sexta-feira, 8 de maio de 2026

Elton John é a música que preenche a dor

Foto: reprodução/YouTube

 

 Por Marcos Vinicius Cabral 
A primeira vez que ouvi Elton John foi com Little Jeannie, em 1980. Eu tinha entre sete e oito anos, idade em que a gente ainda não entende direito o mundo, mas já começa a guardar para sempre certas emoções sem perceber. 

A belíssima canção tocava o tempo inteiro no rádio, atravessando as tardes frias de Nova Friburgo, entrando pela janela de casa, misturando-se ao cheiro do café e às conversas simples da família. 

Meu tio Baiano gostava dela.

E talvez tenha sido ali, sem que eu soubesse, que a música começou a construir dentro de mim uma espécie de abrigo invisível contra o tempo.

Na adolescência, fui descobrindo que Elton John não era apenas um cantor popular. Havia algo de profundamente humano em suas músicas. 

Canções como Goodbye Yellow Brick Road parecia falar sobre abandonar ilusões; I Guess That's Why They Call It the Blues carregava a tristeza elegante das despedidas; Sad Songs (Say So Much) me ensinava que algumas dores só a música consegue compreender; Nikita tinha a solidão das paixões impossíveis; e Sacrifice parecia escrita para adultos que aprenderam tarde demais o preço do amor.

As pessoas falavam muito dos óculos extravagantes, dos chapéus absurdos, do brilho espalhado pelos palcos. Mas aquilo tudo era pequeno perto do homem chamado Reginald Kenneth Dwight. Porque por trás do espetáculo existia alguém capaz de transformar fragilidade em arte. E poucos artistas tiveram coragem de mostrar tanto do próprio coração como ele.

Mas foi Empty Garden (Hey Hey Johnny) que mudou completamente a forma como eu enxergava Elton John. Não era apenas uma música. 

Era uma ferida aberta cantando. 

Era um homem tentando conversar com o silêncio deixado pela morte do amigo John Lennon. Quando ouvi aquela canção pela primeira vez, senti algo diferente. 

Como se Elton estivesse perguntando ao mundo inteiro por que certas pessoas precisam partir cedo demais. Como se ele soubesse que nunca mais existiria outro igual.

E a verdade é que a morte de John Lennon mudou o mundo.

Mudou porque matou não apenas um músico, mas uma esperança. Em 8 de dezembro de 1980, quando Lennon foi assassinado com cinco tiros por Mark Chapman, parecia que alguém havia apagado uma luz que iluminava milhões de pessoas desde os anos de 1960. 

O mundo perdeu parte da inocência naquele dia. A música perdeu um dos seus maiores poetas. E muitos de nós descobrimos, da pior maneira, que até os homens que pareciam eternos podiam cair diante da violência absurda da realidade.

Elton John sentiu aquilo como quem perde um irmão. E talvez Empty Garden seja tão dolorosa justamente porque não tenta esconder a dor. Não existe raiva exagerada na canção. 

Existem um vazio e uma saudade até hoje.

Existe aquele silêncio terrível que fica quando alguém amado desaparece e o mundo continua seguindo normalmente, como se nada tivesse acontecido.

Desde então, comecei a perceber que as grandes músicas não envelhecem porque elas falam das perdas que todos carregamos. E Elton John sempre soube cantar perdas como poucos.

A única vez que tive a chance de vê-lo ao vivo foi em 1995, na Gávea. Eu finalmente iria assistir de perto ao artista que acompanhava minha vida desde a infância. 

Mas no mesmo dia precisei viajar para Nova Friburgo, minha terra natal, para batizar Maicon, meu saudoso afilhado. 

Só que o destino resolveu ser cruel de uma forma quase impossível de explicar: o padre não apareceu. 

Não houve batizado. 

Não houve show. 

Voltei cantarolando várias vezes Sacrifice de Nova Friburgo a São Gonçalo como se estivesse no show na Gávea.

E até hoje essa lembrança me machuca de um jeito estranho, porque perdi duas coisas importantes no mesmo dia: a oportunidade de ver um ídolo e um momento que jamais voltaria com alguém que hoje já não está mais aqui.

Talvez seja isso que Elton John sempre tenha entendido tão bem: a vida é feita de ausências. 

Algumas chegam devagar.

Outras arrancam pedaços inteiros da gente de uma só vez.

Mesmo assim, seguimos ouvindo música.

Porque certas canções fazem mais do que tocar nossos ouvidos. Elas seguram nossa memória pelas mãos. 

Elas devolvem pessoas que o tempo levou e fazem um menino de sete anos voltar a ouvir rádio dentro de casa. 

Fazem um homem lembrar do tio Baiano. Fazem um afilhado continuar vivo dentro da saudade. E fazem um artista chamado Elton John permanecer eterno, não pelos óculos ou pelos palcos, mas porque soube transformar a dor humana em algo que nunca morre.

***

Marcos Vinicius Cabral:

Formado em Comunicação Social pela Anhanguera, campus Niterói, é jornalista com passagens pelo O São Gonçalo, A Tribuna, Coluna do Fla e o POVO. Rubro-negro desde o nascimento é, ao lado de Sergio Pugliese, autor do livro sobre o Leandro, ex-lateral do Flamengo e da seleção brasileira.

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