segunda-feira, 6 de julho de 2026

Gigantes do indie sul-americano voltam a SP

Foto: divulgação

Os reis do indie rock sul-americano estão de volta. A banda argentina Él Mató a un Policía Motorizado desembarca em São Paulo no dia 11 de outubro, para um show intimista no Cine Joia, palco que já mantém uma relação de longa data com o público paulistano.

O quinteto de La Plata vive um dos momentos mais grandiosos de suas duas décadas de estrada. Após arrastar multidões em arenas pela Argentina e rodar o mundo em 2024, o grupo colhe os frutos de Súper Terror (2023), trabalho vencedor do Prêmio Gardel de Melhor Álbum de Rock. O disco, gravado no Texas, expandiu a sonoridade da banda com sintetizadores oitentistas, sem perder a essência: as guitarras hipnóticas, a melancolia e os refrões feitos para cantar de olhos fechados.

Garantindo seu posto como peça central do rock alternativo latino, o Él Mató foi a única banda da América Latina a participar do recente tributo global ao Talking Heads (2025), dividindo o catálogo com nomes como Paramore e Lorde.

Serviço

Data: 11 de outubro de 2026

Local: Cine Joia (Praça Carlos Gomes, 82, Liberdade – São Paulo/SP)

Ingressos: Disponíveis na plataforma Fastix

A Amazônia pop de Liah Soares e Dona Onete

Foto: Maria Clara/divulgação

O jambu que treme e o açaí com chuva ganharam uma nova trilha sonora. A cantora paraense Liah Soares uniu forças com a icônica Dona Onete, a rainha do carimbó chamegado, para o lançamento do videoclipe de “Paraense”. A faixa é o grande destaque do novo EP da artista, Amazônia Beats – Ritmos Tropicais da Floresta.

Mais do que um simples encontro musical, a parceria é uma celebração de gerações que exalta a ancestralidade e a força da mulher nortista. Com produção musical assinada por Dedê Borges, a canção costura memórias afetivas do cotidiano local com uma roupagem estética pop e contemporânea.

“Isso aqui é nosso. Essa música tem cheiro, sabor e verdade”, define Dona Onete sobre a faixa.

Para Liah, dividir o microfone com a veterana representa uma honra que reforça suas próprias raízes, conectando de forma sensível a tradição e as novas sonoridades do Pará para o mundo. A música aposta em cores vibrantes e no gingado característico das feiras e mercados do Norte.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

A herança viva de Belchior

Foto: divulgação

A obra de Belchior sempre foi marcada pelo desconforto e pela urgência, características que a mantêm viva e atual. É a partir dessa provocação que a cantora cearense Vannick Belchior lança “Carisma”, música que marca uma nova e madura fase em sua carreira. O lançamento chega acompanhado de um manifesto em vídeo, disponível no YouTube.


Atuando como guardiã do acervo paterno, Vannick escolheu uma faixa considerada "lado B" do catálogo de seu pai para esta virada de chave. Originalmente concebida como um baião, “Carisma” ganhou contornos contemporâneos que transitam pelo forró e incorporam o pífano, homenageando referências como Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Tom Zé. O objetivo central é combater o preconceito geográfico e reafirmar a identidade nordestina na prateleira principal da cultura brasileira.

Visualmente, o clipe mergulha na tradição folclórica dos reisados cearenses. Gravado no Centro Cultural Dragão do Mar em parceria com o Reisado de Santa Luzia, de Fortaleza, o registro conta com a presença do filho do Mestre João. A participação da criança amarra o conceito de transmissão de saberes entre gerações, espelhando a própria trajetória de Vannick, que estreou nos palcos aos 24 anos — exatamente a mesma idade em que seu pai iniciou sua jornada na música.

Nascida em Fortaleza, a intérprete já circulou o país com projetos dedicados ao legado do pai e comandou grandes blocos de Carnaval. Após o lançamento do manifesto visual de "Carisma", a artista agora se prepara para lançar um álbum completo com este mergulho conceitual no segundo semestre.

Voz da floresta ocupa o Rio

Foto: divulgação

A ancestralidade amazônica vai ecoar com força nos palcos fluminenses ao longo deste mês. A cantora e compositora Djuena Tikuna traz ao estado do Rio de Janeiro o espetáculo Torü Wiyaegü (“Nossos Cantos”), uma imersão profunda na cosmologia e nas tradições do povo Tikuna através da música contemporânea. Totalmente viabilizada pelo edital Sesc Pulsar, a turnê marca a circulação de uma das vozes mais potentes e pioneiras do cenário indígena global.

Nascida na Terra Indígena Tukuna Umariaçu, no Alto Solimões, Djuena carrega uma trajetória de marcos históricos. Ela foi a primeira artista indígena a protagonizar um espetáculo musical no centenário Teatro Amazonas — feito que lhe rendeu indicação ao Indigenous Music Awards, no Canadá. Internacionalmente, já cantou com a orquestra do renomado Massachusetts Institute of Technology (MIT) e, no cenário nacional, marcou presença na trilha sonora de produções da Rede Globo, além de ter interpretado o hino nacional em sua língua materna, na abertura dos Jogos Olímpicos do Rio.

Para além dos palcos, Djuena também é jornalista, documentarista e ativista, somando forças com grandes nomes da MPB como Gilberto Gil e Maria Bethânia em campanhas de demarcação de terras. O novo show é baseado em seu terceiro álbum, premiado pelo edital Natura Musical, e busca consolidar a cultura dos povos originários nos principais centros urbanos do país.

A turnê começa hoje, em Niterói, e passará por Copacabana, São Gonçalo e Tijuca. Confira a programação completa:

03/07: Niterói (hoje, às 18h)

Local: Sesc Niterói 

Endereço: Rua Padre Anchieta, 56, São Domingos, Niterói - RJ

07/07: Copacabana (19h)

Local: Sesc Copacabana

Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160 - Copacabana, Rio de Janeiro - RJ

10/07: São Gonçalo (19h)

Local: Sesc São Gonçalo

Endereço: Avenida Presidente Kennedy, 755 - Centro, São Gonçalo - RJ

28/07: Tijuca (19h)

Local: Sesc Tijuca

Endereço: Rua Barão de Mesquita, 539 - Tijuca, Rio de Janeiro - RJ

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Pós-punk russo, Ploho anuncia turnê por seis cidades em novembro

 

Foto: divulgação 

A frieza da Sibéria conquista o Brasil. Após uma estreia tímida em 2024, com show único na capital paulista, a banda Ploho confirmou seu retorno ao país em novembro de 2026, para uma turnê expandida. O trio siberiano passará por seis capitais: São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Belém, como parte de seu giro pela América Latina.

Apresentada pela GOS Concerts, em parceria com a Xaninho Discos, a turnê consolida a forte relação do grupo com o público sul-americano, fisgado pelo revival do darkwave e do pós-punk do Leste Europeu.

Identidade

Formada em 2013 na gelada Novosibirsk, longe do eixo cultural Moscou–São Petersburgo, a Ploho (que significa "ruim" ou "mal" em russo) transformou a geografia local em assinatura sonora. O som é caracterizado por guitarras frias e cortantes; linhas de baixo em primeiro plano; sintetizadores econômicos e letras em russo que abordam o desencanto e o isolamento urbano.

Embora frequentemente associada a fenômenos do streaming como Molchat Doma, a Ploho carrega uma bagagem mais tradicional, bebendo direto do rock soviético dos anos 1980 e de bandas lendárias como Kino.

"A vida em Novosibirsk carregava uma depressão própria", ressaltou Viktor Uzhakov, vocalista da banda, em entrevista ao The Moscow Times.

Após a invasão russa à Ucrânia, os músicos deixaram o país natal e passaram a operar no exílio. O deslocamento geopolítico amadureceu a temática do grupo. Seu álbum mais recente, Почва ("Solo", 2024), e os lançamentos de 2026, como o registro Dobrolet Sessions, deixam a nostalgia de lado para focar em tensões sociais urgentes, anticapitalismo e sobrevivência emocional.

Agenda de Shows | Ploho no Brasil (Novembro/2026)

Os ingressos já estão disponíveis na plataforma 101tickets (com exceção de São Paulo, via Sympla):

02/11 (Segunda-feira) – São Paulo (SP): Madame Underground Club

04/11 (Quarta-feira) – Curitiba (PR): Basement Cultural

05/11 (Quinta-feira) – Florianópolis (SC): Desgosto

06/11 (Sexta-feira) – Porto Alegre (RS): Ocidente

07/11 (Sábado) – Rio de Janeiro (RJ): Teatro Odisséia

08/11 (Domingo) – Belém (PA): Studio Pub

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Curso propõe mergulho no pensamento criativo dos grandes compositores

Foto: Rafael Duarte/divulgação

Além do som. Diante de uma orquestra sinfônica, o impacto inicial costuma ser sensorial: o brilho dos metais, a onda sonora das cordas, a imponência dos timbales. Mas o que acontece quando decidimos ultrapassar a barreira da mera apreciação e passamos a, de fato, compreender o que está sendo dito pelos instrumentos?

É essa a provocação que o maestro Ricardo Rocha faz em seu curso Formas Musicais, que desembarca na Escola de Música Villa-Lobos no próximo dia 18 de julho. Longe de ser apenas um guia acadêmico para iniciados, a iniciativa é um convite aberto para criar o que o regente chama de "escuta inteligente" — uma ponte direta entre a mente do ouvinte e o pensamento criativo de gênios como Bach, Beethoven e Stravinsky.

Mapa da mina

O grande diferencial do curso está na quebra de barreiras. Em uma abordagem desenvolvida ao longo de mais de três décadas de carreira, o maestro — que em 2026 celebra 40 anos de uma trajetória marcante à frente da Cia. Bachiana Brasileira — propõe um método prático de escuta estrutural. A ideia é ensinar o público a decodificar os padrões ocultos na música de concerto.


“É um método capaz de oferecer um caminho para uma audição inteligente das grandes obras orquestrais em seus principais formatos, como suítes, aberturas, sinfonias, concertos solistas e poemas sinfônicos”, explica o maestro.

Ao longo de oito aulas, os participantes serão expostos a 20 obras-primas que definiram os rumos da música ocidental entre os séculos XVIII e XX. O foco não é decorar datas ou detalhes biográficos exaustivos, mas sim aprender a reconhecer os "eventos musicais" — o diálogo entre os instrumentos, o retorno de um tema marcante, a tensão que precede o clímax — transformando o caos sonoro em uma narrativa clara.

Formação de ouvintes

A iniciativa foca na formação de novas plateias, mas não se restringe aos leigos. O formato atrai desde o ouvinte curioso que quer perder o "medo" da música clássica até estudantes, professores e profissionais de outras áreas artísticas, que buscam expandir seu repertório estético.

A promessa de Ricardo Rocha para quem encarar os encontros matinais de sábado é simples, mas profunda: o desenvolvimento de uma audição completamente diferente, onde cada concerto deixa de ser apenas um fundo musical bonito e passa a ser uma experiência de descoberta e fruição estética.

Serviço:


Curso: FORMAS MUSICAIS

Palestrante: Maestro Ricardo Rocha

Período: sábados, de 18 de julho a 5 de setembro

Horário: de10h as 13h

Local: Escola de Música Villa-Lobos

Endereço: Rua Ramalho Ortigão, nº 9 – Centro – Rio de Janeiro

(perto da estação de metrô Carioca)

Informações (Leia Brasil): 21- 98133-7880

Telefone Geral: 21 – 2505-9701

Realização: Espaço Leia Brasil

Investimento para o curso completo: 3x R$200 - total: 8 aulas

OBS: é possível fazer aulas avulsas: R$90


sábado, 27 de junho de 2026

Além da Poeira: o novo manifesto de Celso Madruga

Foto: divulgação 

No próximo dia 9 de julho (quinta-feira), o compositor e vocalista Celso Madruga lança seu terceiro álbum autoral, Além da Poeira, em todas as plataformas digitais.

Composto por seis faixas inéditas, o trabalho equilibra composições próprias, parcerias inéditas e participações especiais.

Para o projeto, Madruga apostou em uma identidade que define como "mais pesada e rádio rock". Suas grandes inspirações vêm da era de ouro das guitarras dos anos 70 e do Rock Brasil dos anos 80, trazendo influências diretas de gigantes como Led Zeppelin, Deep Purple e Iron Maiden.

Fazer esse som no Brasil de 2026, segundo o artista, é um ato de pura paixão e resistência. "É para quem gosta, né? É independente", ressalta. 

Mensagem segue atual

Questionado sobre o impacto da atitude do rock and roll na atualidade, Celso defende que a poesia contestatória é atemporal. "A mensagem vai servir para hoje, para ontem, para amanhã. Se for uma mensagem bem dada, como as de Raul Seixas, Cazuza e Renato Russo, ela continua. As gerações mudam e absorvem o que foi falado", compara. 


Além do lançamento digital, o artista planeja apresentar as novas canções ao vivo, em breve, incluindo um pocket show no já tradicional Sarau do Raulzito, do professor e guitarrista de Niterói (RJ), Raul Menezes.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Los Bodegueros unem Rio e Havana em álbum de estreia

Foto: Daniela Morais (divulgação)

A distância geográfica entre o Rio de Janeiro e Havana acaba de encurtar em dez faixas. O grupo Los Bodegueros lança seu álbum de estreia, Rio Habana, um projeto ambicioso que costura a malandragem do samba brasileiro à cadência histórica de ritmos cubanos como o bolero, o chá-chá-chá e o son.

Idealizado por Guilherme Barbosa e com direção musical do pianista Fernando Leitzke, o disco foi gravado em estúdios nas duas capitais e funciona como uma verdadeira ponte aérea cultural. O trabalho não se limita à fusão rítmica; ele reverencia a ancestralidade. Um dos grandes destaques é a faixa que homenageia Dona Ivone Lara.

Interpretada por Simone Lial, a canção desenha um legítimo son cubano cantado em português, imaginando a rainha do samba, caminhando pelas ruas de Havana.

Para dar vida a essa simbiose, o projeto reuniu um time de instrumentistas de peso. A base brasileira — que conta com nomes como Gutto Wirtti e Marcus Thadeu — ganha o tempero internacional dos colombianos Vitico Percussa e José Valencia, e do argentino Agustín Ríos. A legitimidade caribenha nos vocais fica por conta dos cubanos David Campos, veterano com mais de quatro décadas de estrada, e Daybel Rodriguez, conhecido barítono do icônico bar La Bodeguita del Medio.

O álbum traz ainda participações de gala da consagrada Áurea Martins e do mestre da percussão Armando Marçal na faixa “Abolerou”, um bolero contemporâneo com forte inspiração na leveza de João Donato.

Lançado pelo selo Cantores del Mundo — conhecido por amplificar conexões globais e latino-americanas, Rio Habana já está disponível nas principais plataformas digitais.

terça-feira, 23 de junho de 2026

SAMUCAPTA lança álbum solo que une psicodelia e misticismo nordestino

 

Foto: divulgação 

O músico, compositor e produtor piauiense Samuel Brandão acaba de lançar seu primeiro álbum solo sob o nome artístico SAMUCAPTA. 

O trabalho homônimo, composto por 12 faixas amadurecidas desde o período pós-pandemia, já está disponível nas plataformas de streaming e propõe uma viagem por um Nordeste musical diverso, místico e avesso a rótulos.

Natural de Teresina (PI) e com bagagem pelas bandas Captamata e Fabulah, o artista une a identidade regional a influências globais e atemporais. No disco, a tradição da viola caipira, da sanfona e das bandas de pífano se funde de forma orgânica ao rock clássico, folk, música celta, MPB e à psicodelia setentista. Há ainda referências nítidas ao som de grandes ícones mundiais e nacionais, como Beatles, Pink Floyd, Jethro Tull e Zé Ramalho.

Apesar de ser um projeto solo e independente, SAMUCAPTA se cercou de parcerias para a construção da obra. O álbum traz composições e arranjos divididos com nomes de peso da cena local e antigos parceiros de estrada, como Gabriel Medeiros, Esaú Barros, Joe Ferry, Vitor Lira e a banda Ultrópico Solar (com quem divide os vocais no single "Tell Me Now").


A riqueza do álbum se reflete na variedade de texturas sonoras: faixas como “A Volta de Pã” abrem o disco com uma atmosfera celta e flautas tocadas pelo próprio Samuel, enquanto canções como “Lunático” e “Sopro” resgatam o peso da psicodelia nordestina.

O encerramento com “Barra da Lagoa” e “Gorjeio” consolida o manifesto do projeto: provar que a música feita no Nordeste é rica demais para ser categorizada.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Palco Astronauta ocupa a Zona Norte de Niterói

Show de Marcos Hasselmann. Foto: reprodução/Instagram 

Com entrada franca, evento une o produtor Leo Rivera e pocket shows de Sudano e Marcos Hasselmann, no Centro Cultural Cauby Peixoto

Bastidores do som. A música independente de Niterói ganha destaque, no Centro Cultural Cauby Peixoto, no Fonseca, no próximo dia 11 de julho (sábado). O projeto "Palco Astronauta – Especial" promove um mergulho gratuito na história e nos desafios do mercado fonográfico, reunindo debate, aprendizado e música ao vivo.

Centro Cauby Peixoto. Foto: divulgação/Prefeitura de Niterói 

O ponto alto da programação é a palestra “Artistas, ego e indústria da música nos últimos 30 anos”, comandada pelo jornalista e produtor Leo Rivera, fundador do selo Astronauta Discos. O encontro — que terá a participação de Yuri Chamusca e do cantor Sudano — vai abordar a transição do vinil às plataformas digitais, gestão de carreira e a realidade dos selos independentes. Por ser um evento imersivo e sem transmissão online, os minutos finais serão abertos às perguntas do público.

Leo Rivera. Foto: reprodução/Instagram 

Som no palco

Após o debate, a noite encerra com apresentações ao vivo. O line-up traz a identidade queer e o rock alternativo de Sudano, seguido pela versatilidade e a voz marcante de Marcos Hasselmann, que passeia pelo jazz e pela MPB.

Marcos Hasselmann. Foto: reprodução/Instagram 

Programe-se

O quê: Palco Astronauta Especial (Palestra + Shows)

Quando: sábado, 11 de julho, a partir das 20h

Onde: Centro Cultural Cauby Peixoto (Alameda São Boaventura, 263 – Fonseca, Niterói)

Quanto: grátis (sujeito à lotação)

terça-feira, 16 de junho de 2026

Espetáculo gratuito resgata legado de Dalva de Oliveira

Foto: João Caldas/divulgação

Memórias de Renato Borghi cruzam o caminho da artista nos palcos

Um sensível resgate histórico e passional da cultura brasileira. O espetáculo "Minha Estrela Dalva", idealizado e escrito pelo renomado ator e dramaturgo Renato Borghi, estreia nesta quinta-feira (18), no Teatro do SESI-SP, na Avenida Paulista, costurando memórias de infância. 

O musical faz uma profunda reverência à trajetória de Dalva de Oliveira, uma das maiores e mais arrebatadoras vozes do cancioneiro nacional.

​A semente da produção germinou quando Borghi tinha apenas seis anos de idade e foi impactado pela voz de Dalva, na trilha sonora da animação Branca de Neve. O encanto inicial na vitrola de infância converteu-se em um amor incondicional, que atravessou décadas, palcos e revoluções estéticas. Agora, esse elo afetivo ganha corpo e voz, sob a direção refinada de Elias Andreato.

​A montagem propõe uma engenhosa dinâmica cênica, na qual o ator divide o palco com sua própria juventude, interpretada por Elcio Nogueira Seixas, que dá vida ao Renato de 1969 — um jovem artista imerso na efervescência da contracultura e na rebeldia do Teatro Oficina, descobrindo em Dalva a alma profunda do Brasil. 

A icônica "Rainha do Rádio" é encarnada por Soraya Ravenle, que curiosamente iniciou sua carreira no coro de um musical sobre Dalva, em 1987, e hoje retorna para ocupar o centro do palco, traduzindo com potência vocal e sensibilidade a dor e o pioneirismo de uma mulher que desafiou os moralismos de sua época.
​"Ver Renato se confrontar com sua própria história em cena é testemunhar um dos gestos mais íntimos e corajosos do teatro", destaca o diretor Elias Andreato sobre a simbiose poética da obra.

​Completando o triângulo central da narrativa, o ator Ivan Vellame empresta sua voz para interpretar os amores de Dalva, com especial destaque para o compositor Herivelto Martins. A costura musical reaviva sambas imortais e coloca em evidência os conflitos artísticos e midiáticos que ditaram a era de ouro do rádio.  

 Além de celebrar os grandes ícones da arte nacional, o espetáculo joga luz sobre o papel histórico de Dalva como uma mulher senhora de si, em um momento em que o feminismo começava a se consolidar como movimento social.

SERVIÇO

Minha Estrela Dalva”

Centro Cultural Fiesp | Teatro do SESI-SP – Avenida Paulista, 1313 (em frente à estação Trianon-Masp)

Temporada: até 12/07
Sessões: Quinta a sábado, às 20h, e domingo, às 19h
Classificação etária: 14 anos
Duração: 90 minutos
Acessibilidade sempre aos sábados e domingos, com intérprete de Libras e audiodescrição.

Ingressos gratuitos. Reservas pelo site http://www.sesisp.org.br/eventos


sábado, 6 de junho de 2026

Projeto da Mullet Monster Mafia, Grotta lança álbum em tempo recorde

Fotos: Jean Novaes (divulgação)

Nascida de encontros informais e gravada logo após o Psycho Carnival, banda de Piracicaba lança "Tomorrow Comes Today" no streaming e planeja turnê europeia.

A cena do rock underground ganha um reforço de peso com o lançamento oficial de "Tomorrow Comes Today", o álbum de estreia da banda Grotta. Natural de Piracicaba (SP), o power trio surge como um projeto derivado da aclamada The Mullet Monster Mafia — atual referência global no surf punk —, mas com uma proposta sonora inteiramente voltada às vertentes mais cruas e velozes do underground.

O trabalho reúne oito faixas enxutas que resgatam a essência do skate punk, hardcore, crossover e thrashcore. De acordo com o baterista Neri, a concepção do grupo ocorreu de forma totalmente espontânea no início de 2026, durante uma audição despretensiosa de discos clássicos de bandas como Gang Green, Agent Orange e Bad Brains, na casa do guitarrista e vocalista Verme. O impulso criativo foi imediato: Verme pegou o violão, Netão assumiu o baixo para estruturar as primeiras bases e Neri ditou o ritmo improvisando batidas na mesa.

Urgência 


O que começou como um registro informal rapidamente tomou proporções de um álbum completo. Após ouvirem as primeiras maquetes gravadas de forma caseira no celular, durante o festival Psycho Carnival, em Curitiba, os integrantes perceberam o potencial do repertório. Sem perder tempo, entraram em contato com o produtor Rodrigo "Bigga" Binatto, do Soul de Pira Studios (Piracicaba), e aproveitaram dois dias livres na agenda para imortalizar as canções.

"Quando acabou o Psycho Carnival, a gente foi para o estúdio e gravou o disco. Metemos as oito músicas, desenvolvemos uns arranjos básicos ali e gravamos tudo rapidamente", afirma Neri.

A gravação preservou fielmente a urgência e o espírito old school do projeto. Com arranjos simples costurados no próprio calor da sessão, o som destaca a guitarra e o vocal rústicos de Verme, as linhas marcantes de baixo e voz de Netão, e a precisão de Neri na bateria e nos backing vocals.

Crítica social

Aceleradas e sem rodeios, as músicas servem de base para letras que fogem de narrativas longas para apostar em frases diretas e refrões de forte impacto. O conteúdo lírico reflete o cotidiano, abordando temas densos como a tensão urbana, o desgaste político, os ruídos sociais, a incerteza, o medo e a resistência diária perante a passagem do tempo — temáticas intrínsecas à tradição contestadora do punk.

Além de já estar disponível nas plataformas digitais e na página oficial do Bandcamp, Tomorrow Comes Today ganhará uma edição física especial em vinil de 12 polegadas. O lançamento analógico é fruto de um esforço conjunto via consórcio independente, operado por cinco selos especializados: Trashout Records (Alemanha), Orleone Records (Europa), Redlightz Records (Curitiba), Tupunk Records (Marília) e Under Shows (São Paulo).

 Próximos passos

Com o disco na rua, a Grotta já planeja a sua transição para os shows. Segundo o cronograma da banda, o mês de agosto reserva as primeiras atividades ao vivo em solo nacional. O período coincide com a vinda de Neri ao Brasil para a produção do Lucky Friends Rodeo, festival de cultura custom que acontece nos dias 5 e 6 de setembro, em Sorocaba.

Logo na sequência, em novembro, os horizontes da banda se expandem com uma mini-turnê promocional já prevista na Europa, consolidando o alcance internacional do trio.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

YAGÔ abre ala do álbum "Menestrel" com o single "Nádegas"

 

Foto: Larissa Cristina (divulgação)

Da Jamaica brasileira ao pop futurista, o cantor e compositor YAGÔ inicia o capítulo mais ambicioso de sua carreira: já está nas plataformas digitais o single “Nádegas”, faixa de abertura que serve como cartão de visitas para o seu próximo álbum de estúdio, batizado de Menestrel.

Produzida por Anselmo dos Reis, a nova música não é apenas um lançamento isolado. Trata-se de uma reinvenção estética. YAGÔ funde a espinha dorsal do dub roots tradicional com texturas eletrônicas e uma roupagem pop contemporânea, bebendo diretamente da fonte territorial de São Luís do Maranhão, a terra natal do artista, cuja identidade foi forjada no balanço das radiolas e na cultura do reggae. O resultado é um som essencialmente tropical e orgânico, desenhado tanto para a contemplação quanto para o clássico dançar "colado", que define as pistas maranhenses.

Volúpia musical

Longe de clichês, “Nádegas” utiliza a atmosfera relaxante do reggae para construir uma narrativa sensorial sobre o cotidiano, o afeto e a liberdade dos corpos. Sob as lentes da direção de arte que acompanha a atual era do artista, o projeto exala um clima naturalista e sensual.



De acordo com o cantor, o álbum Menestrel foi desenhado para expandir as fronteiras da música preta sob uma ótica intimista e espiritual, profundamente conectada às vivências em São Luís. Em 2026, YAGÔ defende o reggae não como um artefato intocável do passado, mas como uma cultura viva, fluida e totalmente integrada ao pop alternativo nacional.

Maturidade

Embora o nome YAGÔ surja com o frescor de uma novidade de mercado, o artista é uma figura carimbada e respeitada na engrenagem da cena independente nordestina. Na década de 2010, ele circulava sob a alcunha de Yhago Sebaz, período no qual colocou na rua os elogiados discos #NegoBeats (2014) e Meio Amargo (2019).

A transição para a nova identidade artística reflete sua maturidade de estúdio e de palco. Agora, com mais bagagem, o cantor amarra corpo, som e imagem em uma narrativa contínua e sem arestas.

O single já pode ser ouvido em todos os serviços de streaming de áudio.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Hino doloroso de Amy Winehouse volta a explodir no streaming

 

Foto: reprodução/redes sociais

Mais de uma década após a partida de Amy Winehouse, a dolorosa e magnética “Back to Black” garantiu o retorno da cantora britânica ao Hot 100 da Billboard Brasil, alcançando a 44ª posição. Além de provar que o luto poético da artista é atemporal, o feito coincide com o sucesso da faixa no streaming — caminha a passos largos para bater a marca histórica de 1 bilhão de reproduções no Spotify — e com o interesse renovado pela cinebiografia homônima, que reconta os passos da estrela britânica.

Mais do que o maior hit de sua carreira, a faixa-título do segundo e último álbum de estúdio de Amy é uma radiografia sem filtros de sua alma. A composição nasceu do primeiro e abrupto término com Blake Fielder-Civil, em 2005. Na época, Blake colocou um ponto final na relação por meio de uma mensagem de texto enquanto viajava, optando por reatar com uma ex-namorada. Enquanto ele seguia em frente, Amy mergulhava na escuridão — um contraste doloroso impresso nos versos onde ela canta sobre ser deixada para trás, presa às próprias sombras.

O impacto daquela rejeição foi o estopim para o agravamento da depressão da artista e de sua relação destrutiva com o álcool. No clássico videoclipe da canção, filmado em preto e branco, Amy encena o funeral do próprio coração, uma metáfora visual perfeita para o que vivia fora dos palcos.


O relacionamento com Blake, marcado por idas e vindas, culminou em um casamento em 2007 e no divórcio em 2009. Anos mais tarde, o próprio Blake admitiria publicamente ter apresentado a heroína à cantora, solidificando a tragédia que uniu amor, vício e genialidade artística. O retorno da música às paradas em 2026 apenas reitera que a dor transformada em arte por Amy Winehouse continua a ecoar com a mesma força do primeiro dia.

Com informações da Billboard Brasil

terça-feira, 2 de junho de 2026

Quinteto de metais BrassUka desmistifica música de concerto

 

Foto: ISPAC/Divulgação

Aquela velha ideia de que a música de concerto é um universo rígido, silencioso e distante do grande público ganha um contraponto vibrante em Diadema (SP). No dia 20 de junho, sábado, às 20h, o Teatro Clara Nunes recebe o show “A Elegância dos Metais”, comandado pelo aclamado quinteto BrassUka. A apresentação faz parte da temporada 2026 do projeto Concertos Campestres, iniciativa que vem convertendo as noites da cidade do ABC paulista em sinônimos de democratização cultural.

Sob a direção artística do maestro Daniel Cornejo e realizado pelo ISPAC (Instituto São Paulo de Arte e Cultura), o projeto segue sua missão mensal: descer a música erudita do pedestal e misturá-la às raízes brasileiras de forma gratuita.

Dinamismo

Muitas vezes associados a um som puramente agressivo ou militar, os instrumentos de metal ganham contornos de sutiliza e extrema sofisticação nas mãos do BrassUka. Criado em 2011 por cinco amigos de longa data, o grupo — formado por Moisés Américo e Pedro Santos (trompetes), Eder Tavares (trompa), Agnaldo Gonçalves (trombone) e Marcos Tudeia (tuba) — já soma mais de 300 apresentações na bagagem.

O segredo do quinteto está na irreverência. A performance explora a versatilidade ao extremo, provando que a potência desses instrumentos pode coexistir perfeitamente com a doçura de uma canção popular.

Repertório

O programa escolhido para a noite do dia 20 reflete o ecletismo do projeto. Em vez de se fechar em um único período histórico, o BrassUka propõe uma viagem no tempo que conecta a Europa clássica aos morros e matas do Brasil.

O público será guiado por um roteiro sonoro que inclui os clássicos europeus, em obras do renascentista G. Gabrieli, a energia de Rossini e o drama de Tchaikovsky (sintetizado em um medley empolgante, que unirá a Abertura 1812 ao seu famoso Concerto para Piano nº 1). Além da identidade nacional, com a genialidade de Heitor Villa-Lobos em "O Trenzinho Caipira", e arranjos para hinos da nossa música popular, como "Carinhoso" (Pixinguinha) e "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso.

“A ideia do projeto é aproximar as pessoas da música de um jeito mais direto e envolvente; mostrando que ela pode ser acessível e interessante para todo mundo. A cada edição, a gente busca trazer novos repertórios e formações que surpreendam o público e criem uma conexão verdadeira com quem está assistindo”, sublinha o produtor do Concertos Campestres, Thiago Catelani.

Serviço

  • Evento: Concertos Campestres apresenta BrassUka em “A Elegância dos Metais”
  • Data: 20 de junho de 2026 (Sábado)
  • Horário: 20h
  • Local: Teatro Clara Nunes (Diadema/SP)
  • Entrada: Gratuita

Mostra "Música Artesanal" investiga a matéria-prima da Identidade Brasileira

 

Homem não identificado, tocando instrumento de sopro, c. 1970.
Foto: Thomaz Farkas/Acervo Instituto Moreira Salles 

Mãos que moldam as ferramentas da música brasileira. No dia 26 de julho, o Museu A CASA do Objeto Brasileiro, em São Paulo, abre as portas para a exposição “Música Artesanal”, uma imersão profunda no universo da lutheria nacional e na herança cultural que transforma madeira, couro e metal em patrimônio imaterial.

Com curadoria do renomado pianista e compositor Benjamim Taubkin — um dos nomes ligados à fundação da própria instituição —, a mostra marca também o reencontro do público com o museu, que passou por reformas recentes de modernização e ampliação de acessibilidade.

O elo perdido de Mário de Andrade

O destaque histórico da exposição é a conexão direta com a célebre Missão de Pesquisas Folclóricas de 1938, uma expedição idealizada por Mário de Andrade que percorreu o Norte e o Nordeste, para mapear as manifestações artísticas e religiosas do país.

Cinco peças históricas coletadas durante aquela jornada foram resgatadas do acervo do Centro Cultural São Paulo (CCSP) e serão exibidas ao público. O diálogo entre o passado e o presente é costurado por registros iconográficos raros de fotógrafos como Thomaz Farkas, Marcel Gautherot e Miriam Bisilliat, cedidos pelo Instituto Moreira Salles (IMS).


Criança tocando atabaque, 1990-1999. Pelourinho – Salvador - BA
Foto: Acervo Walter Firmo/ Instituto Moreira Salles 


“A música brasileira nasce de muitos encontros: de culturas, territórios, matérias e modos de fazer. A exposição procura mostrar justamente esse elo entre o gesto artesanal e a construção da nossa identidade sonora. Os instrumentos carregam histórias e formas de conhecimento transmitidas entre gerações”, ressalta o curador Benjamim Taubkin.

Infinitos ritmos

A narrativa da mostra se apoia na espinha dorsal de quatro instrumentos fundamentais da nossa tradição. Para dar vida a esse recorte, Taubkin convidou quatro mestres artesãos contemporâneos, cujos trabalhos ganham protagonismo na cena:  A viola caipira, por Régis Bonilha, destacando o berço da moda, do pagode caipira e do repente; a rabeca, por Adam Bahrami, com o arco que conduz o fandango, o baião e o forró; o pífano, por Alexandre Rodrigues: o sopro que conecta as tradições indígenas e as bandas de pífano do interior; além do atabaque e da percussão de Luiz Poeira, ecoando o maracatu, o samba, a congada, o ijexá e o frevo.

Além das peças criadas exclusivamente para o projeto, a experiência visual é complementada por um vídeo inédito, dirigido pelo curador em parceria com Kabé Pinheiro e Laís Branco (Produtora VMD).

 Oficinas

Para além das vitrines, "Música Artesanal" se propõe a ser um espaço de troca ativa. Ao longo do período expositivo, que vai até 18 de outubro, o museu sediará debates e vivências práticas gratuitas, onde os visitantes poderão aprender diretamente com os luthiers convidados.

Serviço 

Cavalo Marinho, festa popular, 1957. Recife - PE

Foto: Marcel Gautherot/Acervo Instituto Moreira Salles. 



  • Período da exposição: 26 de julho a 18 de outubro de 2026.
  • Funcionamento: Quarta a domingo, das 10h às 18h.
  • Entrada: Gratuita.
  • Local: Museu A CASA do Objeto Brasileiro (Av. Pedroso de Morais, 1.216, São Paulo - SP).

segunda-feira, 1 de junho de 2026

A música sem fronteiras de Lívia Mattos

📸 @anaraquelfoto/Instagram

Por Saulo Andrade

Entre a lona e o fole. Dizer que Lívia Mattos é acordeonista, cantautora e socióloga é resumir apenas uma parte da engrenagem. Para entender a sua assinatura, é preciso olhar para o picadeiro. Foi no circo que a artista soteropolitana descobriu a sanfona — não apenas como instrumento, mas como um potente recurso cênico. Dali para a criação de performances vertiginosas como a "Sanfona Aérea" e a "A Sanfonástica Mulher-lona", foi um salto natural.

Com mais de 15 anos de estrada solo, Lívia construiu uma trajetória que ignora fronteiras geográficas e estéticas. Já levou sua música para festivais internacionais, integrou a banda de Chico César, dialogou com Rosa Passos e Badi Assad, e chegou a solar com a Orquestra Sinfônica da Bahia. Sua busca é sempre pela vanguarda. Essa inquietação transborda no álbum "Verve" (2025), onde a tradicional sanfona nordestina se joga na microtonalidade, acompanhada por uma cozinha inusitada de tuba e bateria, com flertes de drum and bass. O milagre do trabalho está em fazer essa costura audaciosa, sem perder o sotaque nordestino.

 Picadeiro 

📸 @bendorosario/Instagram

Toda essa ousadia estética encontra sua gênese há cerca de duas décadas, sob a lona do Circo Picolino, em Salvador (BA). Para Lívia, o espaço foi uma escola de liberdade artística, moldada por uma estética profundamente antropofágica e tropicalista. A decisão de trilhar esse caminho veio após o impacto de assistir a um espetáculo circense, construído sobre a obra de Glauber Rocha. "Ali, eu senti que era aquilo que eu queria fazer da vida. E o 'aquilo' era uma mistura de linguagens: circo, poesia, cinema, música, dança, teatro, etc. [...] Acho que aprendi a ser artista nesse circo que ousava sempre, em experimentar na forma de criar, nos limites — se é que há — do que é circo", ressalta a artista.

Essa vivência moldou uma postura de constante enfrentamento e resistência. Em um cenário musical onde a sanfona no Brasil é historicamente associada ao universo masculino, Lívia imprime sua própria leitura autoral. "Tocar um instrumento tão estigmatizado, saindo de caminhos mais óbvios, mas sem negá-los, borrando as arestas, sendo mulher, compositora, cantora, sem abrir mão do meu corpo, aliás, amalgamando ele ao meu fole, é um ato de resistência, é um ato político, é um enfrentamento", sublinha. 

 Referências

📸 @bendorosario/Instagram

Embora tenha consolidado sua carreira solo, Lívia faz questão de ressaltar que suas raízes no circo, no forró e a parceria com Chico César nunca foram abandonadas. A transição para a liderança dos palcos não se deu por um rompimento drástico, mas pelo amadurecimento natural de sua própria demanda artística, enquanto atuava como 'side woman'. "Fui experimentando e construindo, paralelamente, ao mesmo tempo, aproveitando a colaboração com artistas como Chico, Badi Assad, Ceumar, Alessandra Leão, Rosa Passos, entre outros, como uma esponja, me inspirando nessas referências e descobrindo meu caminho de composição, de arranjo, de poética, de sonoridade", enumera a musicista. 

Power trio


O amadurecimento dessa jornada culminou no recente álbum "Verve" (2025). O coração do novo disco bate no ritmo de um power trio inusitado, formado por Lívia, Jefferson Babu (tuba) e Rafael dos Santos (bateria). Juntos na estrada há quase uma década, os músicos vinham maturando essa formação, desde 2019: 

"O processo do álbum "Verve" foi um aprofundamento de pesquisa de linguagem do trio muito intenso e bonito; um mergulho de cabeça, não só nessa concisão da formação, mas também na maturação dessa temperatura, entre o Vinha da Ida e o Apneia, nessa invenção de um não-lugar, no estabelecimento dessa proposta não óbvia".

Sem fronteiras 

Essa universalidade, sem amarras, tem levado o som de Lívia a transpor barreiras geográficas, com shows marcados no Senegal e turnês europeias. Mas cruzar fronteiras também significa driblar as expectativas do mercado externo e as tentativas de categorização por meio de estereótipos. Para isso, ela propõe pensar a sanfona quase como outro instrumento, inserida em arranjos curiosos e fora dos padrões comerciais.

📸 @bendorosario/Instagram

 "Como representante da sanfona brasileira, sinto que meu papel é essa mirada do contemporâneo que não precisa romper com o 'de onde se vem', que amalgama memórias, trânsitos e transcria, em cima de tudo isso. A minha sanfona é brasileira e aberta ao mundo, na compreensão da diversidade como a maior beleza da humanidade. O diverso me inspira, me faz pensar diferente, criar diferente e ir desvendando essa minha identidade, que é móvel, dinâmica, porosa", conclui a instrumentista. 




sexta-feira, 29 de maio de 2026

Da crítica ambiental ao misticismo, Strigah estreia com álbum "Zoetia"

Fotos: _jmiguelr_ (divulgação)

A cena do metal nacional ganha um novo e robusto capítulo com a estreia oficial da banda paulistana Strigah. Chegando às plataformas de streaming pelo selo Coffinjoe Records, o quarteto lança Zoetia, um trabalho de fôlego que consolida a identidade do grupo em uma intersecção ambiciosa entre metal moderno, prog, industrial e música experimental.

O título do disco é um neologismo que sintetiza a proposta conceitual do projeto: a junção de zoe (vida) e goetia (feitiço). Esse "feitiço da vida" se traduz em um repertório denso, guiado pela tensão constante entre a revolta contra o colapso moderno, a defesa ecológica e a busca por uma conexão espiritual profunda.

A Strigah é formada por Kaio Felipe (vocal), Samanta Tica (baixo), Eleonardo de Paula (bateria) e Matheus Figueredo (guitarra).

Musicalmente, Zoetia foge do previsível. O álbum desafia o ouvinte com estruturas complexas repletas de grooves, polirritmias e quebras de tempo, mas sem abrir mão do equilíbrio: há espaço generoso para passagens melódicas, vozes ecoadas e atmosferas profundas que potencializam o peso de cada composição.

De acordo com os integrantes, o trabalho foi desenhado sob uma lógica própria, voltado para quem busca um metal autêntico e fora dos moldes tradicionais. O ecletismo da banda se reflete em suas influências declaradas, que vão do peso internacional de Meshuggah, Fear Factory e Deftones, à efervescência de nomes do underground nacional, como Deafkids e Última Theoria.

Tratado sobre ambientes

Mais do que uma coleção de faixas isoladas, as letras funcionam como um tratado que investiga cinco frentes: o ambiente natural, a cidade hostil, o espaço virtual, o íntimo do sujeito e o território espiritual.

As composições se destacam pelo forte teor político, filosófico e místico. O grupo bebe de fontes que vão do gnosticismo e da cabala judaica a citações diretas de grandes lideranças indígenas brasileiras, como Ailton Krenak e Davi Kopenawa.

Dentre as músicas de destaca, “A Propriedade é Roubo” abre o debate sobre o latifúndio e a exploração da terra, homenageando defensores da floresta como Bruno Pereira, Dom Phillips e Dorothy Stang.

Em “Xamanismo Urbano”, há uma forte crítica anticolonial, que conecta o agronegócio e a destruição da Amazônia ao distanciamento humano da ancestralidade.

“Espírito da Cidade” retrata o cenário urbano caótico, através de imagens de repressão policial, controle e violência de classe.
A música “Florestas Digitais” analisa a alienação da vida mediada por teles, redes e o esgotamento do tempo.

Produção

O refinamento técnico de Zoetia conta com mixagem e masterização assinadas por Yukio Hara, arte de capa por Jennifer Erny e fotografias do grupo feitas por Chev. Os conteúdos audiovisuais levam o selo da RageBox Prod.

Celebrando este momento de afirmação artística, a Strigah já se prepara para levar o novo repertório aos palcos. A banda fará um show de apresentação de Zoetia no Hot Pub, em Santo André (SP). A performance será gravada ao vivo e se transformará em um videoclipe oficial, com lançamento previsto para o final de julho.

Arte de capa: @j.3rny

O álbum Zoetia já está disponível em todas as plataformas digitais e pode ser acessado pelo link oficial da banda: found.ee/strigah_zoetia.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

​“Isso Não É Jazz” invade Rio das Ostras

Fotos: Kelly Oliveira/divulgação

Quem frequenta a região da Lagoa do Iriry durante o tradicional circuito de jazz e blues de Rio das Ostras sabe que a efervescência artística da cidade vai muito além dos palcos oficiais. É nesse cenário alternativo que se consolidou o projeto independente “Isso Não É Jazz & Blues”, que chega em 2026 à sua sexta edição, reafirmando sua identidade como um espaço vital de ocupação cultural, liberdade criativa e fortalecimento da produção regional.

Idealizado pelo músico Diogo Spadaro, o projeto nasceu como uma provocação. O objetivo sempre foi provar a existência de uma cena artística local pulsante, que se mantém ativa ao longo de todo o ano, e não apenas no período do festival principal — considerado o maior do gênero, na América Latina.


"Queremos criar espaços de encontro, improviso, experimentação e convivência entre artistas e público", destacou Spadaro.

Fomento 

A edição deste ano traz um marco especial: a conquista de recursos por meio da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), viabilizada pelo Governo Federal, via Ministério da Cultura. O apoio financeiro expande as possibilidades de fomento à cultura autoral da região e fortalece a infraestrutura técnica das apresentações.

As exibições musicais acontecem nos dias 4, 5 e 6 de junho, a partir das 15h, no Quiosque NKR (localizado logo ao lado do palco oficial da Lagoa do Iriry).


A linha de frente das apresentações será comandada por três cantoras de destaque da cena local: Thati Dias, na quinta-feira (4), Cláudia Falcão, na sexta (5), e Raquel Dimar, no sábado (6). 

As artistas se apresentarão acompanhadas pela Banda Freetração, grupo com sólida bagagem em jazz e música afro-diaspórica, formado por Diogo Spadaro (voz e guitarra), Denisson Caminha (bateria e SPD), Negão Jazz Bass (baixo), Brenddon Miranda (saxofone) e Sabatuk (percussão). Juntos, os músicos transformam cada show em uma experiência artística autêntica e construída em tempo real por meio do improviso.

O evento é aberto ao público e integra a programação cultural da cidade.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Mangueira supera marca de mil alunos em oficinas gratuitas de música e geração de renda

 

Fotos: divulgação 

Quilombo urbano focado em transformar histórias, resgatar trajetórias e pavimentar caminhos mais justos para o futuro, a Estação Primeira de Mangueira prova, mais uma vez, que o impacto de uma escola de samba ecoa muito além dos desfiles na Sapucaí. Tradicional polo de resistência cultural, a Verde e Rosa celebra, neste mês de maio, um marco histórico em suas Oficinas Carnavalescas: a atual edição superou a marca de mil alunos beneficiados, registrando o recorde absoluto de atendimentos do projeto.

As atividades, que seguem até sexta (29), ocupam a quadra da agremiação com uma proposta que une o resgate ancestral à urgência econômica: oferecer formação técnica gratuita e abrir portas para a geração de emprego e renda, priorizando moradores da comunidade e pessoas em situação de vulnerabilidade social

O projeto se destaca pela diversidade de seu escopo. Longe de se limitar aos bastidores do barracão, as oficinas abraçam a formação musical, a dança e o empreendedorismo estético. Quem frequenta a quadra tem a chance de aprender com quem vive o dia a dia da escola, integrando-se diretamente com os mestres da tradicional bateria da Mangueira.

O cardápio de atividades gratuitas inclui percussão; cavaquinho; violão; canto; samba no pé; dança afro; zumba; além de oficinas de tranças. "Mais do que ensinar um ofício, as oficinas devolvem esperança e mostram novos caminhos para quem muitas vezes não se sentia visto", reflete a presidenta da Mangueira, Guanayra Firmino.

Legado


Realizadas de forma contínua desde 2025, as Oficinas Carnavalescas se consolidaram como uma tecnologia social robusta, dentro da favela. Para a diretoria da escola, o resultado mais importante não está nos números frios do recorde, mas sim na emancipação de cada participante.

A iniciativa atua na base da dignidade humana, fortalecendo a autoestima e os vínculos comunitários em um território que frequentemente precisa criar suas próprias oportunidades, diante da ausência do Estado.

“Hoje, o foco é no resultado. Nos rostos, nas histórias e em cada certificado que representa conquista, aprendizado e transformação. Um registro afetivo do impacto que a gente constrói juntos, valorizando quem é da casa e fortalecendo o nosso futuro”, enfatiza Guanayra.

terça-feira, 26 de maio de 2026

A travessia poética de Christine Valença entre Brasil e França

 

Fotos: Louis Emilie/divulgação

A cantora, compositora e multi-instrumentista carioca Christine Valença abre os caminhos para sua nova fase criativa em 2026, com o lançamento de “Sur Ton Île”. O single promove um sensível intercâmbio cultural entre o Brasil e a França, unindo a artista a três nomes de destaque da cena francesa: o rapper Verso, o cantor Félicien Adam e o instrumentista Luazó (parceiro de longa data da cantora).

A faixa transita com naturalidade entre o soul, a MPB, o folk e o pop alternativo. Misturando os idiomas português e francês, ritmos latinos e poesia urbana, a obra nasce como uma metáfora sobre conexões e o desejo de atravessar fronteiras. O lançamento também ganhou uma dimensão visual com um videoclipe gravado entre os momentos de estúdio e belas imagens do Rio de Janeiro.

Conexões 

A ligação de Christine com a França carrega traços afetivos e familiares: sua mãe, que também era cantora e compositora, viveu uma bem-sucedida residência artística em Paris, nos anos 80. Décadas depois, a história se conecta. O embrião do projeto surgiu no início de 2025, após apresentações da carioca na Europa e a oportunidade de focar no fortalecimento dessas parcerias por meio de editais do ano do Brasil na França.

O processo de gravação em estúdio funcionou como um verdadeiro "blind-date artístico", proposto pela gravadora French Light Records. Com apenas um fim de semana para criar e sem uma troca prévia de ideias, os músicos se guiaram pela intuição e por referências literárias de peso, levadas por Christine, como As Flores do Mal, de Baudelaire, e Ideias para Adiar o Fim do Mundo, de Ailton Krenak.

Desafios

Para a artista, o lançamento representa uma fuga saudável da complexa e hostil cena independente do Rio de Janeiro, além de um rompimento com as "câmaras de eco" e bolhas das redes sociais. Christine relembra que, no início da carreira, chegou a acreditar que só conseguiria espaço investindo recursos próprios na sua cidade natal. A reviravolta veio, ao arriscar um show solo em Lisboa, onde encontrou um público caloroso que validou sua identidade musical e deu forças para manter seu propósito.

"Sur Ton Île" funciona como o grande motor e a principal inspiração para o próximo passo da carreira de Christine Valença: um EP autoral e recheado de novas experimentações que já está a caminho.

Gigantes do indie sul-americano voltam a SP

Foto: divulgação Os reis do indie rock sul-americano estão de volta. A banda argentina Él Mató a un Policía Motorizado desembarca em São Pau...