quarta-feira, 11 de maio de 2022

TORTO lança "Expediente", álbum concebido em ambiente de trabalho

 

Música experimental-instrumental de Leandro Lima bate ponto nas plataformas de streamings  



Leandro Lima. Foto: Xico Pessoa


Redescobrir e traduzir o novo, em meio à rotina cotidiana, é uma das missões de todo artista. Em “Expediente”, o músico e designer pernambucano Leandro Lima, idealizador do projeto TORTO, seguiu à risca essa premissa. Por trás da gravação de algumas das sete faixas do álbum, pode-se até perceber as vozes dos companheiros de trabalho do designer Leandro, um artista cuja musicalidade - do post-rock ao eletrônico - dá vida e percepção a uma realidade que, para muitos, beira o banal.

 

Confira um pouco desse processo criativo, nesta entrevista exclusiva que o artista concedeu ao CMIND!           

 

Por que a abordagem do dia a dia do trabalho "convencional" na sua música? 

 

Primeiramente, porque era onde eu estava, enquanto desenvolvia as músicas (risos). Sempre procuro, de certa forma, dar uma fugida das coisas que faço cotidianamente, para mudar o foco e pensar em outras perspectivas ou simplesmente me divertir. Música vem a ser um desses escapes para mim (na verdade, os dois: fuga e diversão). E isso entra totalmente em conflito com as idealizações de um trabalho corporativo. 

 

Sua música parte de um questionamento acerca do aspecto mecânico e melancólico do trabalho cotidiano?

 

Também. Não necessariamente partiu da “melancolia”, mas ela acabou aparecendo, por causa dos processos mecânicos. Generalizando, o trabalho ocupa a maior parte do dia. Quando passamos a enxergar que ele pauta a maioria das decisões e prazeres cotidianos, é algo um pouco assustador.  As músicas do “Expediente” vêm dos sentimentos gerados por essa inquietação e pelos questionamentos acerca da relação entre lazer e trabalho, além das trocas e recompensas que ele oferece. Digo recompensas, não só me referindo ao dinheiro, mas, principalmente, às relações interpessoais e vínculos criados nesse ambiente: a famosa "hora do cafezinho".  Não vejo o trabalho sempre como algo ruim. Há os dois lados, como tudo na vida. Mas entendo o peso e o significado que essa palavra carrega, em todo o seu contexto histórico.

 

Capa de "Expediente"

Como você encara o senso comum de que o trabalho com música, arte e cultura - de uma forma geral - não é "útil" para a sociedade, por não trazer um resultado "palpável"? 

 

Não sei se é um senso comum (espero que não); mas acredito que muita gente pense assim mesmo. Acho um pouco sem sentido essa afirmação. Acredito que não exista alguém, em estados ditos "normais", que não absorva algum tipo de arte e ou cultura. Então, o fato de não achar "útil" é no mínimo irresponsável com o que a pessoa que pensa assim consome (sim, ela também ouve música). Fui criado em uma família que sempre consumiu muita arte, em todas as suas formas e plataformas. Embora nunca tenha sido uma forma de trabalho, o papel do artista na sociedade sempre ocupou um lugar de prestígio e de grande reconhecimento.

 

De que forma a indústria cultural uniformiza a expressão artística, tornando-a sem subjetividade, e qual é a importância de se fazer música experimental e questionadora, especialmente no contexto social que vivemos hoje, no Brasil? 

 

A indústria sempre teve, ao longo dos anos, várias ferramentas para mensurar o que está em ascensão, massificar e vender tudo o mais rápido possível. Ultimamente, estamos vivendo na era do "big data", em que algoritmos têm à disposição, de forma rápida e fácil, informações fundamentais para a percepção do que é mais facilmente aceitável e rentável para a indústria. A fórmula da repetição nunca esteve tão acessível. Acredito que "cultura de massa" sempre vai existir; talvez, cada vez mais nichada, mas, de alguma forma, sempre vai "nortear" as pautas e os caminhos que a indústria segue. 

 

Por outro lado, também vai ter gente experimentando. O ser humano é um bicho muito curioso. Acredito que seja impossível fazer com que essa busca pela novidade acabe, tanto da parte de quem faz como de quem busca. E aí, acho muito importante sites como este e como o Hominis Canidae, que fazem esse papel de ajudar e disseminar esses experimentos.

 

É uma relação de eterna dependência. Para haver uma quebra de paradigma, tem que existir um paradigma, senão, não há ruptura. Fica aí dica de uma série hypada, mas que gera bons questionamentos sobre o trabalho.

 

E a música experimental tem importância fundamental, em todo esse processo. Experimentar foi o que levou toda a humanidade até aqui. Com música, não poderia ser diferente.  A meu ver, nem toda música é questionadora, mas toda música pode gerar questionamentos. Depende do ponto de vista de quem a está escutando. A melodia, por si só, já traz questões inatas. A música experimental é questionadora, desde seu ato de criação. Experimentar é questionar na prática!

 

Experimente “Expediente” aqui, nas nove plataformas de streamings.

 

Lançamento: selo Hominis Canidae REC.

 

sábado, 8 de janeiro de 2022

Rock Brasil respira ar puro em ’12 Doses de Veneno’, de Celso Madruga

 Trabalho do músico honra memória de Cazuza e expoentes do rock and rol nacional e internacional



Capa do álbum: Facebook.



Poeta desde os 15 anos de idade, antes mesmo de fazer música, o cantor, compositor e gráfico Celso Madruga (55) já ouvia muito rock and roll nacional e gringo dos anos 80. Em 1985, o Barão Vermelho de Cazuza e Frejat apareceu na vida dele como um oráculo de grande influência e fonte de inspiração; além, claro, dos clássicos internacionais: Led Zeppelin, Iron Maiden, AC-DC e The Who.

“Eu achava as bandas nacionais muito pops, com uma sonoridade leve demais. O Barão foi a que achei ter um som um pouco mais pesado, com as letras, do Cazuza, mais sérias e a ver com a minha realidade e as coisas que eu pensava” – lembra.



Imagem: Facebook


Gravado em 2020, durante a pandemia, o primeiro álbum autoral de Celso Madruga, ‘12 Doses de Veneno’, reúne todas as melhores músicas que ele fez, ao longo do tempo, desde 2002. O disco bebe muito da fonte de Jimi Hendrix, Led Zepellin, Beatles, Barão, Renato Russo, Raul Seixas, Belchior e Gonzaguinha - outras fontes de inspiração, que “têm um tipo de poesia que mais agrada”. Um pouco de cada.

Escrita em 2002, a primeira faixa, ‘Amor de Aluguel’ e em ‘Piada sem Graça’, de 2008, pode-se perceber uma grande influência da poética de Cazuza.

“Àqueles anos, eu já tinha desenvolvido um jeito de escrever que muita gente compara e diz: ‘suas letras e músicas lembram muito o Cazuza’. Para mim, é um elogio! Além do que ele ter escrito ser sensacional, Cazuza chamava a atenção por sua postura, no palco e na vida. É muito rock and roll!  – admira.   


Um artista brasileiro


Imagem: Facebook.


O gráfico Celso Madruga atua numa sociedade, onde todos os trabalhadores são donos do próprio negócio. No começo, dividir o ‘trabalho sério’ com o da música era difícil. Seus companheiros não curtiam rock e ficavam fazendo graça sobre sua atividade paralela. Nunca levavam a sério. Achavam que era apenas uma coisa de momento. Às vezes, Celso tinha que negociar com os chefes para sair um pouco mais cedo para ensaiar ou tocar em algum outro lugar.

“Comecei a fazer música depois dos 30. Eles acharam que seria apenas uma ‘modinha’. O fato é que eu comecei, não parei e espero não parar mais. Mas minha relação com eles sempre foi de boa. No meu trabalho como gráfico, mexo com arte final e já fiz vários cartazes de shows de bandas minhas, inclusive um, com a sua antiga banda, a Locomotiva (o editor do CMIND e baterista Saulo Andrade tocou nela entre 2003 e 2006), numa época em que o Vladmir, da Levante, estava fazendo um evento. A capa de um EP eu também fiz na gráfica. No geral, sempre procurei fazer as minhas coisas sem esse tipo de favorecimento. Usei uma ou outra vez, apenas, sempre com o consentimento dos outros colegas” - recorda.   

História no rock autoral

A estrada de Celso Madruga é longa. O Barão Vermelho também faz parte da trajetória de sua primeira banda, a ‘Alma da Noite’, de 2002. À ocasião, Celso mandou uma carta para a antiga revista Bizz, pedindo material do Barão e, nesse ínterim, conheceu um baixista, o Antônio Bastos, que, assim como Celso, também morava em Niterói e era fã de Cazuza e Barão Vermelho.

“Começamos a trocar figurinha. Mostrei a ele o meu primeiro caderno de poesias registrado, o ‘Peso das Palavras’. Ele gostou dos poemas e sugeriu que montássemos uma banda. Fui para o vocal e arrumamos um guitarrista, amigo meu, que frequentava a mesma igreja católica que eu, e um batera, um parceiro do meu trabalho que tocava” - ressalta.

Eles começaram a ensaiar apenas músicas autorais, no que foi a primeira vez que começou a de fato fazer suas próprias canções. Celso ia para a casa de Antônio e os parceiros as faziam ao violão, levando-as depois aos ensaios. Em três meses, já tinham em torno de 10, 12 trabalhos próprios.

“Estávamos amarradões. Mas o Antônio teve de se mudar para o Rio (a banda era toda de Niterói) e disse que ia montar outro projeto por lá, ‘A Trilha’, e me chamou para cantar. Fiquei dividido entre as duas bandas. Gravamos um primeiro CD demo, ‘Os Sonhos Não Morrem’, em 2004, e conseguimos colocar um blues, ‘Quem Ama’, para tocar na antiga Rádio Cidade” – destaca.

Com a Alma da Noite, em Niterói, Celso seguiu ensaiando e tocando em festivais. Em 2006, gravaram uma demo, sem nome, com apenas três faixas. Após um tempo, a banda se dispersou e acabou.

Em 2017, um amigo, o baterista Sardinha, chamou Celso para montar uma banda cover, focada em rock dos 80, a Plano Z. Lá ficou até 2019, quando colocou uma amiga vocalista para substituí-lo.

Parcerias musicais foram fundamentais no trabalho de Celso Madruga

Produtor do álbum, o guitarrista Alex Maldini, integrante da banda Biographia 54, começou a amizade com Celso Madruga num luau, em 2014, em homenagem a Cazuza. Além de Cazuza e Barão, eles tinham mais coisas em comum, em termos de composição: influências musicais como Led Zepellin, Black Sabbath, Iron Maiden, entre outros. A partir dali, começaram a dialogar.  



Alex Maldini. Foto: Divulgação. 



“Passei a prestar mais atenção nas redes sociais do Celso Madruga. Fiz alguns vídeos, cantando e replicando o trabalho dele. Ele curtiu bastante e também passou a acompanhar o meu trabalho. Tenho uma ligeira impressão de que ele gosta do meu jeito de tocar. A nossa linguagem musical é muito parecida. Fiquei muito feliz com o convite para produzir ’12 Doses de Veneno’. Para mim, é uma honra fazer parte de um trabalho do Celso Madruga, com essas composições sensacionais que ele criou” – elogia Maldini.  

Exemplo de superação, outro amigo e parceria de Celso é o cantor e compositor Bernardo Santos, que tem participações em duas faixas de ’12 Doses de Veneno’.

“O Bernardo, apesar do câncer de medula que contraiu em 2014, é uma pessoa muito otimista, acredita na vida. É um grande talento” – exalta Celso.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Claos Mózi & Alcachofra debutam com álbum “A minha vez, a vez de nós”

 Primeiro disco do músico conta com a participação de Júlia Vargas, Daíra e João Donato


Disco "A minha vez, a vez de nós". Imagem: Divulgação

O processo criativo e, principalmente, coletivo de gravação do novo álbum do compositor, cantor e poeta mineiro Claos Mózi (ex-Giras Gerais), “A minha vez, a vez de nós” (Spotify), faz jus ao nome. Aglutinador de ideias e talentos, Claos acredita no legado do seu primeiro trabalho autoral - totalmente concebido, nos mínimos detalhes, por ele, que uniu suas composições de 2018 e 2019 ao talento de diferentes músicos e compositores. Dentre eles, nomes como o consagrado bossa-novista João Donato, que gravou “Mó do Amor” e "Todo Leve"

 

João Donato. Foto: FOTO EKATERINA BASHKIROVA/DIVULGAÇÃO


“Conheci o João Donato no show dele, no Teatro Baden Powel, em Copacabana, a convite da Ivone Belém (esposa de Donato e gestora do teatro). Quando toquei com o Giras Gerais no Baden, em 2017, conheci a Ivone, que teve contato com o meu trabalho e gostou. Gravamos duas músicas na casa do João. “Mó do Amor” tem a presença dele e coroa todo esse processo” – conta Claos.


Claos Mózi. Foto: Neltur

Naqueles anos pré-pandêmicos de 2018 e 2019, já havia um contexto de resistência ao fascismo “democrático” brasileiro – o que pode ser notado no samba “A Vez do Morro” e em “Transgressão”, que denuncia a hipocrisia do moralismo religioso no país. Recheado de canções inéditas, a concepção do álbum contou com o empurrãozinho do guitarrista e incentivador da união Claos Mozi & Alcachofra, Augusto Feres – que, junto a Yuri Shuller, foi uma das figuras fundamentais na produção e mixagem.

Augusto Feres. Foto: Facebook. 

“O processo criativo com o Claos foi muito fluido. Rolou uma química foda entre todo mundo, desde o primeiro ensaio. Queríamos chegar numa sonoridade objetiva, com poucos elementos; ter a coisa pesada e noize. Mas o tempero regional é também o forte desse trabalho” – ressalta Feres.

Elenco de peso

O disco também contou com a participação da cantora Daíra; do acordeonista e pianista João Bittencourt; do cantor, violonista e compositor Mario Broder – cria do Farofa Carioca, ele substituiu Seu Jorge na banda – e do cavaquinista e compositor Valmir Ribeiro – que é da formação original do Farofa. Broder canta e Valmir toca cavaquinho, em duas músicas: “A Vez do Morro” e “Junta e Sai”.   

Em “Tambaquis”, participam a cantora Júlia Vargas e o violinista e cineasta Josafá Veloso - com quem Claos compôs a música -, ao violino. 

 

Júlia Vargas. Foto: Rário Graviola


No tango “Incêndios”, Mózi iniciou a poesia e depois a enviou para o compositor André Vargas dar continuidade. O cantor, compositor e violonista Ivo Vargas e o compositor Nicolas de Franchesco enviaram algumas sugestões de melodia e Claos a terminou, colocando a harmonia na canção, que também contou com a colaboração do cantor e compositor Paulo Beto.    

 


 

“A base disso tudo foi a banda Alcachofra. O Feres me apresentou esse trio, do qual ele já vem participando. Fizemos alguns shows e ficamos no ímpeto de fazer o álbum juntos, com o trio. Gosto de trabalhar coletivamente, de embarcar todo mundo com quem costumo trabalhar. À época, cantávamos canções minhas, que a Júlia havia gravado. As músicas são bem heterogêneas. A ideia foi colocar tudo o que estava pensando no momento. Eu tinha de fazer algo” – destaca Claos.

domingo, 19 de dezembro de 2021

“Quarto Mundo” relata universos particulares de Tacy

Novo trabalho da artista é recheado de baladas para ouvir a dois
Imagem: Divulgação

Como muitos músicos brasileiros – e mundo afora -, Tacy viveu a pandemia em seus diferentes momentos. Entre as restrições impostas pela covid, ela encontrou brechas para gravar, realizar algumas apresentações ao vivo e, principalmente, compor. 



 Retratando um dia-a-dia comum a todos nós, as músicas de “Quarto Mundo” transbordam a leveza de uma poética à flor da pele e para lá de intimista. Do banho, “para relaxar”, a um gole de café, e, claro, aquele tempinho precioso para dedilhar um violão e “falar de você”, “Confissão” resume a essência de “Quarto Mundo”, música que dá nome ao álbum e conta um pouco da história de Tacy e sua companheira, a produtora artística do disco Chrisce de Almeida (foto). 




Imagem: Instagram da Tacy




“Quando eu e a Chrisce nos casamos, fomos morar num quarto, em São Paulo, carinhosamente apelidado de “quarto mundo”. A letra da música foi inspirada naquela época boa, do início de tudo, e tem muito a ver com esse momento isolado da gente, em que vivemos o quarto como se fosse todo nosso próprio mundo particular” – compara Tacy.



 

Gravado em meados de 2021, o disco foi inteiramente feito com uma equipe minimalista, que gravou, a princípio, apenas duas músicas; mas tudo fluiu tão bem, que surgiu a ideia de fazer um disco inteiro, aos poucos, no ritmo da reabertura das atividades presenciais. 




O multi-instrumentista e produtor do álbum, Daniel Oliveira (foto), que gravou violões, baixo, cavaco, violino, bateria e cajon, destaca que Tacy é uma compositora muito ativa, que tem um trabalho sensível, delicado, com grande pegada de voz e violão. Das músicas que ela já havia gravado, Daniel remixou algumas, regravou outras e deixou tudo com a cara da artista.


 
Imagem: Instagram do Daniel




“Foi muito legal passar esse tempo todo com ela, nessa jornada, no dia-a-dia, vendo-a compor e encontrar soluções, ao vivo, durante centenas de horas, encontrando os caminhos para o disco” – conta Daniel. 




 Além de Tacy e Daniel, o disco contou também com a participação de Cesinha, que fez a bateria de "Confissão" e "Esfinge". 



 Distribuído pela Tratore, “Quarto Mundo” foi gravado nos estúdios Quebra-Cabeça, Menol e na casa de Cesinha e Lia Sabugosa. 



O primeiro álbum autoral de Tacy foi “O Manifesto da Canção”, gravado em 2017. 


 
“Quarto Mundo” será lançado, ao vivo, no dia 4 de fevereiro, na Sala Nelson Pereira dos Santos, em Niterói (RJ).

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Novo single: Tacy de Campos lança "Eu não te amo mais"

O single “Eu não te amo mais”, da atriz, cantora e compositora Tacy de Campos, simboliza uma fase nova musical da artista, mais intimista e despojada.



Foto: Chrisce de Almeida

 
Com uma interpretação enérgica, refrão fácil de guardar, melodia marcante e ritmo dançante, a canção é um abraço à autoestima e um convite ao amor próprio.


Sem o rock’n’roll do primeiro álbum e apostando na combinação do violão folk com a gaita blues, a música começa com Tacy recitando a poesia “Hard feelings”, extraída do livro “Distraídos venceremos”, de Paulo Leminski, que serviu de ponto de partida e inspiração para a criação da temática da letra. "Eu não te amo mais" é uma carta aberta de alívio. Desmistificando a temática universal amorosa, a letra é o avesso da dor de cotovelo: descortina a maturidade de quem admite seu desamor sem culpa. “É alguém que se descobriu livre e que está tão bem consigo mesmo, que não se importa de anunciar aos quatro ventos", a quem interessar saber "a boa nova”, conta Tacy. 









Produzida em parceria com os músicos e produtores Alexandre Costa Reis e Pedro de Freitas Branco, durante as gravações do projeto DuoPlex, em 2019, a composição chegou no estúdio com o arranjo praticamente pronto e contou com a técnica experiente de Alexandre, que gravou os violões do solo. “Foi uma canção que me pegou de cara, daquelas que, na primeira frase, já se sente a sua força. A Tacy a apresentou num recente projeto que ela tinha com o cantor e compositor Wagner José (Duoplex). Eu e Pedro, que estávamos produzindo, já nos olhamos e entendemos que se tratava de algo especial. Com um impressionante primeiro registro de voz e violões que acabaram por ser definitivos para a base da música, a coisa toda fluiu e a magia então se fez”. A faixa foi gravada parte na casa de Pedro Branco, parte no estúdio Eco Som, e finalizada, na quarentena, em home office. Também contou com a participação dos músicos Wagner José na gaita diatônica, João Muniz no baixo e Carlos Sales na percussão. A distribuição foi pela agregadora Tratore.

Arte: Chrisce de Almeida


A direção de arte da capa ficou por conta da fotógrafa e designer Chrisce de Almeida, responsável pela nova identidade visual de Tacy. Através de um cuidadoso trabalho de personal branding, Chrisce uniu elementos do masculino e feminino da personalidade de Tacy, numa metáfora com a tangerina, fruta que também remete a um coração em carne viva batendo, como se pode ouvir no término da canção. Misturando a força da letra, o impacto visual, o violão folk, suingue rítmico e a voz ímpar de Tacy, o resultado não podia ser mais otimista: uma canção leve e solar para tempos sombrios. Como define poeticamente o músico lisboeta Pedro Branco: “Amor é a palavra. Mesmo quando se deixa de amar. Amor pela canção e pelas pontes que ela pode construir. Ora, quem assim ama corre o risco de receber a palavra de volta”.

Nos últimos anos, Tacy rodou o Brasil com os espetáculos "Cássia Eller - o musical" (sucesso de público e crítica) e "Um relicário de Cássia Eller", que revisita clássicos da saudosa cantora, num amplo repertório  - que passa, também, por Cazuza, Nando Reis, Beatles, Caetano Veloso e Renato Russo -, artistas imortalizados na voz de Cássia. 





A curitibana Tacy de Campos ficou conhecida nacionalmente por seu trabalho como protagonista do Musical Cássia Eller (2014-2019). Estudante de música desde os 15 anos de idade, como a maioria dos artistas independentes do país, iniciou a carreira fazendo shows em bares. Cantou nas bandas Quarto 14 e Os Marginais - grupo que gravou o primeiro disco de Cássia Eller. Concorreu e se destacou, entre 2000 candidatas, a interpretar Cássia nos palcos. Tocou no Rock in Rio, gravou o “Versões”, do Canal Bis, e participou do especial de Natal do programa Fantástico, com Nando Reis. Sua estréia autoral foi o álbum "O Manifesto da Canção" (2017). O single “Pra você saber” foi lançado no quadro "Ding Dong", do Faustão, e atualmente passa na Multishow. Tacy também integra o projeto de covers “Imortais". "Eu não te amo mais" foi lançado em julho.





"Eu não te amo mais" está disponível no Spotify e no Youtube. Confira! 


sábado, 27 de junho de 2020

Caio Batalha carrega luta na voz e no nome



Foto: Reprodução do Youtube

Com apenas 20 anos, o cantor Caio Batalha transformou toda sua dor e revolta em arte e vem superando, com a voz, as graves situações de racismo pelas quais já passou na vida. O clipe de 'Vozes Sufocadas' foi realizado pela produtora 'Compplain', fundada por Caio e seus amigos, João Kromy e Arthur Masla, que também assinam com o artista a produção musical e do vídeo.





Apesar de jovem, Caio já é conhecido do grande público. Em 2018, foi um dos semifinalistas do quadro "Jovens Talentos", do Programa do Raul Gil, no SBT. Sua participação foi muito elogiada pelo diretor do programa, Raulzinho, que destacava sua personalidade musical e 'malemolência'.

Caio iniciou sua carreira aos 14 anos, participando de festivais estudantis pela Prefeitura do Rio, onde conquistou o primeiro lugar com a música “Tempo de solidão”. Seu estilo é bem variado, porém o R&B, o RAP e a MPB são suas preferências, na hora de compor. Em 2019, Caio Batalha lançou seu primeiro clip oficial com a música 'Bem que tá bom'. De lá pra cá, não parou de compor e garante que muita coisa boa está por vir!





Instagram: @caiobatalha

Facebook: Caio Batalha

sábado, 20 de junho de 2020

Luta e voz: Mayara Palmeira, uma cantora brasileira

Na festa de cinco anos do Sarau do Cahon. Foto: Facebook.


Nascida e criada na comunidade do Inferninho/Macedo Soares, em Piratininga, Niterói (RJ), a cantora, violonista, baixista e percussionista Mayara Palmeira começou a dedilhar os primeiros acordes de violão aos 15 anos de idade. Cresceu vendo os shows de Michael Jackson, no HIStory Tour. Foi com ele que aprendeu a dançar e a cantar. Ela o via na TV e queria fazer tudo aquilo. Autodidata, canta desde criança, mesmo sem ter feito aulas.     

Mas foi com a professora de canto, Laura Valladares, que Mayara começou a melhorar sua técnica. Desde os 18 anos, ela canta profissionalmente em bares, restaurantes e festas de aniversários: 

"É a minha vida! Já fiz até o Moto Fest de Maricá, com a banda Biokimi-K. Depois de um tempo, pensei até em desistir, porque eu não me sentia à vontade - até mesmo castrada -, enquanto artista. Resolvi resgatar minhas músicas, que compus quando tinha 15 anos, e comecei a me apresentar sozinha, com o incentivo de alguns amigos músicos que acreditam no que faço e sempre me apoiam". 


Foto: Matheus Accorsi


Tomando coragem, hoje, para a artista, é mais do que necessário cantar suas músicas e apresentar o seu trabalho. 




Em 2020, ela iria começar a fazer algumas gravações com o Daniel Cahon, com quem trabalha produzindo o Sarau do Cahon. A ideia era preparar material de foto, vídeo, e começar a pagar o MEI (Micro Empreendedor Individual), para tirar a carteira de musicista e produzir eventos. Antes da pandemia, ela também estava disposta a pagar por serviços que alavancassem o seu trabalho, tornando-os rentáveis:

"Eu ia até me mudar, mas a quarentena jogou um banho de água fria em todos os meus planos e acabei tendo de gastar o dinheiro que eu havia juntado - e era destinado ao investimento da minha carreira". 

Além de cantar, Mayara faz freelancer como garçonete, no tradicional Restaurante Seu Antônio, em Piratininga, que fechou por conta dos protocolos sanitários de enfrentamento à Covid-19: 

"A vida de musicista não paga minhas contas sozinha, mas me ajuda muito a sobreviver. Agora, não tenho nem um trabalho nem outro: apenas o auxílio emergencial. Com ele, pago as contas, vou ao mercado, e só; fim: acabou o dinheiro". 


Foto: Facebook.


Batalhadora, ela não desiste. Atualmente, está tentando buscar uma forma de conseguir alavancar um "chapéu virtual", através das redes sociais. Afinal, música é como o ar que Mayara respira: 

"Quando eu ainda estudava na UFF, dividia o meu tempo, também, com o trabalho de garçonete, no restaurante, e a música, sempre em busca do meu sonho. Eu só quero uma oportunidade! Acredito no que escrevo, toco e canto. Sei que tenho um diamante bruto, que preciso lapidar. Quero correr atrás disso, botar meus projetos pra frente, fazer meus eventos, criar projetos culturais aqui na comunidade onde moro, nasci e me criei! Amo esse lugar e quero torná-lo referência, porque, aqui, temos vários artistas que não são reconhecidos. Somos nós por nós mesmos!". 

Experiência de Mayara como artista:

Banda Osírius - voz e violão - 2009 a 2012. Performance e execução musical, ao vivo, em eventos como festas, aniversários e casamentos. Voz principal e violonista. 

Banda Mírah - contrabaixo - 2011 a 2013. Performance e execução musical, ao vivo, em festivais, como contrabaixista: arranjadora nas composições autorais da banda. 

Banda Ducarma - voz - 2016 a 2017. Performance e execução musical, ao vivo, em eventos como aniversário de motoclubes, por exemplo; shows em bares e restaurantes, como vocalista da banda. 

Operando Sem Batuta - voz (coral) - 2016 a 2018. Execução musical e performance de óperas no coral do projeto como coralista contralto. 

Banda Power - voz e percussão - 2017. Execução musical e performance em eventos como festivais, shows em bares e restaurantes. Voz principal e percussionista da banda.

Banda Biokimi-K - voz e percussão - 2017 a 2018. Performance e execução musical em eventos da prefeitura de Maricá (RJ), como o Moto Fest da cidade. Eventos, como aniversário de motoclubes. Voz principal e percussionista da banda.

Redes sociais: 

Youtube: https://www.youtube.com/channel/UC17pHc2V3zn-hNy0Bm7TNoA

Facebook: https://www.facebook.com/mayarapalmeiraoficial/

Instagram: https://www.instagram.com/elapalmeira/?hl=pt-br



sexta-feira, 19 de junho de 2020

Gilber T faz versão para "Sinnerman", de Nina Simone

Desligar-se da matéria para liberar o sentimento. A ancestralidade do sofrimento do povo preto vem à tona na voz do guitarrista, cantor e compositor Gilber T, que disponibilizou, ontem, aqui, a sua interpretação para "Sinnerman", canção de Nina Simone que virou um dos símbolos-marco da época dos conflitos sobre os direitos civis nos Estados Unidos.

"Coincidentemente", nas últimas semanas, com a morte de George Floyd e a marcha mundial do Lives Black Matters (vidas negras importam!), muita gente lembrou da música. Com Gilber não foi diferente:

"Minha busca sempre foi a profundidade das coisas e, quando eu não as conheço, preciso assimilá-las, até para não retomá-las, se for este o caso. Sinceramente, não gravei a canção pelo momento. O que está rolando eu já canto em minhas composições e me cerco de iguais que contestam e protestam pelas mesmas coisas. Sinnerman foi uma feliz coincidência porque vidas negras importam - e muito!".

Imagem: Facebook
Confira o clipe:




Tudo começou quando, num dado momento, com a sugestão do amigo e produtor Tomás Magno, o músico vislumbrou regravar a obra; extremamente significativa, neste momento histórico de pandemia pelo novo coronavírus e da luta contra o racismo, nos Estados Unidos e em todo o mundo.

Em junho de 2019, Gilber já estava com a estrutura da canção bem adiantada para gravar. À ocasião, ele havia convidado o baterista Robson Riva (Seletores de Frequência) para fazer um registro na Tomba Records, em Niterói (RJ). Amarrados à gravação de piano, guitarras, contrabaixos e synth - que já havia feito em casa - o artista procurou interpretar o tema "sem a vaidade de induzir sentimentos alheios, através de maneirismos ou alguma verdade que não fosse a dele":
 Maurício Garcia, Gillber e Robson Riva. Foto: Facebook
"A voz foi a parte mais difícil, porque a Nina tomava todas as músicas para ela e, aos meus ouvidos, todas as versões dela são definitivas, impecáveis e clássicas. Eu queria o meu tom e andamento; respeitar as minhas próprias limitações. Preparei-me meses, não só para decorar a letra. Era preciso assimilá-la de tal forma a não pensar nela, mas, sim, no seu real significado".

A intenção era lançar, naquele final de 2019, entre o Natal e o Ano Novo, como uma forma de "exorcizar tantos acontecimentos estranhos e um sentimento de impotência ante a intolerância e toda sorte de absurdos". Adentramos 2020 e se passaram alguns meses:

"Lembro de um último show com o Bnegão e os Seletores de Frequência, em São Paulo. Tocávamos as músicas do Sítio do Pica Pau Amarelo. Foi muito bonito. Ao término, já era anunciada a quarentena, que se iniciaria efetivamente em todo o país, por tempo indeterminado, devido à propagação da Covid-19. O simples ato de ligar a TV para assistir um noticiário me deixava muito desiludido. Mas não foi daquela vez que uma espécie de tristeza e apatia me venceu".

No lançamento de "Brodagens", de Pedro de Luna. Foto: Facebook.
Sensação que acomete muita gente do meio musical durante a quarentena, muitas vezes o fato de estar com todo o tempo do mundo para produzir, com todos os equipamentos disponíveis, não significa, necessariamente, tesão para fazer qualquer coisa:

"Incrivelmente, amanhecia e eu sequer conseguia olhar para um instrumento. Rolava uma apatia e um vazio criativo, que me assolou durante semanas. Quando eu achava que ia dar, pintava a notícia de que alguém próximo perdeu a vida pela Covid".

Numa manhã, Gilber ligou para a mãe. À ocasião, conversavam sobre o privilégio de poder estar em casa, mantendo a quarentena, enquanto profissionais de saúde não só arriscavam suas vidas, mas eram submetidos à fúria de negacionitas:

"Daí, ela me falou: 'você viu o que aconteceu com aquele menino? Que coisa horrível!'. Era sobre a morte do menino João Pedro, no complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ). Eu já começava a registrar algumas coisas, mas, naquele momento, fui da tristeza profunda à vontade de gritar algo; a versão que tinha quase pronta me retornou como o grito que meu peito queria por para fora. Retornei à canção com o Bruno Marcus fazendo a mixagem e todas as trocas, feitas remotamente, em nossas casas".

Com o amigo - também músico - Mário Travassos, falecido em 2017
O sentimento de Gilber em relação à Sinnerman é espiritual. Trata-se de uma canção que atravessou séculos, primeiramente sendo cantada por escravos e, depois, assimilada e absorvida pelo gospel norte-americano, como uma música de expurgo:

"Em minha mente, foi uma forma de fazer minha mea culpa de pecador convicto - de alguma forma. Precisamos enxergar o quão falhamos como pessoas, sendo intransigentes, vivendo privilégios para salvar a própria pele, sem dar a devida importância a quem só quer viver e fazer viver, mesmo com tudo indo contra".
Quem é Gilber T?
Com três álbuns gravados pela Tomba Records ("Eu não vou morrer hoje", de 2010; "Dia incrível", de 2014; e "Contradições", de 2016), Gilber T vem da efervescente cena underground de São Gonçalo e Niterói dos anos 1990, época em que tocou na banda Tornado, de hardcore/rap (crossover):

"Sempre cultivei carinho e respeito pelas cenas rock e hip hop".

Em 2016, o jornalista e escritor Pedro De Luna lançou o livro "Brodagens", que Gilber não considera uma biografia:

"Aceitei cumprir o papel de fio condutor, para falar de uma cena frutífera de artistas e bandas dos anos 90. Achei algo muito importante, porque a obra fala de meninos e meninas que botavam a mão na massa numa época sem internet. Era tudo presencial. Compartilhava-se música em trocas e cópias de fitas k7, informação em revistas e fanzines (venho de longe rs !). Então, não é possível, para mim, falar ou fazer algum trabalho artístico que não seja para provocar, através do estranhamento ou no simples impulso de transmitir amor numa canção tradicional como Sinnerman".


Sinnerman (Nina Simone) - Download grátis: https://gilber-t.bandcamp.com/track/sinnerman
Ficha técnica ( Áudio):
Vocal, guitarra, sintetizador, contrabaixo e arranjo por Gilber T.
Piano e Backing Vocal: B Brecht.
Bateria: Robson Riva.
Gravado e mixado entre 2019 e 2020 na Tomba Records e na T' House.
Produzido por B Brecht e Gilber T
Masterizado por Seu Cris no Estúdio La Cueva.
Ficha técnica ( Vídeo):
Direção, câmera e ator: Rabu Gonzales.
Câmera: Isabel Valente.

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