão: ser a espinha dorsal da fase mais visceral de Rita Lee.

Ao lado da Rainha do Rock, lapidou obras-primas como Fruto Proibido (1975), considerado por muitos a certidão de nascimento do rock brasileiro moderno; Entradas e Bandeiras (1976), onde sua guitarra ditava o ritmo da liberdade pós-tropicalista.

Mais do que um instrumentista, Carlini foi o artesão por trás de hinos. É dele a assinatura composicional em clássicos como "Agora Só Falta Você" e "Que Loucura".

"Ovelha Negra"


Se o rock brasileiro tivesse um DNA sonoro, ele estaria nos minutos finais de "Ovelha Negra". O solo de guitarra mais icônico do país — e talvez o mais analisado por acadêmicos e fãs —, quase não existiu.

Reza a lenda (confirmada pelo próprio músico no documentário sobre sua vida) que Carlini sonhou com a melodia. A produção da época considerava a balada finalizada, mas Luiz insistiu. Com uma Gibson Les Paul Deluxe de 1968, comprada por acaso nas ruas do Rio de Janeiro, ele gravou o solo em um único take.

Legado

A versatilidade de Carlini o levou a colaborar com gigantes como Erasmo Carlos e a integrar o Camisa de Vênus, nos anos 90. Sua relevância foi selada em 2012, quando a Rolling Stone Brasil o elegeu um dos 30 maiores guitarristas da história do país.

Recentemente, em 2023, sua trajetória foi imortalizada no documentário "Luiz Carlini – Guitarrista de Rock". No filme, nomes como Pepeu Gomes, Frejat e Andreas Kisser prestam reverência ao homem que fez a ponte entre a psicodelia dos anos 60 e o hard rock que dominaria as décadas seguintes.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Guilherme Lamas lança 'Pilar' em homenagem às raízes e à inovação

 

Fotos: Rafael Scucuglia/divulgação

O violão como Alicerce. Instrumento de 7 cordas, alma de gêneros fundamentais da música brasileira, ele ganha novos contornos pelas mãos do músico e compositor Guilherme Lamas. Com lançamento marcado para o dia 20 de junho nas plataformas digitais, o álbum Pilar marca o quinto trabalho da carreira do artista e traz uma proposta que une o rigor acadêmico à espontaneidade popular.

Doutor em música pela Unicamp e formado pelo Conservatório de Tatuí, Lamas apresenta uma sonoridade que transita entre as cordas de náilon e as de aço — estas últimas, uma raridade na cena instrumental brasileira. O projeto conta com o patrocínio do Fundo de Investimentos Culturais de Campinas (FICC 2024).


Afeto 

O título do álbum é carregado de simbolismo. Inspirado em uma composição homônima feita para sua mãe, o nomePilar sugere a ideia de sustentação e apoio, conceito reforçado pelo mestre Paulo Bellinati. Estruturado em 11 faixas, o disco apresenta três suítes autorais inéditas — termo clássico aplicado aqui ao contexto popular — e releituras de clássicos de Tom Jobim e Toninho Horta.

A produção reflete a identidade campineira do músico, contando com a participação de sete instrumentistas, sendo cinco deles da região. O trabalho consolida o violão de 7 cordas, não apenas como acompanhamento, mas como protagonista absoluto.

"Pilar remete justamente à ideia de sustentação e apoio, que minha mãe sempre me deu", recorda-se Guilherme Lamas.

Maratona 

Antes da estreia oficial, o público poderá acompanhar uma série de eventos virtuais e presenciais. A partir de 13 de maio, Lamas inicia um ciclo de lives em seu canal no YouTube, abordando desde produção musical até arranjos para violão solo.

Agenda

23 de maio: show de pré-lançamento na Casa de Cultura Aquarela (Grátis).

03 de junho: show solo virtual, antecipando composições do álbum.

11 de junho: grande show de lançamento, no Teatro Castro Mendes, em Campinas.

Theatro Municipal de Niterói recebe homenagem à identidade feminina

Fotos: divulgação 

Mulher brasileira, em primeiro lugar. No próximo dia 16 de maio (sábado), às 17h, o palco do Theatro Municipal de Niterói será cenário de um concerto que promete transcender a música clássica tradicional. O espetáculo "As Marias do Brasil", sob a regência da maestra Waleska Araújo, propõe uma imersão sensorial nas histórias, na resiliência e na diversidade das mulheres brasileiras. 

Com direção artística de Gustavo Fernandes, a apresentação de 70 minutos é uma verdadeira expedição sonora. O repertório atravessa as cinco regiões do país, costurando as batidas das periferias cariocas, com as texturas das paisagens amazônicas. A proposta rompe as barreiras do formato erudito, ao fundir ritmos populares à música de câmara.

Segundo a maestra Waleska, o objetivo é transformar cada canção em uma janela para identidades que merecem visibilidade. É a música instrumental, servindo como tributo à força feminina que molda a cultura nacional.

 Transformação

                                        

 O concerto é realizado pela Orquestra Filarmônica Metropolitana (OFM), braço do Instituto dos Sonhos, sediado em São Gonçalo. A OFM é reconhecida pela excelência artística, ao reunir músicos de destaque da região metropolitana e serrana do Rio. Atua, também, em teatros, praças e comunidades, para formar novas plateias, com foco especial em compositores e repertórios fluminenses.

 Serviço 


O espetáculo tem classificação livre e espera atrair um público de 400 pessoas. É um convite para quem busca na arte uma forma de reflexão e conexão com as raízes brasileiras.

 Concerto "As Marias do Brasil" 

 Quando: 16 de maio (sábado), às 17h

 Onde: Theatro Municipal de Niterói

 Classificação: Livre



Fafá de Belém celebra 50 anos de carreira em estreia histórica no Circo Voador

  Foto: Aryanne Almeida Existem encontros que parecem predestinados, mesmo que tardios. No dia 5 de junho (sexta-feira), o tradicional palco...