domingo, 19 de abril de 2026

Marujinhos Pataxó celebram cura e identidade no álbum Cantigas de Roda Ancestrais

Foto: Elisa Braga



Entre sambas indígenas e memórias de anciãos, novo álbum resgata a identidade da Aldeia Mãe e conquista reconhecimento nacional

Um Brasil que canta para não esquecer quem é. Na Aldeia Mãe Barra Velha, ao pé do Monte Pascoal, no sul da Bahia, o tempo não corre: ele ciranda. É na terra onde o país começou que a resistência indígena se mantém viva e faz nascer o álbum "Cantigas de Roda Ancestrais". Mais do que um projeto fonográfico, o trabalho dos Marujinhos Pataxó é um manifesto sonoro de sobrevivência, unindo a pureza das vozes infantis à sabedoria milenar de quem já viu a história arder.

O coração do disco bate no ritmo de Maria Coruja. Aos 86 anos, a anciã surda é uma das últimas memórias vivas do "Massacre do Fogo" de 1951. Hoje, ela transforma o trauma em transmissão de saber. Foi através dos seus gestos e ensinamentos que as cantigas tradicionais e o samba indígena foram resgatados do esquecimento para serem entregues às mãos — e gargantas — das crianças da comunidade.


Foto: Theo Bueno

O resultado é um encontro geracional potente: os pequenos Pataxó assumem o papel de guardiões da cultura, gravando em estúdio, ao lado de suas mestras. O projeto é fruto de um ano de oficinas e um mapeamento cultural que percorreu 35 aldeias, provando que a oralidade é uma tecnologia de preservação imbatível.



Da aldeia ao Palácio

Foto: divulgação

A força deste movimento ultrapassou as fronteiras do território. Em março de 2025, o grupo viajou até Brasília para receber o 38º Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, a mais alta honraria do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). O reconhecimento celebra a revitalização do samba indígena, um ritmo que é, simultaneamente, ritual, espiritual e modo de vida.


Foto: Elisa Braga

Enquanto o mundo ouve o remix de "A Força dos Encantados" (produzido pelo duo Tropkillaz) ou assiste ao documentário Pataxi Imamakã em festivais de cinema como o de Trancoso, a Aldeia Mãe reafirma-se como um polo de produção cultural vibrante. Ali, a música é uma ferramenta política, na luta pela demarcação de terras e pela afirmação de um património que é vivo, pulsante e indomável.



“Cantigas de Rodas Ancestrais” já está disponível em todas as plataformas de streaming. Ouça: Cantigas de Roda Ancestrais

Mergulho na Ancestralidade



Para quem deseja conhecer as camadas mais profundas desta história, o projeto desdobra-se em outras artes, como o livro Memórias Ancestrais, o documentário "Tecendo Ancestralidade nas Linhas do Tucum", além dos bastidores "Cantigas de Roda Ancestrais da Aldeia Mãe".

 

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