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| Todas as fotos: redes sociais Angine de Poitrine |
A febre da inteligência artificial vem ameaçando reduzir a composição musical a uma mera análise probabilística, compilada, de sucessos passados. Apesar de a humanidade, especialmente músicos e compositores, depararem-se com tal crise criativa, surge, nas entranhas de Saguenay, no Quebec, Canadá, uma “anomalia” necessária: o duo Angine de Poitrine.
Mais que viralizar, a irreverente dupla, trajada em macacões com desenhos de
bolinhas e máscaras, instaurou um curto-circuito na lógica do consumo imediato.
Assistir às performances de Khn e Klek – codinomes já apelidados de “Slipdots” –
é presenciar o caráter disruptivo e transgressor, em tempo real. Enquanto a IA
busca a perfeição matemática e a simetria sonora para agradar ouvidos
medíocres, os caras abraçam a “fricção”, o erro controlado e a complexidade
manual.
Do fuzil ao
código
Entre as décadas de
1960 e 1980, o Brasil viveu sob o peso de uma ditadura militar, que tentou
amordaçar a subjetividade, fazendo surgir, ironicamente, a genialidade de três
exemplos de artistas que sabiam se utilizar da linguagem metafórica nas letras
das músicas, com harmonia sofisticada e deboche, para furar a bolha da censura:
Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil. Hoje, surge o Angine de Poitrine,
que quebra a ditadura dos algoritmos com guitarras de dois braços, baterias
surpreendentes e métricas improváveis – às vezes até impossíveis de serem
acompanhadas por músicos que se propõem a fazer cover de qualquer uma das
músicas dos canadenses.
Não tivemos,
por pouco, de novo, no país, generais censurando letras de músicas; mas, aqui e
lá fora, vivencia-se a banalização da música. Se, há alguns anos, ela era
taxada como “ambiente” ou “de elevador”, hoje ela vive em meio a códigos
padronizados pela ditadura de algoritmos que “revelam” – ou determinam – o que
deve ser ouvido: temas com introduções curtas e refrões chicletes, para não
perder o usuário do streaming e das redes sociais.
Mas a arte, felizmente,
nasce da resistência ao sistema vigente. É nesse regime de padronização que o
Angine de Poitrine pode, guardadas, claro, as devidas proporções históricas e
estéticas, assemelhar-se àqueles tropicalistas.
Música microtonal
O pulo do gato do duo é o uso da microtonalidade. Para o ouvinte comum,
acostumado com a escala ocidental de 12 notas (as teclas brancas e pretas do
piano), a música deles pode soar, inicialmente, como “desafinada”. Mas não se
iluda: trata-se de uma técnica milenar e rigorosa.
A música microtonal utiliza intervalos menores que um semitom. Imagine que, entre
o Dó e o Dó sustenido, existissem outras duas ou três notas escondidas. O
Angine usa instrumentos modificados, muitas vezes com trastes extras, serrados
manualmente, para alcançar essas frequências.
Nada de novo no front: civilizações orientais, como a indiana e a árabe,
utilizavam sistemas musicais semelhantes, há milênios: caso dos ragas e magams.
No ocidente, nomes como o do mestre do experimentalismo Frank Zappa já haviam
explorado tais terrenos. Mas o mérito do Angine de Poitrine é trazer tal “estranheza”,
cumprindo com a “função” da arte, no centro do palco pop/rock de 2026. Genial.
Máscaras que
desmascaram
Esteticamente,
as máscaras que ocultam as identidades de Khn e Klek remetem a uma linhagem de
artistas que escolheram o anonimato para que o som soasse mais alto que o ego.
Quem não se lembra de testemunhar a mesma atitude no Daft Punk, no The Residents
ou até da contemporânea teatralidade, com peso, do Ghost e do Slipknot. No caso
do Angine, o anonimato pode servir como uma crítica à espetacularização da vida
privada: lugar mais que comum nas redes sociais hoje.
Apesar da virtuose exibida em álbuns como “Vol. 1” (2024) e o recém-lançado “Vol. II” (2026), com faixas como Fabienk e Mata Zyklek, é preciso ser honesto: as músicas não “viciam”, no sentido tradicional do verbo. Talvez porque a importância do Angine de Poitrine vá além do conforto aos ouvidos. Eles não buscam o topo das paradas: o que querem é expandir os limites do que consideramos música. São uma espécie de “professores”; um farol para outros artistas que, sufocados pela mesmice do streaming, sentem medo de experimentar. Ao se lançarem ao universo inexplorado do som, o duo prova que, num mundo dominado por máquinas e superficialidade, o espírito humano é capaz de preservar a sua essência fundamental: criar.



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