terça-feira, 21 de julho de 2026

Nem tango, nem futebol: a argentina que conquistou o chão sagrado do Cacique de Ramos

 

Fotos: divulgação/Ascom

Uma conversa sobre raízes litorâneas, a emoção de pisar no templo sagrado do samba, superação e o desejo de deixar um legado sem fronteiras para a música brasileira

Saulo Andrade
Para quem observa de fora, a união entre a Argentina e o samba pode parecer inusitada. Mas, para a cantora e compositora Ale Maria, essa ponte foi construída de forma natural, com paixão pela cadência bonita do samba e do carnaval, desde a infância, em Mercedes, na província de Corrientes, Argentina.

Consolidada no cenário carioca, após abençoadas passagens pelo Cacique de Ramos e com participações marcantes em escolas de samba e palcos emblemáticos como o Museu do Samba, a artista prepara-se para o seu próximo grande momento: o show no Clube ASPOM-RJ, em Piedade, Zona Norte do Rio, no dia 8 de agosto, sábado, junto ao grupo Caciqueando.

Nesta entrevista, Ale repassa sua trajetória, reflete sobre as batalhas do cotidiano musical e projeta o futuro de sua arte.

Cena da Música Independente (CMIND): Ale, o seu primeiro contato com o samba e o carnaval aconteceu ainda na infância, em Corrientes. Para os brasileiros que costumam enxergar a Argentina apenas pela ótica do tango portenho, como é essa atmosfera rítmica do interior do seu país e de que forma ela pavimentou o seu caminho até as rodas cariocas?



Ale Maria: Eu fui criada em Mercedes, Corrientes, e morei lá até os meus 18 anos. Na minha cidade, que fica no centro da província, e nas cidades ao redor, todo mundo vive o carnaval com bateria, escolas de samba e samba-enredo. Algumas escolas interpretam músicas locais, mas a maioria tem o seu próprio samba-enredo e desfila exatamente como no Rio de Janeiro, falando sobre a história do país ou temas da humanidade. Para mim, essa cultura brasileira e argentina se parece muito. O carnaval já existia por lá antes e, quando o samba entrou, transformamos esses desfiles, muito pela proximidade com Uruguaiana e o Rio Grande do Sul. Então, posso dizer que o carnaval com bateria e escola de samba sempre esteve na minha raiz. Desde criança, eu fazia questão de me fantasiar, dançar, desfilar e viver essa festa.

CMIND: Uma das suas primeiras e mais marcantes experiências no Rio foi a chegada ao Cacique de Ramos, levada pelo seu irmão, o músico Henrique Fubba. Como foi pisar naquele chão sagrado e, principalmente, receber o acolhimento de uma entidade como o Bira Presidente?

Ale Maria: Lembro como se fosse hoje. O Henrique Fubba me chamou para conhecer o Cacique, mas eu nunca imaginei que, logo na primeira vez pisando ali, eu iria cantar. A emoção foi tão grande que, quando subi ao palco, eu não parava de chorar. Tive que parar, respirar e falar pra mim mesma: "se acalma e faz o que você sabe fazer". Eu não tinha muita experiência em rodas de samba no Rio, ainda, mas me entreguei por inteiro. Foi maravilhoso: as pessoas sentiram essa verdade. Quem me deu essa oportunidade inicial foi o Ronaldo, um dos diretores, a quem sou eternamente grata e que sempre me acolhe. Foi ele quem me apresentou ao Bira Presidente. O Bira acabou virando meu fã, ao ver o carinho e o respeito que os argentinos têm pelo samba. Ele gostava de ouvir minhas histórias, de como eu já conhecia, no meu país, o Fundo de Quintal; Beth Carvalho; Jorge Aragão e Arlindo Cruz. Ele fazia questão de estar nos meus shows, dançando o famoso miudinho dele. Tenho uma proximidade gigante com o Cacique, desde os meus primeiros dias no Rio.



CMIND: Você tem um trabalho autoral muito focado em construir pontes, gravando composições próprias como "O Samba em Primeiro Lugar" e "De Samba em Samba", além de trazer clássicos traduzidos e sambas-enredo interpretados em espanhol. Quais são os pontos de convergência mais profundos entre a alma musical argentina e a brasileira? O que as une e as irmana nos palcos?

Ale Maria: Nas minhas composições, eu faço questão de trazer o que a minha alma pede: falar de amor, de união e de respeito pelo samba. Esse é um sentimento que abraça o povo argentino, na hora de cantar samba. Nós respeitamos profundamente a história e a origem do samba, sabendo que ele é brasileiro, mas também temos muita criação e composição própria em espanhol por lá. No palco, o que nos une é essa reverência. Queremos honrar essa arte que já se tornou parte da nossa cultura também. Existe a famosa rivalidade no futebol, mas na música a união entre as nossas culturas é muito forte. O samba une as pessoas e quebra barreiras.

CMIND: A sua trajetória no Rio de Janeiro é o retrato fiel da persistência de um artista independente. O público te vê hoje brilhando nos palcos, mas você já encarou muitas batalhas no cotidiano — desde vender bijuterias nas praias cariocas, trabalhar como garçonete, dar banho em pets, durante a pandemia, até produzir e vender suas próprias empanadas argentinas por encomenda. Como essas vivências moldaram a sua interpretação artística? O samba exige essa "casca" da vida real?

Ale Maria: Com certeza. Eu já fiz de tudo um pouco, aqui no Rio: vendi bijuteria na praia, trabalhei como garçonete, atuei em pet shop, pós-pandemia, e hoje vendo empanadas artesanais por encomenda. Além disso, no próprio meio musical, eu sempre fui a produtora dos meus shows e a técnica que passava o som e chamava os músicos. Durante muito tempo, era difícil me enxergar plenamente como essa artista capaz de viver exclusivamente da sua paixão. Mas hoje estou em um processo de virada de chave. Estou consciente da minha capacidade e focada em viver da minha arte. Todas essas experiências me deram a maturidade necessária para encarar o palco de frente.

CMIND: Olhando para o futuro e para este novo momento que se consolida com o show do dia 8 de agosto no ASPOM-RJ, qual é a mensagem e o legado que você quer deixar para o samba, daqui para a frente?

Ale Maria: Esse novo projeto no ASPOM é a realização de um desejo de mostrar tudo o que carrego comigo. Assim como mostrei no espetáculo "O Samba Nasceu em Mim" no Museu do Samba, eu estou cheia de sonhos, amor e respeito pelos mestres que vieram antes. Chegou a hora de começar a deixar o meu legado. O samba é uma força viva que precisa continuar se expandindo pelo universo. Ele merece respeito, mas também merece quebrar fronteiras e preconceitos de quem ainda não enxergou a sua potência total. O samba merece essa expansão, e eu estou pronta para colocar a minha voz e a minha história nesse lugar de destaque que a arte merece.

SERVIÇO: Caciqueando com Ale Maria e Convidados



  • Data: 8 de agosto de 2026 (sábado)
  • Horário: A partir das 17h
  • Local: Clube ASPOM-RJ (Av. Dom Hélder Câmara, 8484 – Piedade, Rio de Janeiro)
  • Atrações: Ale Maria, grupo Caciqueando (diretamente de Ramos), convidados especiais e show de passistas
  • Gastronomia: Comida de boteco
  • Ingressos e Informações: Venda antecipada pelos telefones (21) 97662-7744 / (21) 96553-9966 ou pelo Instagram @alemariashow

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