quinta-feira, 9 de abril de 2026

Angine de Poitrine: sopro de resistência nas frestas do algoritmo

 

Todas as fotos: redes sociais Angine de Poitrine

A febre da inteligência artificial vem ameaçando reduzir a composição musical a uma mera análise probabilística, compilada, de sucessos passados. Apesar de a humanidade, especialmente músicos e compositores, depararem-se com tal crise criativa, surge, nas entranhas de Saguenay, no Quebec, Canadá, uma “anomalia” necessária: o duo Angine de Poitrine.


Mais que viralizar, a irreverente dupla, trajada em macacões com desenhos de bolinhas e máscaras, instaurou um curto-circuito na lógica do consumo imediato.

Assistir às performances de Khn e Klek – codinomes já apelidados de “Slipdots” – é presenciar o caráter disruptivo e transgressor, em tempo real. Enquanto a IA busca a perfeição matemática e a simetria sonora para agradar ouvidos medíocres, os caras abraçam a “fricção”, o erro controlado e a complexidade manual.  

Do fuzil ao código

Entre as décadas de 1960 e 1980, o Brasil viveu sob o peso de uma ditadura militar, que tentou amordaçar a subjetividade, fazendo surgir, ironicamente, a genialidade de três exemplos de artistas que sabiam se utilizar da linguagem metafórica nas letras das músicas, com harmonia sofisticada e deboche, para furar a bolha da censura: Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil. Hoje, surge o Angine de Poitrine, que quebra a ditadura dos algoritmos com guitarras de dois braços, baterias surpreendentes e métricas improváveis – às vezes até impossíveis de serem acompanhadas por músicos que se propõem a fazer cover de qualquer uma das músicas dos canadenses.



Não tivemos, por pouco, de novo, no país, generais censurando letras de músicas; mas, aqui e lá fora, vivencia-se a banalização da música. Se, há alguns anos, ela era taxada como “ambiente” ou “de elevador”, hoje ela vive em meio a códigos padronizados pela ditadura de algoritmos que “revelam” – ou determinam – o que deve ser ouvido: temas com introduções curtas e refrões chicletes, para não perder o usuário do streaming e das redes sociais.

Mas a arte, felizmente, nasce da resistência ao sistema vigente. É nesse regime de padronização que o Angine de Poitrine pode, guardadas, claro, as devidas proporções históricas e estéticas, assemelhar-se àqueles tropicalistas.

Música microtonal


O pulo do gato do duo é o uso da microtonalidade. Para o ouvinte comum, acostumado com a escala ocidental de 12 notas (as teclas brancas e pretas do piano), a música deles pode soar, inicialmente, como “desafinada”. Mas não se iluda: trata-se de uma técnica milenar e rigorosa.

A música microtonal utiliza intervalos menores que um semitom. Imagine que, entre o Dó e o Dó sustenido, existissem outras duas ou três notas escondidas. O Angine usa instrumentos modificados, muitas vezes com trastes extras, serrados manualmente, para alcançar essas frequências.

Nada de novo no front: civilizações orientais, como a indiana e a árabe, utilizavam sistemas musicais semelhantes, há milênios: caso dos ragas e magams.



No ocidente, nomes como o do mestre do experimentalismo Frank Zappa já haviam explorado tais terrenos. Mas o mérito do Angine de Poitrine é trazer tal “estranheza”, cumprindo com a “função” da arte, no centro do palco pop/rock de 2026. Genial.



Máscaras que desmascaram

Esteticamente, as máscaras que ocultam as identidades de Khn e Klek remetem a uma linhagem de artistas que escolheram o anonimato para que o som soasse mais alto que o ego. Quem não se lembra de testemunhar a mesma atitude no Daft Punk, no The Residents ou até da contemporânea teatralidade, com peso, do Ghost e do Slipknot. No caso do Angine, o anonimato pode servir como uma crítica à espetacularização da vida privada: lugar mais que comum nas redes sociais hoje.


Apesar da virtuose exibida em álbuns como “Vol. 1” (2024) e o recém-lançado “Vol. II” (2026), com faixas como Fabienk e Mata Zyklek, é preciso ser honesto: as músicas não “viciam”, no sentido tradicional do verbo. Talvez porque a importância do Angine de Poitrine vá além do conforto aos ouvidos. Eles não buscam o topo das paradas: o que querem é expandir os limites do que consideramos música. São uma espécie de “professores”; um farol para outros artistas que, sufocados pela mesmice do
streaming, sentem medo de experimentar. Ao se lançarem ao universo inexplorado do som, o duo prova que, num mundo dominado por máquinas e superficialidade, o espírito humano é capaz de preservar a sua essência fundamental: criar.  


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