segunda-feira, 1 de junho de 2026

A música sem fronteiras de Lívia Mattos

📸 @anaraquelfoto/Instagram

Por Saulo Andrade

Entre a lona e o fole. Dizer que Lívia Mattos é acordeonista, cantautora e socióloga é resumir apenas uma parte da engrenagem. Para entender a sua assinatura, é preciso olhar para o picadeiro. Foi no circo que a artista soteropolitana descobriu a sanfona — não apenas como instrumento, mas como um potente recurso cênico. Dali para a criação de performances vertiginosas como a "Sanfona Aérea" e a "A Sanfonástica Mulher-lona", foi um salto natural.

Com mais de 15 anos de estrada solo, Lívia construiu uma trajetória que ignora fronteiras geográficas e estéticas. Já levou sua música para festivais internacionais, integrou a banda de Chico César, dialogou com Rosa Passos e Badi Assad, e chegou a solar com a Orquestra Sinfônica da Bahia. Sua busca é sempre pela vanguarda. Essa inquietação transborda no álbum "Verve" (2025), onde a tradicional sanfona nordestina se joga na microtonalidade, acompanhada por uma cozinha inusitada de tuba e bateria, com flertes de drum and bass. O milagre do trabalho está em fazer essa costura audaciosa, sem perder o sotaque nordestino.

 Picadeiro 

📸 @bendorosario/Instagram

Toda essa ousadia estética encontra sua gênese há cerca de duas décadas, sob a lona do Circo Picolino, em Salvador (BA). Para Lívia, o espaço foi uma escola de liberdade artística, moldada por uma estética profundamente antropofágica e tropicalista. A decisão de trilhar esse caminho veio após o impacto de assistir a um espetáculo circense, construído sobre a obra de Glauber Rocha. "Ali, eu senti que era aquilo que eu queria fazer da vida. E o 'aquilo' era uma mistura de linguagens: circo, poesia, cinema, música, dança, teatro, etc. [...] Acho que aprendi a ser artista nesse circo que ousava sempre, em experimentar na forma de criar, nos limites — se é que há — do que é circo", ressalta a artista.

Essa vivência moldou uma postura de constante enfrentamento e resistência. Em um cenário musical onde a sanfona no Brasil é historicamente associada ao universo masculino, Lívia imprime sua própria leitura autoral. "Tocar um instrumento tão estigmatizado, saindo de caminhos mais óbvios, mas sem negá-los, borrando as arestas, sendo mulher, compositora, cantora, sem abrir mão do meu corpo, aliás, amalgamando ele ao meu fole, é um ato de resistência, é um ato político, é um enfrentamento", sublinha. 

 Referências

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Embora tenha consolidado sua carreira solo, Lívia faz questão de ressaltar que suas raízes no circo, no forró e a parceria com Chico César nunca foram abandonadas. A transição para a liderança dos palcos não se deu por um rompimento drástico, mas pelo amadurecimento natural de sua própria demanda artística, enquanto atuava como 'side woman'. "Fui experimentando e construindo, paralelamente, ao mesmo tempo, aproveitando a colaboração com artistas como Chico, Badi Assad, Ceumar, Alessandra Leão, Rosa Passos, entre outros, como uma esponja, me inspirando nessas referências e descobrindo meu caminho de composição, de arranjo, de poética, de sonoridade", enumera a musicista. 

Power trio


O amadurecimento dessa jornada culminou no recente álbum "Verve" (2025). O coração do novo disco bate no ritmo de um power trio inusitado, formado por Lívia, Jefferson Babu (tuba) e Rafael dos Santos (bateria). Juntos na estrada há quase uma década, os músicos vinham maturando essa formação, desde 2019: 

"O processo do álbum "Verve" foi um aprofundamento de pesquisa de linguagem do trio muito intenso e bonito; um mergulho de cabeça, não só nessa concisão da formação, mas também na maturação dessa temperatura, entre o Vinha da Ida e o Apneia, nessa invenção de um não-lugar, no estabelecimento dessa proposta não óbvia".

Sem fronteiras 

Essa universalidade, sem amarras, tem levado o som de Lívia a transpor barreiras geográficas, com shows marcados no Senegal e turnês europeias. Mas cruzar fronteiras também significa driblar as expectativas do mercado externo e as tentativas de categorização por meio de estereótipos. Para isso, ela propõe pensar a sanfona quase como outro instrumento, inserida em arranjos curiosos e fora dos padrões comerciais.

📸 @bendorosario/Instagram

 "Como representante da sanfona brasileira, sinto que meu papel é essa mirada do contemporâneo que não precisa romper com o 'de onde se vem', que amalgama memórias, trânsitos e transcria, em cima de tudo isso. A minha sanfona é brasileira e aberta ao mundo, na compreensão da diversidade como a maior beleza da humanidade. O diverso me inspira, me faz pensar diferente, criar diferente e ir desvendando essa minha identidade, que é móvel, dinâmica, porosa", conclui a instrumentista. 




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