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| Fotos: redes sociais/Clem Burke |
Antes do glamour da new wave e do estrelato global, o Blondie era apenas uma ideia, sobrevivendo entre o lixo acumulado e a decadência urbana da Nova York de 1975. Em um relato íntimo e visceral, o baterista Clem Burke resgatou, no suplemento Culture (The Sunday Times), deste domingo (3), as memórias de como um anúncio de jornal mudou o rumo da história da música e de sua própria vida.
Tudo começou com um anúncio de classificados no jornal Village Voice. O texto era direto e carregado de urgência: "Precisa-se de baterista musicalmente experiente e com energia freak para banda de rock de NYC com vocalista feminina já estabelecida".
Ao chegar para a audição, Burke se deparou com rostos conhecidos do submundo noturno: Chris Stein e Debbie Harry. "Mesmo à primeira vista, Debbie tinha todas as facetas para prender sua atenção", recorda Burke. Para ele, ela era uma mistura magnética do frescor de Marilyn Monroe com a vulnerabilidade de Jean Harlow, envolta em uma aura de "Warhol cool".
A Nova York daquela época não era para amadores. A cidade estava "no soro", com serviços públicos em colapso e bairros inteiros tomados pelo abandono. Enquanto Debbie Harry equilibrava a vida de estrela em ascensão, com um emprego de garçonete de biquíni no Financial District, Chris Stein mantinha o "QG" da banda em um apartamento no SoHo, onde a banheira na cozinha servia de balcão e ponto de encontro. Burke descreve uma rotina de guerrilha urbana.
Logística
Debbie acordava ao amanhecer, todos os dias, apenas para trocar o carro de lado na rua e evitar que fosse guinchado pela prefeitura.
O icônico CBGB, hoje um templo do rock, era descrito por Burke como um lugar sujo e negligenciado na Bowery, cercado por sopões comunitários e pessoas em situação de vulnerabilidade.
Apesar da sujeira e do perigo — com bêbados jogando garrafas das janelas do hotel vizinho —, o CBGB tornou-se o "marco zero" para o Blondie, ao lado de nomes como Ramones e Talking Heads. Para Burke, a pobreza da época não era um obstáculo, mas um catalisador. "A gente não precisava de dinheiro para fazer o que fazia. Se tivéssemos fome, um sanduíche de 25 centavos na mercearia nos sustentava até a próxima aventura", recorda-se o músico.
Para o baterista, a decadência da cidade agiu como um combustível para a criatividade. O Blondie não buscava o sucesso financeiro imediato, mas sim a energia da cena. O tempo, no final das contas, provou que Burke estava certo: o mundo levaria apenas alguns anos para finalmente alcançar o que ele viu naquela primeira audição.
Nota: este texto é uma adaptação baseada em trechos de "The Other Side of the Dream: My Life in and out of Blondie", de Clem Burke.




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