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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Rio: Psicotaxi`s se apresenta na série "Grandes Artistas"

Novo projeto do saxofonista Marcelo Cucco (Dedos em Som), o trio Psicotaxi`s - que conta também com a voz de Maria Steinbruck e a voz e guitarra de Bárbara Monnerat - vai se apresentar, no próximo dia 28, quinta-feira, na série ''Grandes Artistas'', na Casa de Baco, na Lapa, Rio. 


Organizando saraus de poesia e música no bairro das Laranjeiras, no Rio, a banda faz releituras com arranjos próprios de temas clássicos de jazz, rock e MPB.



Imagem: Divulgação


"Estamos extremamente felizes com o convite da casa e vamos fazer jus, presentando-a com nossas canções autorais e covers" - conta Cucco.


A banda, que conta com 10 músicas autorais - a maioria da vocalista Maria Steinbruck, em parceria com o saxofonista - planeja a produção do seu álbum para 2018, junto a singles e videoclipes.

Serviço:

Dia: 28 de Setembro de 2017 (quinta-feira)
Horário: 21h (a casa abre às 20h)
Local: CASA DE BACO -  Rua da Lapa, 243 - Centro - Rio de Janeiro (próximo ao metrô Glória)
Classificação: Livre

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

CMIND Entrevista: Filipe Fela Montparnasse, vocalista e artista sonoro

Foto: Anderson Felix


Criado em 2012, o Felappi é um projeto musical iniciado pelo vocalista e artista sonoro Filipe Fela Montparnasse, o artista plástico Cláudio Tobinaga e o multiinstrumentista Victor Cumplido. Tudo começou com uma visão do Fela, que inseriu um contexto cinematográfico em sua música, tendo como principais influências o jazz e o punk. Resultado: o Felappi se insere na vanguarda apocalíptica do underground nacional. "Uma especie de dejeto pós-moderno. Algo que sua filha não escutaria... De fato, somos só um tipo de podridão do primeiro mundo" - enumera. Nesta entrevista, realizada em parceria com Tobinaga - que como o próprio Fela fez questão de frisar, ajudou-o a responder as perguntas -, o artista nos conta um pouco de sua trajetória. Confira!   

CMIND: Conte-nos um pouco mais sobre a sua formação musical...  

Fela: Eu não quero que as pessoas leiam vários livros para me entender, e que sejam graduadas em arte ou quaisquer outras disciplinas para poder entender o meu som... Música é um processo subjetivo e eu falo sobre o subúrbio. Arte sonora é sobre a elite, e essa elite não nos pertence... Tudo começou meio por causa de uma visão que eu tive. 

Foto: Facebook


CMIND: Como se formou sua parceria com Tobinaga e Victor? E como está sendo a repercussão do álbum "Cuidado Madame"?   

Fela: A Felappi basicamente foi um projeto que o Tobinaga abraçou. Ele me escutou (conheceu) através de um amigo em comum. Sua pesquisa em pintura era baseada em cinema e foi um salto natural, porque eu já pensava num contexto sonoro mais cinematográfico. Os pontos em comum, tanto quanto a motivação se encaixaram e foi um processo natural de aproximação de "disciplinas". Desde o incio, contamos com outros colaboradores e não estávamos preocupados com o que seria a Fellapi... Estávamos preocupados em tangenciar algo que pensávamos em comum. O Victor surgiu depois, em um momento em que estávamos experimentando um contexto sonoro mais analógico. Dessa "fase", posso citar outros parceiros muito importantes, como: Bruno Jacomino, Marcio Cabezas, Zozio - que, alias, foi talvez um dos primeiro colaboradores -, Rodrigo Roger, Henrique Queiroz e, lógico, o Negro Leo e a Ava Rocha, nossos padrinhos desde o primeiro single lançado na internet.

CMIND: De que forma você sente a obra e a performance de outro artista, ao ponto de "traduzi-la" em música? 

Fela: Na verdade, não sei se a palavra certa seria "sentir"... Presenciamos essa sonoridade, que de alguma forma chamamos de música - e que, sem pretensão alguma, acontece no nosso dia dia. Acho, tanto eu como o Tobinaga, que isso esta no mundo, não se trata só de escalas, harmonia, ritmo... Trata-se de estar no mundo, participar dele. Não somos "artistas"... Estamos em sintonia com nosso entorno. Desse contexto, já temos muito material para trabalhar e pensar. Nosso processo é muito cerebral e incrivelmente subjetivo.


CMIND: Como se dá a sua participação com outros DJ´s?

Fela: É para ganhar dinheiro.



Foto: Anderson Felix


CMIND: Ao ouvir, no Soundclound, "E Você II" e "Cortejo Carnavalesco" percebe-se uma forte pegada experimental/industrial; da vanguarda paulistana (Arrigo Barnabé e sua "Clara Crocodilo") e até de Tom Zé. Você definiu o seu trabalho como uma fusão entre o punk e o jazz. É um som "sujo" que se sofistica pela via experimental? 
  
Fela: Não sei se de fato é um fusion entre jazz e o punk, mas sem dúvida nenhuma são as principais influências... Gostamos muito de pensar, entre a gente, que tiramos do lixo algum tipo de pérola. Em verdade, é só um pensamento. Somos só sujos mesmo. Uma espécie de dejeto pós-moderno. Algo que sua filha não escutaria... De fato, somos só um tipo de podridão do primeiro mundo. Algo que as rádios de Barcelona querem tocar como um tipo de vanguarda vulgar do Brasil, um tipo de novidade de um mundo apocalíptico.



Com o guitarrista e multiinstrumentista Victor Cumplido. Foto: Facebook


CMIND: O que acha da cena do Rio para o seu tipo de som? 

Fela: Cara, na real, a galera do Rio saiu... Foram ganhar o mundo - o que achamos muito importante. Somos muito felizes de termos pessoas que nos acolheram diante desse cenário. Em especial, citaria o Negro Léo, a Ava Rocha, o Marcelo Calado, a galera do Zumbi do Mato, o Bernardo Oliveira, o Alan Athaide, a Tomba Records e toda a galera que nos apoia. Mas viver de música no brasil é...


CMIND: Já tocou em outras cidades do Brasil e do mundo? 

Fela: Sim, já tocamos em são paulo e fomos super bem recebidos.



Saiba mais:

Soundcloud: https://soundcloud.com/filipe-fela

Bandcamp: https://felappi.bandcamp.com/

Youtube: https://www.youtube.com/user/apagao

Facebook: https://www.facebook.com/felappiaraujo/

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

CMIND entrevista: BEL, cantora, compositora, escritora, produtora cultural e artista visual

Foto: Lucas Canavarro
Experimental, eletrônica, jazzística e popular, a música da cantora, compositora, escritora, produtora cultural e artista visual, Bel Baroni, a BEL (ex-Mohandas e integrante do Xanaxou), é o que se pode considerar como a que rompe velhos paradigmas. Isto porque - "questionando, atuando no micro" - ela vem imprimindo, na cena independente nacional, uma sonoridade diversa, que também se reflete no posicionamento político e na visão de mundo da artista. Feminista, BEL percebe a música como uma forma de mudar realidades. Nesta entrevista para o CMIND, ela fala um pouco de suas influências e expectativas para o novo disco, a ser lançado em fevereiro próximo. Confira!    
CMIND: No seu trabalho solo, em “Bem-Vindo” e em “Fica Fácil Assim”, percebe-se a sua verve criativa. Apesar da forte influência de elementos eletrônicos, não se encontra classificação em qualquer estilo musical. Quais são suas maiores influências e onde você encontra inspiração para compor seus arranjos?

BEL:
Esse álbum foi montado em dois anos; então, ao longo desse tempo, eu fui carregando algumas diferentes influências para a feitura dele. Estava escutando bastante Little Dragon, Karina Buhr, Belchior e Tame Impala. Mas sempre gostei de pesquisar música nova, bandas que não conheço. Não saberia dizer quais são as maiores influências. Elas vão mudando junto comigo. A inspiração para os arranjos está na forma como a letra bate, numa parceria bonita ou numa distração qualquer.
Fica fácil assim: https://soundcloud.com/belbaroni/ficafacilassim. Imagem: Divulgação


CMIND: No seu novo disco, o público pode esperar, também, um trabalho com as mesmas características?

BEL:
Acho que as faixas juntas estabelecem um diálogo; além de terem sido produzidas da mesma forma, num mesmo contexto - então, sim. Mas eu espero que as pessoas possam se surpreender também.

Foto: Lucas Canavarro


CMIND: Geralmente, no underground ou no mainstream, percebe-se a predileção por “líderes” de bandas mulheres que se apresentem com um “belo corpo” e um “rostinho bonito”, por supostamente “venderem mais”.  A Xanaxou é uma banda feminista que você faz parte, certo? Como você percebe o ativismo e o empoderamento feminino na música brasileira? Neste sentido, quais estilos musicais e artistas que você mais destacaria?

BEL:
A Xanaxou é uma banda formada por mulheres e isso por si só já carrega junto o conceito de "banda feminista". Se somos mulheres, compomos, performamos e tocamos instrumentos, o universo que vamos construir no palco e nas músicas é das coisas que vivemos, do contexto no qual estamos inseridas e tudo mais. O lance é que não falamos do ponto de vista do compositor e sim da compositora; não somos músicos instrumentistas e sim músicas instrumentistas - e isso já é diferente do que geralmente se apresenta. Escolhemos reforçar isso no nosso discurso, no nosso nome, na escolha do nosso repertório. O debate de gênero e o feminismo trazem potência para que projetos assim existam e para que a representatividade tenha vez.

Bem-vindo: https://soundcloud.com/belbaroni/bemvindo. Imagem: Divulgação


CMIND: Estamos vivendo um momento de avanço do pensamento conservador no Brasil. Isso está acontecendo, também, na música? Aliás, música e política são coisas que não se misturam?

BEL:
Política se mistura com tudo. Para mim, a música também. Vida é isso tudo junto. Acho que temos pensado cada vez mais sobre a forma como nos comunicamos, quebrando paradigmas, questionando, atuando no micro. Estamos assistindo o fim de muitas coisas e isso também é o início de muitas outras. Tem uma galera fazendo um som muito maravilhoso e desafiando isso tudo, principalmente nas músicas de periferia. No mais, a coisa está tão feia, que tenho me concentrado em ser sincera nas minhas ações, em respeitar as pessoas, em estar em sintonia com o que acredito.

***


Entrevista realizada pelo jornalista Saulo Andrade

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

CMIND entrevista: Servio Túlio, músico e radialista

Foto: América Cupello.


Ícone do experimentalismo e pioneiro da música eletrônica no Brasil, o músico e radialista Sérvio Túlio viveu os áureos tempos do rádio no país – bem recentes, aliás. “Lembro-me de quando houve aquele grande apagão aqui, em 2001, que tudo parou de funcionar. Estávamos na rua, num boteco, bebendo; aquela escuridão... E só conseguíamos ter notícia do que acontecia pelo rádio. Para mim, aquilo foi uma experiência apavorante e ao mesmo tempo fantástica. Parecia que eu estava num filme, que tínhamos voltado no tempo. É isso que eu sinto quando trabalho com rádio, que estou numa máquina do tempo que eu posso conduzir para onde quiser somente através do som, música, ruídos, textos, palavras. Desde criança sou fascinado por rádio”. Pesquisador voraz, ele é, também, uma referência nacional em música erudita. Nesta entrevista ao CMIND – Cena da Música Independente, o artista fala de sua trajetória. Confira!    

CMIND - Você é considerado por muitos como um dos precursores da música eletrônica no Brasil. No Saara Saara, percebe-se um misto de satírico de Kraftwerk, ópera e elementos dançantes, como o batidão do funk. Fale-nos um pouco dessa experiência inovadora...

Sérvio Túlio - É incrível quando a gente para e pensa que só agora, na segunda década do século XXI, que o conceito de “Música Eletrônica Brasileira” meio que começou a ser reconhecido e aceito. Na verdade, desde as décadas de 50 ou 60 do século passado, temos nossos pioneiros neste caminho. É claro que aí estou me referindo ao campo da “Música de Concerto”, mais comumente chamada de Música Erudita, ou Clássica. Compositores vanguardistas na época, que ainda estão aí, ativos, como Jocy de Oliveira e Jorge Antunes, por exemplo, são uns dos pioneiros nesta aventura por aqui. Nós e alguns outros grupos, de certa forma, somos precursores da safra pós rock progressivo, pós-punk, quando os sintetizadores começaram a ter mais destaque, principalmente após as experiências de bandas estrangeiras como Kraftwerk, que você citou, e produtores como Giorgio Moroder, os quais começaram a inserir mais estes recursos estéticos na música pop. Isso acarretou que, nos anos 80, muitos músicos começaram a seguir por este caminho, que também tem lá suas várias subdivisões. Algumas bandas do Rio, São Paulo, Curitiba e Brasília também percorreram esta trilha, sendo que, no Rio, a que mais se destacou, talvez, assumidamente eletrônica, foi o Saara Saara, principalmente pelo apoio da Rádio Fluminense FM de Niterói. Alguns produtores da emissora curtiram o som da banda, que acabou entrando na programação normal, despertando o interesse dos ouvintes. Eu e o Raul Rachid, que era a outra metade do Saara Saara, já nos conhecíamos desde a infância quando ainda morávamos na cidade de Bom Jesus do Itabapoana (RJ), onde nascemos, no norte-fluminense. Ambos estudamos música desde moleques e acabamos nos mudando para Niterói, a fim de continuar os estudos. E foi assim que, em meados de 1985, formamos, meio que sem querer, só por diversão, o Saara Saara, utilizando apenas um teclado Juno 106 da Rolland, um polyritmo com defeito como bateria e um gravador cassete, no qual usávamos material gravado com vinhetas de rádio, TV e mais o que desse na telha na mistura sonora toda. Queríamos um guitarrista, foi quando apareceu o Luiz Eduardo Carmo, o “Bum”, recém-chegado dos USA, que também estava a fim de montar uma banda que misturasse eletrônica. Ele trouxera na bagagem um tascam de quatro canais e uma bateria eletrônica, se não me engano, uma TR-707, sei lá, uma dessas.


Estava formado então o SAARA SAARA, cujo nome surgiu porque esse era o nome da primeira demo que gravamos, de forma que a Jacqueline Azeredo, na época locutora da Maldita, sugeriu que a banda também se chamasse assim. Na época, fazer música eletrônica não era uma coisa vista com bons olhos, principalmente entre o pessoal mais radical do rock. Diziam que, para lidar com música eletrônica não precisava saber música. E isso para nós era estranho, pois ambos tínhamos uma formação musical até super careta: aulas de piano, teoria, conservatório, escola de música, essas coisas que muitos roqueiros que falavam isso não tinham... Hahaha... Mas nunca nos importamos e até nos divertíamos com isso. O importante era criar, produzir, o prazer e a diversão, sem paranóia de tentar agradar ou fazer sucesso.


Como era um trabalho eletrônico, porém artesanal, não tínhamos computadores, sequencers, nada sofisticado. Nunca passou pela nossa cabeça tocar em shows ao vivo. Mas depois de um ano gravando várias demos, tocando na rádio e tendo uma resposta fantástica de audiência, a emissora insistiu que fizéssemos o nosso primeiro show. Esta estreia aconteceu no Teatro do Planetário da Gávea. Eu pilotava o cassete com samples e os pedais de efeito, o Raul se virava com um Juno 106 e um DX7 Yamaha emprestado, enquanto o Bum tocava guitarra e sequenciava alguns baixos em um Poly 800 da Korg. E foi assim, no susto e em pânico, mas morrendo de rir, a primeira vez que subimos num palco para tocar coisas de nossa autoria, com o teatro abarrotado de gente. No fim, tudo deu certo e o público aplaudiu, gritou muito, adorou. Foi uma festa. Depois voltamos com todo mundo bêbado, nós e o povo de Niterói que foi assistir, de ônibus 999.


Assim surgiu o Saara Saara, que de 1985 até meados de 1991, foi bastante atuante, principalmente no eixo Rio de Janeiro – São Paulo. Tocamos nos principais teatros do Rio, como a Casa de Cultura laura Alvim, Teatro Cândido Mendes, Teatro Ipanema, Teatro da UFF de Niterói, SESC de São Paulo, e em inúmeras casas noturnas como Robin Hood Pub, Teatro Mágico e, principalmente, no saudoso Crepúsculo de Cubatão. Na década de 90, surgiram outros interesses para cada um dos membros da banda, e então resolvemos não terminar, mas tirar umas férias por tempo indeterminado, para que cada um ficasse livre para fazer o que quisesse. O que não impediu que continuássemos nos encontrando para trocar ideias ou compor novas canções. Mesmo fora de circuito, com o advento da internet, a banda nunca deixou de ser assunto no meio do rock independente nacional. Demos mp3 e informações pipocavam online em sites como Fiber online, Napster, grupos de discussão, orkut, fotologs, enfim, esta coisa toda.


Passei a década de 90 me dedicando aos estudos e à música de concerto. Nesta época, eu era integrante do grupo Anonimus, que se dedicava exclusivamente ao repertório de música da renascença, e com o qual chegamos a gravar um cd pela Niterói Discos. Cantei em vários grupos do gênero, desde música medieval, barroca, árias de ópera e até canções do século XIX, do período romântico.


Foi somente em meados de 2001 que acabei sendo apresentado a alguns novos produtores de festas em casas noturnas como a Muzik, que rolava na Nautillus, no Catete, e a ainda atuante festa DDK. E foi por causa deles e do público que nos sentimos incentivados a voltar a fazer shows. Foi a segunda fase do Saara Saara, que acabou aparecendo pelas redondezas após uma década de chá sumiço, sem que fosse apagado da memória das pessoas. Dessa forma, fomos convidados pelo Leo Rivera, da Astronauta discos, para gravar nosso primeiro cd, que foi lançado na FNAC e distribuído internacionalmente pela Tratore, veiculado em rádios estrangeiras. O disco foi gravado em casa, no nosso próprio estúdio, produzido por nós mesmos e masterizado no estúdio do Kakao, aqui em Niterói (RJ). E assim continuamos apresentando alguns shows para promover o filho temporão...hahaha. Foi uma trajetória muito interessante que teve fim em agosto de 2011, quando estávamos trabalhando no repertório para o nosso segundo cd, “O Disco dos Seres Imaginários”. Um dia antes de nos apresentarmos ao vivo no aniversário do programa “Geléia Moderna”, no auditório da Rádio Roquette Pinto, o Raul se sentiu mal e veio a falecer. Foi o fim do Saara Saara.


Algumas dessas faixas que sairiam no disco novo do Saara, ganharão outra roupagem, juntas a novas outras composições que estou organizando e produzindo para o meu novo trabalho eletrônico solo, que ainda não tem data para ficar pronto, mas que será montado e gravado no Tomba Studio do Brunão Marcus, meu camarada.

Foto: Facebook.



CMIND - Na Rádio MEC, você produz os programas Café Concerto e Música de Invenção. De que forma o seu trabalho como pesquisador e radialista influencia no de cantor e compositor? 

Sérvio Túlio - Uma coisa está diretamente ligada à outra. Música e Produção Radiofônica são um binômio importante na minha formação. O mundo do rádio me instiga a pesquisar a fundo o musical; a história da arte, escrever enquanto fazer roteiros e música são maneiras de eu colocar estes conhecimentos em prática através de textos, letras, canções e melodias. Aprendo muito fazendo rádio. E ao mesmo tempo em que aprendo também posso me sustentar financeiramente como radialista, o que me deixa livre para, enquanto músico, eu poder fazer o que me dá na telha, sem me preocupar com mídia, se vai vender, agradar ou não. E isso é muito bom. Faço música por puro prazer de fazer. É claro que, se por acaso agradar e se isso também tiver um retorno financeiro, como já aconteceu algumas vezes, melhor ainda!


CMIND - No Kabarett Berlin, em parceria com o pianista Glauco Baptista, você pesquisa e interpreta o repertório popular da primeira metade do século XX. Além de canções de cabaret de filmes e revistas musicais de França e Estados Unidos, você chegou a interpretar canções que foram censuradas na Alemanha nazista? Se sim, para você, qual a importância histórica de trazer à tona estes temas, especialmente no Brasil de hoje?

Sérvio Túlio - É como dizem: “se tempos sombrios e canções de cabaret combinam, vem muito cabaret por aí...”. Na verdade, quando eu e Glauco começamos a fazer este trabalho, nosso foco principal era o que os nazistas chamavam na época de “Entartete Kunst”, traduzindo: “Arte Degenerada”. Foi aí que começamos pesquisando repertório de canções que foram proibidas pelos nazistas, cujos autores foram perseguidos, expulsos ou até mortos em campos de concentração. Autores cujas obras se destacaram na década de 20 do século passado, durante a República de Weimar, e que a partir da ascensão do nazismo, após o ano de 1933 em diante, começaram a ser caçados e suas criações, proibidas. E isso não se deu só na música. Aconteceu em todas as manifestações artísticas, nas artes plásticas, literatura, enfim, tudo o que eles julgavam inadequado, sujo e que, segundo eles, ameaçavam a integridade da família tradicional e corrompiam a nação germânica. Muitos desses artistas, além de criar, também eram judeus; outros homossexuais, ou as duas coisas. Por isso, pessoas como Marlene Dietrich, Friedrich Hollaender, Kurt Weill, Bertold Brecht e muitos outros deixaram o país. Mas o legado que eles deixaram de produções feitas durante aqueles anos é um verdadeiro tesouro.

Sérvio Túlio e Glauco Baptista. Foto: Facebook.



É engraçado falar isso, porque geralmente as pessoas ouvem o termo “Cabaré” e ficam encucadas. Como isso pode ter dado tanta confusão? A maioria pensa em cabaré como um inferninho noturno, um mero lugar para se divertir e ver mulheres nuas dançando. Existiam sim os grandes espetáculos de vaudeville que eram apresentados ao proletariado; puro entretenimento. Mas o que destacamos em nosso trabalho eram os chamados “cabarés literários”, onde se prezava mais a crítica social e política do que apenas mero entretenimento. Os artistas desses estabelecimentos confrontavam o público. Não era obrigação entreter ou agradar. Eram espécies de cronistas sócio-políticos, e muitas vezes bastante vigiados ou severamente censurados. Embora não descartasse o fato de que também era um local de entretenimento, o Cabaret era “feio”, “marginal”, ambiente de drogas, prostituição. E é exatamente a beleza inebriante desta “feiura” que fascinava e instigava outro tipo de público. Os cabaretistas destes locais específicos como o “Chat Noir”, na França, o “Überbrettl”, a segunda versão do “Schall und Rauch” e outros manifestos e estabelecimentos do gênero em Berlim ou Paris, reuniam um bando de intelectuais de todas as áreas de atuação artística, como Thomas Mann, Erik Satie, Paul Verlaine, Arnold Schoenberg, Kurt Tucholsky, Bertolt Brecht, Hanns Eisler, Billy Wilder, uma lista interminável. Na Espanha, tivemos, por exemplo, o cabaret “Os 4 Gatos”, onde Picasso fez sua primeira exposição. Só aí temos uma boa ideia do que os cabarés representavam.


E inspirados nisso, foi que eu e Glauco tivemos a ideia de formar a dupla, Kabarett Berlin, que acabou ao longo do tempo, ampliando este repertório também para o cinema, revistas musicais e até canções brasileiras antigas, que tenham sido escritas nestas mesmas épocas. Trazer este repertório para o Brasil, ou leva-lo para qualquer outro país, significa primeiramente torná-lo conhecido do público, fazer com que as pessoas reconheçam a genialidade dessas pessoas que foram tão maltratadas e perseguidas por um regime político monstruoso, cruel e injusto, e torná-las conscientes disso. Também existe um lado didático, que exercitamos muito enquanto músicos, pois falamos da época, das circunstancias em que essas coisas aconteceram em Berlim, e comparamos até mesmo com o que acontecia nas noites de nossas capitais aqui, como o Rio e São Paulo. Se pensarmos em como isto se refletiu no Brasil, precisamos pensar em certos locais ou ambientes. Não iguais, porém similares. Em termos de música e poema, penso que talvez seja melhor procurarmos por personalidades como Pixinguinha, Bastos Tigre, Noel Rosa, Assis Valente, Alvarenga e Ranchinho, Lamartine Babo, enfim, temos que trilhar por estes caminhos para que os links sejam atados.



CMIND - Músico e produtor radiofônico, você atuou como radialista e produtor das Rádios Fluminense AM, Jornal do Brasil AM e FM, e da Rádio Opus 90. Conte-nos um pouco dessas suas experiências, em rádios com perfis e propostas musicais tão diferentes... Na sua opinião, o brasileiro ainda ouve o rádio da mesma forma que o fazia em décadas anteriores?


Sérvio Túlio - Claro que o brasileiro ainda ouve rádio. De várias formas, desde a tradicional até pela internet, o que está se tornando muito comum por causa dos smartphones. O Rádio é um aparelho fascinante. Sempre seremos ouvintes de rádio, de uma forma ou de outra. Não sei se você já percebeu, em filmes ou relatos, mas quando acontece uma catástrofe, uma guerra ou qualquer coisa que o valha, o aparelho de Rádio tradicional é o único que continua funcionando. Lembro-me de quando houve aquele grande apagão aqui, em 2001, que tudo parou de funcionar. Estávamos na rua, num boteco, bebendo; aquela escuridão... E só conseguíamos ter notícia do que acontecia pelo rádio. Para mim, aquilo foi uma experiência apavorante e ao mesmo tempo fantástica. Parecia que eu estava num filme, que tínhamos voltado no tempo. É isso que eu sinto quando trabalho com rádio, que estou numa máquina do tempo que eu posso conduzir para onde quiser somente através do som, música, ruídos, textos, palavras. Desde criança sou fascinado por rádio. Como eu disse, morava no interior. Lá não tinha FM: era só AM, ondas curtas... Dessa forma, eu conseguia sintonizar emissoras do planeta inteiro. Viajava com isso. Às vezes, pegava umas rádios russas... Não entendia nada, mas ouvia porque gostava do som e da sensação que aquilo me dava. Durante esta infância, através do rádio tive contato com diversos tipos de música. E isso foi decisivo na minha formação. Inclusive meu interesse pela literatura veio também da música. Trabalhar com pesquisa de material, anos mais tarde, foi só uma extensão do que de certa forma eu já fazia na infância. O mais legal é poder compartilhar isso tudo depois. Desta forma, eu fui parar por acaso no meio radiofônico. Nos anos 80, eu estudava Belas Artes na UFRJ. Uma fase muito complicada da vida, de muita insatisfação, e no meio do nada acabei sendo convidado para fazer parte de um projeto radiofônico. Comecei então minha carreira como radialista em 1985, trabalhando no que chamávamos de NAVE. Era uma espécie de acordo entre a Rádio Fluminense AM e a universidade de comunicação da UFF. Acabei ficando como uma espécie de braço direito da coordenadora, a jornalista e escritora Esther Lúcio Bittencourt. Muito do que aprendi devo a ela. Durante nove meses fizemos todos os tipos de experiência em rádio. Inventávamos um treco diferente por dia. Experimentávamos o tempo inteiro. A Esther dava toda a liberdade para isso. Os programas aconteciam de segunda a sexta, das 7h às 10h da manhã. Estas experiências radiofônicas foram decisivas. Dali, eu soube por qual caminho seguir. Foi tão forte que o rádio acabou me trazendo de volta para o mundo da música. Tudo isso que fazíamos acabou justamente influenciando esteticamente o meu primeiro trabalho com música eletrônica, o Saara Saara. Logo depois, fui contratado como produtor na Rádio Jornal do Brasil, onde trabalhei com MPB e jazz. Em seguida, foi a vez de me dedicar às emissoras de música clássica, primeiramente a Rádio Opus 90 - e estou até hoje na Rádio MEC FM, onde entrei como produtor executivo em 1997. Fui coordenador por alguns anos e hoje permaneço ainda como produtor e programador musical. No estúdio Sinfônico da MEC, já me apresentei algumas vezes como músico em alguns programas, como o Sala de Concerto, por exemplo, onde eu e o pianista Glauco Baptista já fizemos vários recitais ao vivo.

Com Federico, amigo fiel e inseparável. Foto: Facebook.



CMIND - Como você percebe a cena musical independente na cidade onde vive, Niterói, no Rio e no Brasil? Que bandas e artistas você destacaria? Vivemos, no país, uma carência de artistas criativos ou o problema é a falta de espaço na mídia convencional - rádio e TV?


Sérvio Túlio - Olha, eu sou um cara de 52 anos muito, mas muito resmungão. Mas não sou pessimista. Não sou nada chegado à nostalgia. Gosto de ver coisas novas surgindo e, quando não consigo encontrar, fico indócil. Vejo muita merda, mas também reconheço muita gente com trabalho bacana aparecendo aí. Uns que já estavam e continuam firmes e outros que surgem no cenário com ideias refrescantes. Niterói e Rio têm um lado que não curto, extremamente careta, ranzinza, meio tradicional, com cheiro de mofo, principalmente quando se fala de rock. Infelizmente é a maioria. Mas, em compensação, tem uma outra turma que é super inquieta, que está sempre disposta a experimentar coisas diferentes, misturar tudo, e que aí é maravilhoso. E nem só de músicos profissionais. Não precisa ser aquele “músico” para fazer música boa. Isso é lenda reacinha. Estes últimos 6 anos, devido a alguns problemas de saúde, andei um pouco afastado de tudo, mas agora que tudo está bem de novo, tenho corrido atrás do prejuízo. Não gosto de citar nomes porque a gente sempre se esquece de um monte de amigos que ficam putos da vida com a gente depois, hahaha. Então, vou falar assim meio mais ou menos e dos lugares onde as coisas acontecem, como por exemplo, no estúdio do Bruno Marcus, o Tomba, a incrível Tomba Orquestra e todos os músicos que lá frequentam e gravam; todos sensacionais. Seres como Gilber T, Tata Ogan, Suzie Thompson, Suely Mesquita, Luis Capucho; a rapaziada do The Knutz; toda a turma que gravou pela Astronauta Discos, do Leonardo Rivera; as bandas que agitam as noites do Convés, a turma da eletrônica, como o grande Leandro Salgueirinho, já com o seu segundo disco aí, uma grande surpresa, Leandra Lambert e Alex Mandarino, o Felipe Castro, poxa, é muita gente, não vou ficar falando todo mundo não, desculpem!

Foto: Facebook.



CMIND - Na sua opinião, atualmente, o "grande público" dita o que é tendência, através de milhares de visualizações em plataformas como o youtube, ou há aquele "empurrãozinho" de produtores e empresários, que só entendem de cifras e não de música?

Sérvio Túlio - Não sou a pessoa mais adequada para responder a essa pergunta porque, desculpe a expressão esdrúxula, eu sempre “caguei” para o “grande público” e estou me lixando para empurrões de produtor, empresário ou seja lá quem for. Nunca contei com nada disso; ainda mais depois da chegada da internet. Eu e minha mania de tentar entender e decifrar linguagens... Assim que eu percebi as possibilidades dos softwares, enfiei na cabeça que queria aprender isso tudo. E foi o que fiz como autodidata mesmo - já que na época os cursinhos não ensinavam as coisas que eu queria saber. Desta forma, surgiram os primeiros blogs contendo algumas experiências com áudio e vídeo, incluindo transmissões de rádio via web. Estas ferramentas mudaram o conceito de comunicação no mundo. É importante para qualquer profissional hoje em dia ter noção dessas coisas, senão fica para trás, dependendo da boa vontade dos outros. E isso é um saco. E para mim, enquanto músico, é uma maravilha, já que a mídia tradicional não divulga meu trabalho por não considerá-lo vendável. Não tem problema. Faço isso eu mesmo.  Música é assim: você faz o seu trabalho, corre atrás das coisas, às vezes conta com a ajudinha de amigos, às vezes não, grava, toca por aí, bota na internet, faz o que tem que ser feito. Se gostam, maravilha, se não gostam, amém, paciência. Se te dá prazer, continua, se não, desencana e vá fazer outra coisa. Live and Let Live!


Conheça o trabalho do músico e radialista Sérvio Túlio:


Kabarett Berlin no Facebook:

Saara Saara no Deezer:


Entrevista realizada pelo jornalista Saulo Andrade.

domingo, 20 de novembro de 2016

Dedos em Som toca pela primeira vez em Friburgo (RJ)

Foto: Divulgação.


No dia 2 de dezembro (sexta-feira), a banda Dedos em Som se apresentará pela primeira vez em Nova Friburgo (RJ), no Teatro Municipal Laércio Rangel Ventura, no Centro da cidade. Antes, na próxima quinta-feira (25), o grupo participará de um pocket show no Bar América, na rua Monte Líbano 37. 

"Lá, serão vendidos ingressos promocionais paro o show de dezembro, além do primeiro cd da banda, com um desconto exclusivo" - explica o saxofonista Marcelo Cucco, ressaltando ainda que, à ocasião, o grupo se apresentará em formato de trio.

"Na semana seguinte, faremos o show com o quinteto. Raramente tocamos assim; mas esta é a formação oficial da banda. Este concerto será especial!" - celebra. 

Dedos em Som

Dedos em Som tem a musica instrumental que leva o ouvinte a experimentar sensações que vagam desde os festejos folclóricos dos povos do mundo às desconstruções contemporâneas jazzísticas. Com um vasto repertório de música autoral, inspiradas nas experiências interculturais e sensoriais, a banda ainda valoriza a improvisação livre para a consagração de cada encontro. Surgido em 2015, o grupo carioca sugere muitas ideias, viagens, inspiração e vitalidade ao mundo, com os sons que carregam dos lugares onde estão.


Dedos em som em Nova Friburgo - Serviço:

Local: Teatro Municipal Laércio Rangel Ventura: Praça do Suspiro s/ nº, Centro, Nova Friburgo.

Hora: 20h.

Página do evento no Facebook:

Mais informações: Marcelo Cucco - (21) 96887-5069. 

domingo, 9 de outubro de 2016

Dedos em Som transforma diversidade em obra de arte


Cosmopolita. Assim pode-se definir a sonoridade da banda carioca Dedos em Som. Aglutinadores, o quinteto formado por Marcelo Cucco (saxofones), Tomas Gonzaga (piano/teclado), Martina Carvalho (percussão), Hugo Noguchi (baixo) e Gabriel Barbosa (bateria) lançou seu primeiro álbum - Dedos em som: corrupção, valores e vaidades - em 2015, com músicas como Bahia Veneno, Escola do Capão e De Repente. Mesclando cúmbia, samba, jazz, outros ritmos locais e universais, improvisando, de maneira particularíssima, uma sonoridade que pode ser facilmente apreciada por um público sedento por novidades, aqui e lá fora. Um dos instrumentistas da banda, Marcelo Cucco concedeu esta entrevista à Cena da Música Independente - CMIND. Confira!  


CMIND: Cucco, você é estudante de música da UniRio. Como vê a cena da música instrumental brasileira? Há espaço para todo mundo?
Marcelo Cucco: Estudo licenciatura para me formar como professor de música. Como estudante de professorado em música e músico ativo no cenário do Rio de Janeiro e outros estados, vejo um interesse grande da nova geração em explorar sonoridades instrumentais e, pela pouca oportunidade de apresentação com boa remuneração nas casas de show, vejo que muitos amigos têm procurado tocar bastante na rua. Acredito que as apresentações na rua, somadas ao fácil acesso às músicas de várias gerações na internet, têm sido fundamentais para desencadear este tipo de interesse por novas sonoridades. A música instrumental, que é a base de todas as canções, ganha força e liberdade neste contexto contemporâneo.

CMIND: Como e quando surgiu a ideia de formar a Dedos em Som?
Marcelo Cucco: Dedos em Som surgiu quando decidi trancar alguns períodos na faculdade para conhecer na prática os valores culturais do Brasil em suas cinco regiões. O Gabriel Carneiro, baterista e um dos compositores do primeiro álbum, foi junto, com o mesmo propósito. Nos deparamos com uma diversidade incrível - natural cultural... E isso foi um baita de um convite para chegar tocando e me envolvendo com o povo e a musicalidade de cada lugar. Muito inspirado e encantado com a percepção aberta a respeito do mundo como um todo, saíram várias composições e a musicalidade transbordou. Quando voltamos para o Rio de Janeiro, a ideia era apenas gravar um álbum, chamado "Dedos em Som: Corrupção, valores e vaidades"; mas, como aquela musicalidade estava tão contagiante, nós, músicos, pegamos a estrada e apresentamos, juntos, o som em várias cidades do Rio, Minas e Goiás. Assim, resolvemos virar uma banda mantendo a essência das vivências práticas e inspiração na multiculturalidade do mundo.

CMIND: Onde foram as primeiras turnês e como foi a receptividade do público?
Marcelo Cucco: A primeira turnê deu início assim que acabamos de gravar o primeiro álbum. Tocamos em Belo Horizonte, Diamantina, Milho Verde, Ouro Preto, Brasília e mais um monte de cidades que víamos na estrada, simplesmente pela curiosidade de conhecer os moradores e a reação do público com o nosso som. A reação que as pessoas têm, por incrível que pareça, é a mesma que temos quando estamos tocando. Elas dançam, se deixam levar, se surpreendem a cada instante. Ficam viajando em seus interiores, sentem a textura e a emoção de cada composição. Eu, pessoalmente, ao tocar com os Dedos em Som, me sinto contemplando a vida com seus mistérios e me permito ser levado, intuitivamente, como se estivéssemos sendo auxiliados por forças divinas emitindo cura para a alma e em conexão com a natureza.

CMIND: Atualmente, com a multiplicidade de pessoas produzindo conteúdo cultural, em tempo real - e por todos os lados -, as plataformas digitais vêm de fato colaborando na divulgação do trabalho de vocês? Como vencer a barreira da invisibilidade?  

Marcelo Cucco: Essa é a grande novidade da nossa geração. Nas nossas redes sociais, compartilhamos desde as vivências multiculturais na estrada, lançamento de novos trabalhos e shows. O mercado nunca esteve tão condicionado à economia e ao empreendedorismo quanto hoje, e isso por um lado torna a relação profissional mais fluida e natural. Por exemplo, amigos meus do Equador, Argentina e pessoas de outros continentes que assistiram um show nosso podem continuar nos acompanhando apenas pelo Facebook. Posso dizer que as plataformas digitais, a princípio, vêm ajudando o projeto a manter a sua essência espontânea, livre e em contato com pessoas de diversas localidades. Essas características têm uma importância fundamental no desenvolvimento estético na música dos Dedos em Som.

CMIND: No Brasil, ao tocar nas ruas de nossas cidades, vocês se deparam com muita repressão por parte do poder público?
Marcelo Cucco: Olha, na maioria das cidades não. Pelo contrário: as pessoas e as autoridades policiais se encantam. No Brasil, por exemplo, vale lembrar que existem poucas cidades grandes. Acho que esses conflitos se dão mais por conta de violência urbana. Pessoas que se estressam facilmente com qualquer coisa, que já desistiram de sobreviver em harmonia com as diferenças. É claro que precisamos respeitar locais onde seja exigido silêncio ou um fluxo livre. A intenção de tocar na rua nunca é de causar desordem e conflitos, mas proporcionar interatividade a aglomerar públicos voluntários para um entretenimento cultural. Na maioria das cidades pelas quais passei no Brasil e em outros países a receptividade foi ótima. As mídias e jornalistas locais, que geralmente recebem notificação da população para que não deixem de registrar novas expressões artísticas de graça, na rua, são acessíveis a todos. Além de ser um prazer, as pessoas se interessam mais em comprar CD ouvindo a banda tocando na rua do que na Internet. É muito carinho e afeto - levar alegria para a rua é uma satisfação incomparável!

CMIND: O que tem a dizer para as novas gerações de músicos brasileiros que pretendem se profissionalizar como artistas, num ambiente tão difícil, de muita luta por espaço e sobrevivência?
Marcelo Cucco: Ninguém nunca me disse "seja músico". Eu segui os primeiros anos da vida e algo mais forte do que minha consciência foi me levando para esse caminho da arte. As artes me fizeram ver que as pessoas são diferentes e que a diferença entre elas pode virar uma grande obra de arte. Quase depois de 10 anos como músico profissional resolvi fazer faculdade de música. Lá, aprendo muito e ganho bases para me inserir em diversas áreas do mercado. Ou seja, independendo das escolhas, sempre temos muito o que aprender e assim nos fortalecer no caminho.

O trabalho de Dedos em Som pode ser encontrado em http://www.dedosemsom.com/ e também no Facebook, Twitter, YouTube e no SoundCloud.


Texto: Saulo Andrade, jornalista.

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