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| Fotos: divulgação/Ascom |
Uma conversa sobre raízes litorâneas, a emoção de pisar
no templo sagrado do samba, superação e o desejo de deixar um legado sem
fronteiras para a música brasileira
Saulo Andrade
Para quem observa de fora, a união entre a Argentina e o samba pode parecer
inusitada. Mas, para a cantora e compositora Ale Maria, essa ponte foi
construída de forma natural, com paixão pela cadência bonita do samba e do
carnaval, desde a infância, em Mercedes, na província de Corrientes, Argentina.
Consolidada no cenário carioca, após abençoadas passagens
pelo Cacique de Ramos e com participações marcantes em escolas de samba e
palcos emblemáticos como o Museu do Samba, a artista prepara-se para o seu
próximo grande momento: o show no Clube ASPOM-RJ, em Piedade, Zona Norte do
Rio, no dia 8 de agosto, sábado, junto ao grupo Caciqueando.
Nesta entrevista, Ale repassa sua trajetória, reflete sobre
as batalhas do cotidiano musical e projeta o futuro de sua arte.
Cena da Música Independente (CMIND): Ale, o seu primeiro
contato com o samba e o carnaval aconteceu ainda na infância, em Corrientes.
Para os brasileiros que costumam enxergar a Argentina apenas pela ótica do
tango portenho, como é essa atmosfera rítmica do interior do seu país e de que
forma ela pavimentou o seu caminho até as rodas cariocas?
Ale Maria: Eu fui criada em Mercedes, Corrientes, e
morei lá até os meus 18 anos. Na minha cidade, que fica no centro da província,
e nas cidades ao redor, todo mundo vive o carnaval com bateria, escolas de
samba e samba-enredo. Algumas escolas interpretam músicas locais, mas a maioria
tem o seu próprio samba-enredo e desfila exatamente como no Rio de Janeiro,
falando sobre a história do país ou temas da humanidade. Para mim, essa cultura
brasileira e argentina se parece muito. O carnaval já existia por lá antes e, quando
o samba entrou, transformamos esses desfiles, muito pela proximidade com
Uruguaiana e o Rio Grande do Sul. Então, posso dizer que o carnaval com bateria
e escola de samba sempre esteve na minha raiz. Desde criança, eu fazia questão
de me fantasiar, dançar, desfilar e viver essa festa.
CMIND: Uma das suas primeiras e mais marcantes
experiências no Rio foi a chegada ao Cacique de Ramos, levada pelo seu irmão, o
músico Henrique Fubba. Como foi pisar naquele chão sagrado e, principalmente,
receber o acolhimento de uma entidade como o Bira Presidente?
Ale Maria: Lembro como se fosse hoje. O Henrique
Fubba me chamou para conhecer o Cacique, mas eu nunca imaginei que, logo na
primeira vez pisando ali, eu iria cantar. A emoção foi tão grande que, quando
subi ao palco, eu não parava de chorar. Tive que parar, respirar e falar pra
mim mesma: "se acalma e faz o que você sabe fazer". Eu não
tinha muita experiência em rodas de samba no Rio, ainda, mas me entreguei por
inteiro. Foi maravilhoso: as pessoas sentiram essa verdade. Quem me deu essa
oportunidade inicial foi o Ronaldo, um dos diretores, a quem sou eternamente
grata e que sempre me acolhe. Foi ele quem me apresentou ao Bira Presidente. O
Bira acabou virando meu fã, ao ver o carinho e o respeito que os argentinos têm
pelo samba. Ele gostava de ouvir minhas histórias, de como eu já conhecia, no
meu país, o Fundo de Quintal; Beth Carvalho; Jorge Aragão e Arlindo Cruz. Ele
fazia questão de estar nos meus shows, dançando o famoso miudinho dele. Tenho
uma proximidade gigante com o Cacique, desde os meus primeiros dias no Rio.
CMIND: Você tem um trabalho autoral muito focado em
construir pontes, gravando composições próprias como "O Samba em Primeiro
Lugar" e "De Samba em Samba", além de trazer clássicos
traduzidos e sambas-enredo interpretados em espanhol. Quais são os pontos de
convergência mais profundos entre a alma musical argentina e a brasileira? O
que as une e as irmana nos palcos?
Ale Maria: Nas minhas composições, eu faço questão de
trazer o que a minha alma pede: falar de amor, de união e de respeito pelo
samba. Esse é um sentimento que abraça o povo argentino, na hora de cantar
samba. Nós respeitamos profundamente a história e a origem do samba, sabendo
que ele é brasileiro, mas também temos muita criação e composição própria em
espanhol por lá. No palco, o que nos une é essa reverência. Queremos honrar
essa arte que já se tornou parte da nossa cultura também. Existe a famosa
rivalidade no futebol, mas na música a união entre as nossas culturas é muito
forte. O samba une as pessoas e quebra barreiras.
CMIND: A sua trajetória no Rio de Janeiro é o retrato
fiel da persistência de um artista independente. O público te vê hoje brilhando
nos palcos, mas você já encarou muitas batalhas no cotidiano — desde vender
bijuterias nas praias cariocas, trabalhar como garçonete, dar banho em pets,
durante a pandemia, até produzir e vender suas próprias empanadas argentinas
por encomenda. Como essas vivências moldaram a sua interpretação artística? O
samba exige essa "casca" da vida real?
Ale Maria: Com certeza. Eu já fiz de tudo um pouco,
aqui no Rio: vendi bijuteria na praia, trabalhei como garçonete, atuei em pet
shop, pós-pandemia, e hoje vendo empanadas artesanais por encomenda. Além
disso, no próprio meio musical, eu sempre fui a produtora dos meus shows e a
técnica que passava o som e chamava os músicos. Durante muito tempo, era
difícil me enxergar plenamente como essa artista capaz de viver exclusivamente
da sua paixão. Mas hoje estou em um processo de virada de chave. Estou
consciente da minha capacidade e focada em viver da minha arte. Todas essas
experiências me deram a maturidade necessária para encarar o palco de frente.
CMIND: Olhando para o futuro e para este novo momento que
se consolida com o show do dia 8 de agosto no ASPOM-RJ, qual é a mensagem e o
legado que você quer deixar para o samba, daqui para a frente?
Ale Maria: Esse novo projeto no ASPOM é a realização
de um desejo de mostrar tudo o que carrego comigo. Assim como mostrei no
espetáculo "O Samba Nasceu em Mim" no Museu do Samba, eu estou
cheia de sonhos, amor e respeito pelos mestres que vieram antes. Chegou a hora
de começar a deixar o meu legado. O samba é uma força viva que precisa
continuar se expandindo pelo universo. Ele merece respeito, mas também merece
quebrar fronteiras e preconceitos de quem ainda não enxergou a sua potência
total. O samba merece essa expansão, e eu estou pronta para colocar a minha voz
e a minha história nesse lugar de destaque que a arte merece.
SERVIÇO: Caciqueando com Ale Maria e Convidados
- Data:
8 de agosto de 2026 (sábado)
- Horário:
A partir das 17h
- Local:
Clube ASPOM-RJ (Av. Dom Hélder Câmara, 8484 – Piedade, Rio de Janeiro)
- Atrações:
Ale Maria, grupo Caciqueando (diretamente de Ramos), convidados especiais
e show de passistas
- Gastronomia:
Comida de boteco
- Ingressos
e Informações: Venda antecipada pelos telefones (21) 97662-7744 / (21)
96553-9966 ou pelo Instagram @alemariashow




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